
CHARMES DE TIRADENTES
Léa Maria Aarão Reis
Se você tem bom gosto e não está
a fim de enfrentar a militarização crescente dos Estados
Unidos, por exemplo, e os desagradáveis incidentes vividos
por viajantes estrangeiros ocorridos nos últimos meses, em
seus aeroportos; e mais: se você não tem dinheiro bastante
para fazer uma confortável viagem à Europa mas _ ainda
_ pode gastar um dinheirinho extra nas férias de julho, um
conselho: escolha a cidade histórica de Tiradentes, em Minas
Gerais, distante 330 quilômetros do Rio de Janeiro (cerca
de apenas quatro horas de carro, em estrada federal). Não
vai se arrepender.
Tiradentes, assim como o Pantanal, Noronha, Porto de Galinhas, os
lençóis do Maranhão, são alguns dos
destinos eleitos pelos viajantes que buscam raízes brasileiras
e estão cansados do cheiro sempre igual dos shoppings centers
globalizados. Turistas que querem voltar a provar sabores nacionais,
impressões e lembranças do passado colonial, nas cidades
do interior, bem mais harmoniosas que as cidades estouradas do sudeste.
O charme de Tiradentes _ fundada por paulistas
em 1702, no século dezoito, como Vila de São José,
por causa da majestosa Serra de São José, que funciona
como uma moldura para a delicada cidadezinha _ está nas suas
origens históricas.
Foi lá, em uma fazenda, onde nasceu o alferes Joaquim José
da Silva Xavier, e onde os conspiradores da Inconfidência
Mineira fizeram suas primeiras reuniões, na casa do Padre
Carlos Corrêa de Toledo e Melo _ belo casarão que ainda
está lá, milagrosamente intacto, transformado em museu.
Uma visita imperdível.
O charme de Tiradentes está nos belos exemplares da sua arquitetura
colonial civil, tipicamente mineira, é claro, com as casas
de telhados com ou sem eira e beira (daí a origem da expressão:
sem eira nem beira), conforme o status financeiro de quem vivia
nelas. Os ricos moravam em casas com telhados com eiras. Tinham
eiras e beiras, como achava o povo.
Um charme que pode está na sua mais rigorosa arquitetura
barroca religiosa, conservada a capricho pelo governo do Estado:
cinco igrejas, três belas capelas e mais outras cinco, dos
Passos da Paixão, com retábulos e quadros antigas,
sendo que a capela situada na esquina da Rua Direita (a rua principal)
com o Largo do Sol é preciosa. Pare e admire.
Charme do Chafariz de São José, datado de 1749, considerado
pelos especialistas como o mais bonito de Minas. Charme das fachadas
do casario, que se derrama pelas ruas calçadas de pedras
pés de moleque _ e por isto, assim como ocorre em Ouro Preto,
é fundamental levar na mala tênis ou sapatos baixos
para caminhar com conforto.
O charme de Tiradentes está na beleza do artesanato da região,
dos municípios e das cidades vizinhas: Prados e Rezende Costa
são algumas.
Aliás, é bom conhece-lo rápido, antes que se
torne totalmente descaracterizado. O processo de influências
e de interferências de fora já se percebe.
São têxteis de bom gosto, trabalhos de ferro batido,
especialidade ancestral dos artesãos locais _ as conhecidas
ânforas de latão, com flores coloridas, já não
são tão bem feitas como antes. As peças da
já famosa Oficina de Agosto, no Arraial do Bichinho, vilarejo
próximo de Tiradentes , em papier maché, gesso, cerâmica,
ferro, madeira, tudo. E o trabalho de ourivesaria, uma tradição
em grande parte perdida mas que conserva alguns traços, nas
lojinhas que vendem pedras semipreciosas ou nos ateliês dos
joalheiros vindos de fora, designers que assim como dezenas de outros
artistas plásticos, foram viver em Tiradentes, buscando a
famosa... qualidade de vida.
O charme de Tiradentes está na sua excelente e celebrada
cozinha. Deliciosas gastronomias mineiras, e restaurantes italianos,
dinamarqueses e franceses, abertos o ano todo, e que se superam,
a cada mês de agosto, quando um Festival Gastronômico,
há cinco anos organizado por lá, reúne gourmets
de todas as partes.
Nas frias e secas noites de fim de semana de inverno, funcionam
barzinhos acolhedores, a lareira acesa, onde se toca jazz, às
vezes são apresentados recitais de música instrumental
e pequenos espetáculos de música de câmera.
Quer mais sofisticado? Mais civilizado?
