PARIS: DO VISÍVEL AO INVISÍVEL
Maria das Graças Targino *
Um pouco mais de 30 anos. Ano de 1976, minha primeira visita a Paris. Depois, mais duas, também como turista, até descobrir o encanto de viver, literalmente, a vida de um outro povo, como forma de redescobri-lo em sua essência e não em sua superficialidade. Em 2004, experiência rica de viver por seis meses com encantadora família francesa, na pequena La Rochelle, sudoeste da França.
Agora, retorno como alberguista e hippie meio ultrapassada para a Paris de meus sonhos . Decido deixar de lado a aparente visibilidade das estatísticas para me perder no invisível e no mais impenetrável: tentar adivinhar a alma da gente que ronda a “cidade-luz” , mas onde a escuridão se faz notar em mil recantos. A violência urbana está em notícias dos jornais diários, impressos e televisivos. O temor ao terrorismo, que ronda a Europa inteira, traz às ruas policiamento ostensivo, inclusive, ou, sobretudo, nas zonas turísticas, como a sempre polêmica Torre Eiffel, que impera desde 1889, mas que continua, justamente, excluída das sete maravilhas do mundo.

Excluida, com justiça, das maravilhas do mundo.
Ciganos e ciganas invadem o cenário, em busca de “negociação” com os transeuntes. O trânsito se torna mais e mais caótico. Como solução, os governantes empreendem campanhas maciças para incentivar o uso de bicicleta, para passeio ou não. Por isto, tão comum encontrar homens e mulheres muito bem vestidos, respectivamente, com ternos impecáveis ou sapatos luxuosos, atravessando a Champs Elysées em suas bicicletas bem equipadas. Para o turismo, além das bicicletas, um “arremedo” de patins, que se expande como alternativa ecológica para conhecer a cidade. Mais do que antes, o metrô assume dimensão majestosa. Há quase dependência da população e da cidade a esse transporte público. Preciso e pontual, cruza quase todos os bairros. Não é barato, é verdade, mas há possibilidades de compra de carnês diários, para dias seqüenciais, mensais, trimestrais etc., o que não evita que, vez por outra, alguém burle a vigilância...
E há mais: a Paris dos parisienses e também a Paris de meus sonhos é, agora, a Paris dos imigrantes O processo de imigração, apesar de seu lado promissor em termos de novas perspectivas de mercado e aquecimento da economia, traz outras mudanças, visíveis a qualquer olhar. Os imigrantes destoam. As diferenças vão além das vestimentas. Estão nos hábitos mais simplórios, como o tom de voz nos locais públicos e o respeito às normas institucionais vigentes. Agravam o problema de moradia. Ampliam as margens do desemprego. Incrementam a delinqüência e prostituição. Inquietam a população...

Prostituição e delinqüência inquietam
a população.
Mas, a “cidade-luz” conserva seu esplendor. A educação é levada a sério. A saúde pública é sagrada, embora inimaginável para um estrangeiro ou turista adoecer sem seguro de saúde, já que os valores são elevados. E Paris é realmente sinônimo de vida cultural. Não se trata de jargão. São cinemas espalhados por toda a cidade, espetáculos de dança, peças teatrais e recitais para todos os gostos. Ao ar livre ou no silêncio de igrejas suntuosas, como a Catedral de Notre Dame ou templos intimistas, como a Sainte Chapel, os concertos nos deixam ver a mão de Deus na beleza da música e no dom dos músicos, afora o sentimento de êxtase dos musicistas.
Mesmo assim, se Deus está presente na vida de muitos franceses ou parisienses, em particular, o número de praticantes é visivelmente mais reduzido. A religião perde posição dentro da sociedade. Talvez, por isto, apesar da França ser uma nação envelhecida, como outros países europeus, à semelhança da Itália, Inglaterra e Espanha, os jovens casam cada vez menos. Muitos optam por viver juntos. Alguns casais, após anos de convivência, sobretudo, se chegam filhos, oficializam a união por meio de casamento tradicional ou do denominado pacto, aplicável a hetero e homossexuais.
Mas a Paris de meus sonhos é a Paris dos artistas de rua, que se postam nas calçadas, nas escadarias das igrejas, nas estações de metrô e onde der... Perfazem atividades múltiplas e inusitadas. Estátuas vivas representam de tudo: de jogadores de futebol (Ronaldinho Gaúcho é o preferido) ao legendário Napoleão Bonaparte; da americana Minie a uma dama qualquer da alta nobreza européia. Há mágicos e malabaristas. Há violonistas e saxofonistas. Há patinadores e tatuadores. Há de tudo na paisagem cotidiana de uma Paris que luta por preservar seu patrimônio cultural. Museus se eternizam na magnitude do Louvre e d´Orsay. Centros culturais explodem. Entre eles, o também polêmico Centro George Pompidou, cuja arquitetura moderna destoa dos prédios à sua volta, mas que cativa a população parisiense, pouco a pouco, por atividades e serviços permanentes e de alta qualidade para todas as faixas etárias, mantendo biblioteca de coleção incrível, em termos de dimensão e de qualidade.

