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Saigon, cidade aberta

A experiência de um jornalista
que aprendeu nos livros de história que o Vietnã venceu
a guerra. Será?
por Daniel Japiassu
Assim que pus os pés no aeroporto de
Tan Son Nhat, e um nativo de fala alegre e péssimo inglês
me veio receber com um cartaz de boas-vindas nas mãos, fiquei
sabendo da existência de um museu dedicado ao célebre
conflito.
Minha curiosidade havia sido despertada não apenas pelo fato
de o tal museu ser um marco anti-americano bem no centro de Saigon
(aliás, Cidade de Ho Chi Minh), mas também por um
salão - de gosto duvidoso, segundo o guia comprado em Bangkok
por absurdos US$ 25 - denominado "Verdades da Guerra".
Como tinha o dia livre pela frente e uma cidade inteira por conhecer,
desabalei-me do hotel cinco minutos depois do check in e enveredei
pelas ruas, ora estreitas ora vastas, do mais conhecido cenário
da Guerra do Vietnã.
"O senhor sabe onde fica o War Remnants Museum?", perguntei
a um raro pedestre de andar calmo e olhar sereno, cujo semblante
remetia aos tempos do deus Brahma ou do próprio Buda.
"Está vendo aquele outdoor da Coca-Cola?" Disse-lhe
que sim, como se fosse possível não perceber algo
tão ostensivo. "E aquela placa da Toyota?" Nem
um cego teria a ousadia de negar àquele veterano asiático
de ralas sobrancelhas, bigode fino e barbicha idem mais esta desnecessária
questão. "Pois bem", disse ele, enfim, com um suspiro
algo desalentado. "O museu fica bem no meio deles". Desculpei-me
pelo incômodo e, dividido entre a gratidão e o arrependimento,
tomei a direção do belo prédio em estilo francês,
transformado, em 1975, no mais contundente tributo ao comunismo
e, mais precisamente, ao camarada Ho Chi Minh.
A velha Saigon é mesmo um estranho pedaço de chão,
cravado em um dos mais férteis solos da Ásia, no qual
a tradição mística dos séculos 6 e 7
e o ritmo frenético do mais puro capitalismo se encontram
e, acredite, convivem em inexplicável harmonia. Além
disso, mantém a aparência dos tempos da guerra, lá
se vão mais de 30 anos, quando norte-americanos e vietcongs
travavam uma das mais sangrentas batalhas da história.
Como se não bastasse, a herança da colonização
francesa permanece intocada. A região, incorporada após
duas violentas batalhas, em 1862 e 1880, e que constituiu até
meados dos anos 50 (juntamente com Cambodia e Laos) a célebre
Indochina, mantém muito bem conservado o bairro francês.
Alguns prédios construídos no início do século
são hoje sede da burocracia comunista. Além da arquitetura,
a influência pode ser sentida também na culinária
local.

O estilo francês no prédio da Prefeitura
Para completar o quadro, a cidade já conta numerosa coleção
do melhor concreto armado que se pode contemplar - visto de cima,
o mar de arranha-céus faz sombra à metropolitana Kuala
Lumpur, na Malásia, adotada por nove entre dez grandes empresas
de informática no decorrer da última década.
O mais impressionante, porém, é verificar que, entre
todo tipo de propaganda, pululam bandeiras vermelhas ornamentadas
com o rosto do "venerável" Ho Chi Minh e o eterno
símbolo soviético (a foice e o martelo). Elas estão
por toda parte, é verdade, mas a poluição visual
patrocinada pelas multinacionais dá ao visitante a impressão
de que os Estados Unidos venceram a guerra.
Saigon é a imagem acabada de uma cidade que anseia por investimentos,
mas parece clamar desesperadamente por cuidados. Apesar da economia
aberta pelo partido comunista, que transformou o centro em uma paisagem
desconfortantemente capitalista, mantém-se fiel, aqui e ali,
a alguns conceitos que estamos acostumados a estudar nas primeiras
aulas de história ainda no primeiro grau: o mais admirável
mercantilismo. A Cidade de Ho Chi Minh é um exemplo idiossincrático
do que a cultura e a religião são capazes quando a
identidade de um povo está em perigo. Não se trata
de discurso pretensamente nacionalista. O vietnamita não
parece precisar disso; sabe que expulsou cada um de seus invasores
nos últimos 2000 anos de história. Entretanto, a luta,
agora, é bem mais sutil. O capitalismo não se utiliza
de alabardas, armaduras bem polidas, aviões de combate ou
laser de última geração para impor suas regras.
Vive de criar necessidades.
E avança sem ser notado, sob o manto
do progresso.
Nos mercados da cidade, centenários mercados, o clássico
chapéu cônico (que os estúdios de Hollywood
ajudaram a imortalizar) já se rendeu aos bonés da
Reebok - uma praga, como os mosquitos nas regiões próximas
ao rio Mekong. Ao lado das seculares sandálias de bambu,
amontoam-se milhares (e milhares é o termo correto) de calçados
da Nike, mais onipresente marca ocidental no país. Quem quiser
um par, que experimente por conta própria - não há
atendente, tampouco câmeras para flagrar os engraçadinhos.