Enfim, o charme de Tiradentes está nos pequenos e refinados
hotéis e pousadas (o Solar da Ponte é tradicional,
conhecido no estrangeiro, administrado pelo refinado casal Ana Maria
e John Parsons) que oferecem ao visitante uma hospedagem nada distante
da qualidade européia de albergues e hoteizinhos exclusivos,
do campo de Portugal, da Espanha, França e Inglaterra.
DICAS DE VIAGEM
. Temperatura média: 21 graus. Em julho,
temperaturas mais baixas. Leve agasalho.
. Vôos: Rio- Belo Horizonte pela TAM,
Vasp ou Varig/Rio Sul. Em BH pegue ônibus para São
João Del Rey. Há seis saídas por dia.
. Saindo do Rio de ônibus, vai-se também
até S. João Del Rey. Cerca de R$40. Na Rodoviária
de São João há sempre táxis estacionados
que levam a Tiradentes. A corrida custa R$20 e dura apenas quinze
minutos.
. Número do prefixo telefônico
da cidade: 32.
. O passeio de charrete custa R$ 20 a hora.
Prepare os quadris para o sacolejo da charrete passando pelas pedras
de pé-de-moleque. Mas vale. O ponto fica no Largo das Forras.
. Táxis para circular pela cidade ou
para ir a cidades vizinhas: indicamos os da família de João,
Alex e Raquel. Tel.: 33551196. Fazem também o serviço
de apanhar o turista no Rio e levá-lo a Tiradentes.
. Hospedagem: o melhor e mais tradicional
hotel, o Solar da Ponte. Finíssimo, atendimento cinco estrelas,
com apenas 12 apartamentos. Com piscina, bar e sauna. É uma
experiência, ficar hospedado nele. O casal Parsons fundou
a Sociedade de Amigos de Tiradentes (SAT), que se ocupa da preservação
ambiental e faz a manutenção dos telhados do casario
do Centro Histórico. Telefone para reservas:
(32)3355-1255 e (32)3355 1210. Preço
médio da diária R$263 mais 10% de taxas
. Pousadas de alto nível: Pousada das
Três Portas, em belo casarão colonial. Todo conforto
nos apartamentos, decorados com extremo bom gosto. Lareira no salão,
trilha musical com música erudita, café de manhã
com queijo de Minas aquecido no fogão à lenha, da
melhor qualidade e que vem da fazenda dos proprietários.
Pode-se encomendá-lo para levar na viagem de volta. Aos sábados,
17 h., apresentação de fantoches da Cia dos Bonecos
ao som da música de Nino Rota.
. Outra, a Quatro Encantos. Também
em casarão do Centro Histórico. Só quatro apartamentos.
Cuidadíssima, parece que a gente está no campo inglês.
Casal: cerca de R$ 80. Pacote de uma semana na alta temporada: cerca
de R$ 550.
. Pousada da Bia. Mais popular, mais esportiva.
Confortável mas deliciosa. Tiradentes tem 170 pousadas!
. Não deixe de entrar em todas as igrejas
porque vale a pena. A Matriz de Santo Antonio acaba de ser reaberta
ao público. Foi restaurada recentemente.
. Restaurantes: em geral, todos bons. Para
se ter uma idéia da prodigalidade da cozinha da cidade, só
de restaurantes mineiros são 51!
Destacamos o Padre Toledo (mais formal, cerca de R$33 o frango ao
molho pardo para duas pessoas. Tel: 3355 1222) e o do Celso (popular)
como as melhores galinhas ao molho pardo (atenção:
tem que encomendar de véspera). O tutuzinho de feijão
carioquinha , verdadeiro creme, acompanha o pernil crocante do Bar
do Celso, a costelinha, lingüiça, torresmo e couve (R$
20 o prato, para duas pessoas) e é muito especial. (Largo
das Forras, a pracinha principal) A costelinha de porco é
especialidade do Delícias de Minas (R. Direita) assim como
todos os frangos acompanhados de ora pro nobis, quiabo ou couve
á mineira.
Tem mais o Dona Xepa (bem barato) e a Tasca do Carlinhos.
. O restaurante Theatro da Villa, de Carlos
Fernando, (onde há um anfiteatro com espetáculos de
música) tem boa cozinha internacional. As massas são
ótimas. O lugar é incrível, um belo casarão
onde funcionou, no fim do século dezenove, um animado teatro.Tel.:
3355 1275.
. Iguarias para levar: o doce de leite do
Bolota. Hoje ele é feito pela viúva do Bolota, Karina,
mas com pouco açúcar _ é receita do finado,
que era diabético. Também inesquecível. (Encomendas
pelo telefone 3355 1332.)