Montmartre: os artistas de rua.
E mais, para mim, o encanto maior fica por conta do bairro Montmartre, com a indizível beleza da Basílica de Sacré Coeur. Na Praça de Tertre, pintores e retratistas permanecem horas e horas à disposição dos turistas, que buscam se eternizar em retratos, que lhes lembrarão, mais adiante da vida, a “cidade-luz” . Montmartre incita a boêmia. Vida alegre e despreocupada ou a vadiagem incitam a nostalgia. Boêmia e nostalgia levam a um bom vinho e, quiçá, a recordações de um passado longínquo. E é a nostalgia ou o doce apego ao passado, que faz do passeio ao Cemitério de Père Lachaise um dos pontos mais concorridos. Lá, é possível render homenagem à diva maior da música francesa, Edith Piaf, ou ao criador do espiritismo, Alan Kardek. Até o local do acidente que tirou a vida da Lady Di é, agora, ponto de visitação...
E o que dizer dos parques e jardins da Paris de meus sonhos ? O Jardim de Luxembourg e tantos outros, menos famosos, em sua imensidão, abrigam crianças, escolares, jovens, adultos e anciãos. Uns brincam, outros cochilam. Há quem se perca nas conversas e nos sorrisos largos e incontidos. Há quem coma. Há quem leia. E há os que escrevem, talvez, poesias ao amado distante. Isto porque, a Paris de meus sonhos é a Paris da sensualidade, do erotismo do bairro Pigalle, com seu Museu de Erotismo (Musée de l´Erotisme) e farta oferta sexual. Paris é, principalmente, a cidade dos enamorados. Eles estão por toda parte. Caminham indiferentes ao rebuliço do Quartier Latin. Perdem-se ou se acham às margens longas e estreitas do rio Sena.

La Seine
O Sena abriga quaisquer casais. Não há distinção. E é quando, mais uma vez, a imigração marca presença. Casais fazem da fusão de raças uma fusão de corações. Eles estão, também, nos cafés. Com suas mesas e cadeiras nas calçadas, nos dias de verão, os cafés de Paris assumem dimensão poética e quase mística. Abrigam mistérios e permitem contemplações ou devoções, a gosto do freguês. É o local para o café da manhã. É o ideal para um cafezinho rápido, o crepe delicioso ou o croissant saboroso. É o lugar do primeiro jornal, do primeiro bate-papo, e, quase sempre, do primeiro cigarro. Apesar do cerco que se faz mais forte, a cada dia, com campanhas maciças contra o tabaco, os franceses continuam fumando, e muito. Jovens, mulheres, adultos, velhos e mendigos (para ser politicamente correto, os sans domicile fixe ou SDF) cultuam o cigarro, numa relação quase amorosa, porque afinal o visível e o invisível de Paris nos conduzem, invariavelmente, ao amor.
* Maria das Graças TARGINO é jornalista e doutora em ciência da informação, em fase de pós-doutoramento em jornalismo de fonte aberta.
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