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Baia de Halong
Diário do Vietnam
Daniel Japiassu
Primeiro dia: Ho Chi Minh
Pecados de Guerra
Passeando pelo centro de Saigon (aliás,
Cidade de Ho Chi Minh), deparei com todo tipo de mascate: quem tem
uma relíquia da guerra tenta vendê-la pelo melhor preço.
Os chapéus da época do líder Ho Chi Minh estão
pela hora da morte (300 mil dongs, algo como US$ 20); mais vale
comprar uma imitação (US$ 3), na loja dos túneis
Cu Chi, sobre os quais falarei um pouco mais adiante. Já
os estilhaços de bombas americanas são uma pechincha:
de US$ 1 a US$ 2. Andando um pouco mais é possível
encontrar verdadeiras obras de arte confeccionadas com pedaços
de morteiros e granadas. Mas aí é preciso botar a
mão no bolso: cada peça sai por cerca de US$ 10.
As marcas do conflito (um dos mais sanguinários
da história recente deste maltratado planeta) estão
mesmo em toda a parte. O vietnamita se orgulha de seu país,
se orgulha de ter posto os yankees para correr, numa época
em que o mundo ocidental tinha sua meca na cidade de Nova York -
hoje mudaram a meca para Miami.
O Museu Histórico de Saigon é
um dos melhores exemplos disso. Lá, o visitante pode conhecer
o outro lado de uma história que parece tão familiar.
Destaque para o salão Verdades da Guerra, onde estão
expostas fotos dos horrores vividos pelo povo vietnamita e dos herdeiros
da absurda guerra tóxica imposta pelos Estados Unidos. Os
efeitos do agente laranja, por exemplo, sobre as crianças
nascidas a partir de 1975 são revoltantes. Há todo
tipo de aberração, desde meninos sem braços
nem pernas até fetos de bebês sem cérebro e
mulheres com a chamada "pele de urso", malformação
que empresta um aspecto absolutamente desumano à derme.
Enquanto enveredava pelos corredores do museu,
segui (involuntariamente) um casal de americanos - típicos,
diga-se. Ela, uma loura de olhos azuis visivelmente acima do peso,
tinha a fisionomia tensa, o rosto lívido do mais genuíno
pânico; ele, um ex-fuzileiro (a julgar pela tatuagem azul
e verde no antebraço, com o símbolo da marinha americana),
respondia a cada esgar de espanto da mulher com um muxoxo incompreensível.
Senti-me satisfeito por perceber que a exposição cumpria
seu papel, o de chocar o desavisado turista. Além disso,
onde - a não ser em Saigon, mais célebre palco da
guerra - teríamos a oportunidade de conhecer a visão
do vencedor?
O Inimigo Invisível (Os Túneis
Cu Chi)
Quando começava a chover, os pelotões norte-americanos
paravam a caminhada na densa selva vietnamita e aguardavam por uma
rápida estiagem. Quando o chão ficava muito úmido,
o combate se tornava ainda mais perigoso. Era comum grupos inteiros
de fuzileiros desaparecerem em poucos segundos, vítimas de
armadilhas de caça ou dos vietcongs escondidos sob seus pés.
Utilizados pela primeira vez durante a guerra
contra os franceses, nos idos dos anos 50, os túneis Cu Chi
são uma esplêndida obra de engenharia. Formados por
três andares subterrâneos, com a infra-estrutura básica
para manter os soldados protegidos das intempéries e do inimigo,
os túneis eram o inimigo invisível que levava os norte-americanos
à loucura.
São mais de 40 quilômetros de
passagens escavadas a até oito metros do solo, cujas entradas
ficam nos locais menos esperados. Esta verdadeira cidade secreta
é um dos grandes pontos turísticos de Saigon e um
dos momentos em que é possível voltar no tempo e viver
um pouco daqueles dias tumultuados.

Vila flutuante próxima ao delta
do Mekong
Segundo dia: Ho
Chi Minh
Um Rio Chamado Vietnã (O Mekong)
Minha guia, Nguyen, é uma moça divertidíssima.