E por uma razão muito simples: não há engraçadinhos
em Saigon.
No imenso empório central (o Mercado Chinês), voltamos
a um tempo imemoriável, quando a moeda de troca era o produto
do trabalho familiar. É possível, na falta de dongs
(a moeda local) ou, o que seria melhor, de dólares, levar
o produto trocando-o por outro. Pelo menos naquela terça-feira,
14 de novembro, o par do Nike valia (ó, heresia!) uma imagem
de buda em ouro ou dez farnéis de arroz.
A chegada das multinacionais criou um personagem nosso muito conhecido:
o vendedor de rua. Ao lado do templo budista de Giac Lam (mais antigo
pagode da cidade, construído em 1744), insistentes camelôs
tentam desviar a atenção do visitante, desfiando uma
coleção de relógios de pulso, capas e carregadores
para telefone celular, máquinas fotográficas descartáveis
da Kodak e outras bugigangas. O calor é forte e a vendedora
me persegue durante quase meio quarteirão com uma gotejante
e reluzente lata de Seven Up na mão. Digo que, por US$ 1,
prefiro uma Tiger (a magnífica cerveja vietnamita). Ela não
entende, me oferece uma Coca-Cola. Desisto do negócio.
A chamada "economia informal", diga-se, está em
cada esquina e já se transformou em uma das maiores preocupações
do Estado comunista. A abertura econômica, iniciada em 1986,
trouxe a variedade de produtos que só a globalização
pode oferecer, mas está cobrando um preço alto.
Um dos principais sintomas é a migração da
população do campo (principalmente os jovens) para
as grandes cidades - Ho Chi Minh, a capital Hanoi e até mesmo
Hue (antiga capital imperial). Como o Vietnã ostenta o título
de vice-líder mundial na produção de arroz,
o governo vem apostando no grão milenar para evitar que as
famílias abandonem a zona rural. O partido comunista vem
pregando a necessidade de ultrapassar a líder Tailândia
no ano que vem e, para isso, precisa de braços fortes para
a lavoura. O êxodo, embora menor do que em meados da década,
continua.
Outro efeito colateral da abertura de mercado é o aumento
considerável da prostituição nas ruas do centro.
Nguyen Trinh, professor primário de 62 anos, trocou as salas
de aula e um ordenado muito mal-educado pela vida de guia turístico.
Duplicou o salário graças aos investimentos do governo
no setor (um dos outdoors mais comuns na cidade traz os dizeres
"Vietnam: a Destination for the New Millenium), mas diz, encabulado,
que o mercado do sexo, embora já existisse durante a Guerra
do Vietnã, nunca esteve tão em alta. Uma breve caminhada
pelo centro confirma as palavras do antigo mestre. As moças
são muito novas; algumas, ainda adolescentes. E seduzem o
incauto cliente com pouca roupa e um michê que não
ultrapassa os US$ 10.
O maior problema, no entanto, diz respeito aos índices demográficos
do Vietnã (que não param de subir). Nos últimos
dez anos, o governo tem criado campanhas para que os casais tenham
menos filhos, pois já não há recursos para
prover educação, transporte e alimentação
de qualidade para os quase 80 milhões de habitantes. O problema,
explica-me um morador do subúrbio de Saigon (mascate, como
vários de seus vizinhos), é que os vietnamitas não
imaginam uma família sem um herdeiro homem. "É
uma desonra", afirma ele, que tem quatro filhos, três
meninas e um recém-nascido.
Ho Chi Minh é uma séria candidata a São Paulo
de olhos puxados. Conta, atualmente, mais de sete milhões
de habitantes, uma pequena metrópole que lembra mesmo a paulicéia,
Nova York em dia de tempestade ou a caótica Cidade do México.
As ruas são dominadas pelas motocicletas - quase três
milhões. É mesmo o paraíso da Honda e de um
modelo chinês que custa pouco (cerca de US$ 700), anda menos
ainda e polui uma barbaridade. Os (poucos) carros são japoneses,
a maioria da Toyota. Não importa o momento do dia, a buzina
é item obrigatório em qualquer esquina de Ho Chi Minh.
Os motoristas costumam manter uma mão na direção
(ou no guidão) e a outra sempre pronta a intimidar qualquer
veículo que se aproxime.
Os semáforos, pobres semáforos, teimam em funcionar.
Mas, e daí? Ninguém parece ter tempo para esperar
pelo verde... Na hora do rush, esqueça tudo que você
já viu na vida em matéria de inferno sobre rodas e
começará a ter uma vaga idéia do que seja tentar
atravessar uma avenida da velha Saigon. Qualquer rua é rua
de mão dupla; contra-mão é coisa que não
existe! O ensandecido trânsito em Ho Chi Minh tem mesmo a
cara do capitalismo vietnamita do novo milênio.
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