. Têxteis, tapetes de sisal e de algodão,
tecidos produzidos em Prainha e peças de tear manual. Na
Ciart, R. Rezende Costa.
. As melhores ânforas estão no
Empório Patrícia Barbosa.
. Boas peças são encontradas
no Marcio Artesanato. Divertidas onças pintadas em madeira
e cachos de bananas de sucupira.
. Pedras preciosas e semipreciosas: na Artstones,
Praça da Prefeitura. Os europeus adoram.
. Ateliês que não se pode deixar
de visitar: o do Vantuil (ferro batido) e de Fernando Pita, no bairro
do Pacu. Vá ver as galinhas naives produzidas pelo Zé
Dias e os trabalhos de pedra sabão do David.
. Calendários de eventos: janeiro,
Festival de Cinema e Aniversário da cidade, dia 19. Fevereiro:
Carnaval, apresentação de bandas da cidade. Abril:
de 14 a 21, Semana da Inconfidência e Semana Santa. Maio-Junho:
Festas de Santo Antonio, São Francisco de Paula e da Santíssima
Trindade. Julho: Inverno Cultural. Agosto: Festival de Gastronomia.
Setembro: dia 24, Festa de Nossa Senhora das Mercês. Dezembro:
Luzes do Natal.
. Outro charme: o passeio de trem Maria Fumaça,
o único no mundo que anda em bitola estreita (76 centímetros)
até São João Del Rey. Dura 20 encantadores
minutos. Saídas: ás 13 e ás 17 horas mas só
em fins de semana e feriados.
Tiradentes virou cenário de TV. E aí
é que mora o perigo. Foi pano de fundo para a novela Coração
de Estudante e, há mais tempo, para as minisséries
Maria Moura e Hilda Furacão.
No carnaval deste ano a cidadezinha foi invadida por 40 mil turistas.
Uma aberração. Havia 200 policiais, trazidos de outras
cidades, para segurar o pessoal.
Faltou água na cidade, os de fora urinavam nas ruas e, de
noite, transavam nas esquinas. O barulho infernal de pagode, que
saía dos rádios dos carros, também empesteou
o lugar.
Os moradores ficaram assustados e se fecharam nas suas casas. Um
desastre.
Por estas e por outras, tentando preservar os charmes de Tiradentes
e para que lá não se repita o que ocorreu em Ouro
Preto, em Porto Seguro, na Bahia, e em tantos outros lugares (turismo
predatório) já há quem ache que prefeito de
cidade histórica, no Brasil, deve ser nomeado.
Está aí: uma idéia para se pensar.
MANJAR DE TIRADENTES
Uma das melhores ambrosias que você
a gente encontrar: a do Café Maria Luiza, no Largo do Ó,
que funciona das 10 às 21 horas de quinta a domingo.
É o mais charmoso de Tiradentes. Fica ao lado da Biblioteca
do Ó (3 000 volumes), dirigida pela irmã de Maria
Luiza, a artista plástica Maria José Boaventura, autora
de lindas aquarelas e dona de um dos ateliês mais freqüentados
pelos turistas.
As duas irmãs são de Belo Horizonte foram viver em
Tiradentes, onde são duas das mais conhecidas personagens
do lugar.
Maria Luiza, além de fazer uma quiche de bacalhau inesquecível
e uma gostosa geléia de pimenta, tem outros talentos: costurar
e bordar as peças que vende no Café.
A sua receita de ambrosia é antiga, de família, vem
da avó. Trata-se da versão grega do doce, menos açucarado
que a versão portuguesa porque é feita no leite, ao
contrário da outra, cozida na calda do açúcar.
Ambrosia da Vovó Maria
Ferva cinco litros de leite integral em uma
panela grande e de borda larga. Acrescente três xícaras
de chá de açúcar e mexa sempre, até
levantar fervura. Diminua a chama e deixe ir secando vagarosamente,
durante três horas.
Quando a mistura começar a engrossar e a ficar morena, acrescente
cinco pauzinhos de canela.
Bata cinco claras em neve, junte as gemas e bata por mais cinco
minutos.
Despeje sobre o leite fervendo, sem mexer, e deixe cozinhar durante
mais cinco minutos.
Corte em cruz, descole das bordas da panela e vire cada pedaço,
com cuidado para não quebrar.
Deixe cozinhar cerca de quarenta minutos.
Despeje em compoteira funda.
Sirva gelada e polvilhe canela, se quiser.
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