E parece mesmo fã de seu trabalho. Pegamos o barco a motor
e subimos o rio Mekong, onipresente enquanto o visitante se deslocar
pelo Vietnã. Pode-se dizer que o império vietnamita
de séculos só foi possível graças a
esse curso d'água. E que a reconstrução do
país passará por suas margens, sem sombra de dúvida.
Enquanto tento tirar algumas fotos, Nguyen
me mostra o trabalho artesão das ribeirinhas. São
vasos, panelas, potes e outros itens de decoração
confeccionados com o barro fértil que se deposita nas encostas
do Mekong quando ele sobe no período das grandes tempestades
e enchentes.
Aproveite, pois aqui seus dólares valem
ouro. Ou mais!
Enquanto as mulheres moldam aquela lama ancestral,
os homens e as crianças montam as redes de pesca e as armadilhas
para peixes maiores, todas de bambu - um trabalho que requer paciência
(tipicamente oriental) e atenção. A isca? Carne de
coco.
Aproveito a parada para conversar em um inglês
macarrônico com alguns moradores locais. Acabo tentando mesclar
o mau inglês com o péssimo francês. Com a boa
vontade característica dos povos esquecidos das margens do
Mekong, eles me entendem. E querem saber se Ronaldinho voltará
a jogar assim que descobrem que o visitante é brasileiro.
Infelizmente, sou obrigado a frustrá-los.
O almoço é um espetáculo
de fartura e extravagância - que vale cada saboroso suspiro:
peixe-elefante e sopa de arroz com cogumelos (que não me
renderam o efeito desejado). Para acompanhar, aguardente de cobra.
A sobremesa é um mix de frutas locais, dentre as quais uma
que eles chamam de pêra vermelha. Não, não,
leitor! Não se trata daquelas que se podem encontrar no Brasil
nas melhores casas do ramo. É uma fruta estranhíssima,
cuja polpa é arenosa e o gosto lembra um pouco o pêssego
e muito a nêspera.
Cerca de 15 mil pessoas vivem nas vilas ribeirinhas
do Mekong, rio que chega a ter dois quilômetros de margem
a margem nos pontos mais largos. Vivem da pesca e, atualmente, do
turismo - já que alemães e outros povos branquelos
não podem ver um camarão...
Terceiro Dia: Da
Nang-Hoi An
A Montanha de Mármore
Meu guia é o sr. Trin, um ex-professor primário que
agora empresta sua sabedoria ao esforço governamental para
alavancar o turismo na região. Falar sobre China Beach, local
onde os americanos passavam suas folgas durante a guerra do Vietnã,
é um dos talentos do veterano mestre. É mesmo um local
paradisíaco, cuja praia tem uma areia muito parecida com
a brasileira (não é cascalhosa, como a maioria delas).
Mas o sr. Trim prefere discorrer sobre o que
ele considera o mais importante templo religioso de Hoi An: a Montanha
de Mármore. A escadaria antiga (do tempo da colonização
francesa) que leva ao topo, onde fica o antigo templo budista, propicia
paradas regulares para observar a bela e amena cidade de 700 mil
habitantes.
No alto da rocha está escondido um
monumento religioso de tirar o fôlego. Totalmente esculpidas
na pedra, as salas e ante-salas do templo estão repletas
de imagens santas. É mesmo impressionante o trabalho realizado
pelos artesãos com o mármore, que brota em todo lugar.
No salão central da montanha, uma estalactite pinga eternamente
em um vaso antigo uma água cristalina, que o povo acredita
sagrada.
Aproveite a cidade para experimentar as especialidades
culinárias da região, baseadas nos frutos do mar.
E dê um passeio pelo centro comercial, onde é possível
encontrar todo tipo de vestimenta típica, fabricadas in loco
pelas costureiras da cidade, as mais hábeis de todo o Vietnã.
Aproveitei o início de uma garoa fina
para visitar uma casa tipicamente vietnamita, do início do
século, toda em nogueira e outras madeiras finas. Depois,
a ponte chinesa, com a estátua do macaco e do cachorro, simbolizando
os anos de início e finalização da construção.
Hoi An parece perdida no tempo. Depois do caos de Saigon, nenhum
cenário poderia ser melhor!

Hoi An, o Rio Perfumado
Quarto dia: Hoi
An-Hue (de carro)
Conhecendo o Hotel
Espetacular seria uma ofensa ao prédio do hotel Huong Giang,
onde me instalei, às margens do Rio Perfumado. Só
que chovia uma barbaridade - coisa para deixar os ribeirinhos do
Amazonas de queixo caído. Foram 24 horas de temporal ininterrupto
(mesmo, não é força de expressão), que
começou ainda em Hoi An e só foi parar (ou melhor,
amenizar) na noite desta quinta-feira.
Na metade da tarde, os turistas começaram
a temer pela sorte de seus pertences, pois o rio subia quase dez
centímetros por hora e já ameaçava invadir
o lobby. O sr. Trin me acalmou: "Estamos no fim do período
das chuvas. Deve parar daqui a pouco. Na época das tormentas,
é comum chover assim por até sete dias seguidos".
Fiquei besta de ver tanta calma.
Quinto dia: Hue
A Cidade Sagrada
Hue foi capital do Vietnã até 1949, quando os comunistas
tomaram o poder e o imperador teve de se mudar para a França.
O mausoléu deste último imperador (13o da linhagem)
levou três anos para ser erguido (de 1944 a 1947) e utilizou
mão-de-obra de 3 mil homens, entre soldados e trabalhadores
rurais. O monarca era baixinho (pouco mais de um metro e meio de
altura) e fazia questão que tudo à sua volta fosse
mais baixo que ele. As estátuas dos mandarins têm 1m20;
as dos cavalos reais, cerca de 1m40, ou seja, são pôneis;
e até os elefantes não ultrapassam 1m70, o máximo
que o imperador se permitia olhar para cima.
No interior do palácio, o destaque
é o teatro real, o primeiro do Vietnã. Os atores ficavam
no meio do salão (todo em vermelho e amarelo) e encenavam
a peça para o rei e sua concubina. Uma cortina de bambu permitia
que o monarca visse os artistas, mas impedia que estes o vissem.
Mas quem sabia mesmo o que fazia era o pai
do imperador, cujo mausoléu levou 11 anos para ser concluído
(de 1920 a 1931) e foi erguido por cerca de 10 mil trabalhadores
e soldados. O monarca era um amante da arquitetura e desenhou todo
o lugar. O palácio é inteiramente ornamentado com
pedaços de porcelana chinesa e multicolorido. No salão
do meio, uma estátua do imperador, em bronze e ouro, faísca
ao primeiro olhar. O monarca tinha dezenas de concubinas, que geraram
146 filhos. Para melhorar a posição na corte, alguns
mandarins ofereciam suas filhas ao imperador em troca de poder.

A Cidade Proibida, em Hue
Sexto dia: Hue
O Rio Perfumado
Estou próximo da Cidade Proibida Púrpura, que, ironicamente,
não tem um sinal sequer da tão pomposa coloração.
Púrpura era, isso sim, a cor do brasão da família
real, daí o nome.
Mesmo assim, o visitante não encontrará
vestígios de púrpura por onde quer que vá.
Na cidadela do imperador os únicos vestígios que sobrevivem
ao tempo são os da guerra com os franceses. A cidade foi
destruída e, agora, graças a investimentos do governo
vietnamita e de entidades ligadas à ONU, está sendo
reconstruída, à semelhança de sua época
dourada.
Enquanto se caminha pelo palácio recentemente
reinaugurado, pode-se sentir o aroma do Rio Perfumado, que corta
a cidade de Hue. Este, sim, faz jus ao nome. Explica-se: na nascente
existe uma planta cujos frutos, de aroma agradabilíssimo
que lembra as tâmaras maduras, caem sistematicamente nas águas
que se transformarão no rio. Assim, ele chega perfumado a
Hue.
Sétimo dia:
Hue-Hanoi-Baía de Halong
Dragões de Pedra
Hanoi, a verdadeira capital do Vietnã (embora muita gente
insista em creditar o título a Saigon), é uma cidade
belíssima. Mantém certo encanto da época de
dominação francesa - destaque para os prédios
do French Quarter e da Opera House, uma maravilha arquitetônica
de encher os olhos - sem perder de vista sua história milenar,
estampada em cada parede dos templos espalhados pelas ruas e avenidas
centrais.
Peguei o trem com meu guia Sunny. O nome original
é impronunciável, caro leitor, mas o rapaz, que não
tira os óculos escuros, prefere ser chamado assim. Coisas
do capitalismo que já grassa em diversos pontos da Indochina.
A viagem, de aproximadamente uma hora, é
instigante e me levará até o porto onde tomarei um
barco cujo destino é a Baía de Halong, no sul do Mar
da China. O comboio antigo é outra parada no tempo, principalmente
porque estou cercado por personagens que mereceriam tratamento literário
de melhor qualidade. São pescadores e suas redes de bambu
trançado, agricultores com seus chapéus cônicos
e alcatruzes cheios de arroz, mercadores de ervas e de líquidos
milagrosos.
A Baía de Halong, cujas histórias
e lendas me fascinam desde a mais tenra adolescência (tenho
um amigo que se embrenhou pelas águas do Mar da China e me
garantiu que nenhuma emoção poderia ser maior do que
atravessar o caminho dos dragões de pedra), já está
à minha frente.
O tempo está a nosso favor. Eu e Sunny
trocamos informações acerca de nossos países
enquanto o barco vence as ondas bravias e se aproxima dos paredões
de rocha. Meu amigo estava certo. De longe, a paisagem lembra mesmo
dragões emergindo das águas.
Nossa parada é na cidadezinha de Cat
Ba, encravada em uma das milhares de ilhotas que compõem
aquele universo único. Na praia, devidamente calibrados pela
aguardente local, um grupo de russos tenta convencer o garçom
de um restaurante à beira-mar de que ele pode aceitar um
punhado de rublos como pagamento. Mas o garçom se limita
a sorrir, fingindo total ignorância sobre o idioma dos estrangeiros.
A noite é regada a aguardente de arroz,
trazida à nossa mesa por "moças de bom coração",
como diz Sunny. O jantar será no barco: caranguejos, camarões,
rolinhos primavera e muito vinho francês. Legítimo!

O túmulo de Ho Chi Minh em Hanoi
Oitavo dia: Baía
de Halong-Hanoi
Despedindo-se do paraíso
Sunny bate à porta do quarto às 7h30. Diz que o dia
está ótimo para boas fotos. O fotógrafo não
pode dizer o mesmo sobre si mesmo, é bem verdade, mas não
há sensação de cansaço que resista à
vista da baía aos primeiros raios de sol.
Os pescadores já estão na lida
desde muito cedo e a profusão de cores dos cascos dos barcos
é um festival para as lentes dos turistas. Os dragões
de pedra estão mais calmos nesta manhã quente. As
águas, que se tornam mais perigosas quanto mais nos embrenhamos
rumo à costa vietnamita, balançam suavemente e é
possível ouvir o murmúrio que vem da vila flutuante
ancorada junto ao porto de Cat Ba.
Lá vende-se de tudo, desde o mais óbvio
biscoito de arroz até peças ornamentais confeccionadas
com pérolas negras (colhidas nas encostas de pedras das ilhas
próximas), uma maravilha que custa pouco neste ponto do mapa.
Aproveito o ensejo, tomo mais um aguardente - oferecido por meu
guia ensolarado - e partimos de volta para Hanoi.
Na capital, você terá ainda algumas
horas para um rápido passeio pelo centro. Não perca
tempo, portanto, e vá direto para o templo de Ngoc Son, erguido
no século 14. De lá, siga para o túmulo de
Ho Chi Minh (ele fica em Hanoi e não em Ho Chi Minh, como
seria de se esperar) e para a casa do antigo líder, de uma
singeleza que beira o franciscano, mas prenhe de significados.
Se sobrarem tempo e pernas, passe pelo
Palácio Presidencial (cuja entrada não é permitida,
infelizmente), um prédio belíssimo construído
pelos franceses em 1906 e cuja ostentação Ho Chi Minh
odiava.
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