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NATAL PARA PRINCIPIANTES
Nei
Leandro de Castro
A falência da Soletur vem reforçar
o que digo e repito: feche os olhos e os ouvidos para as vantagens
anunciadas, nunca viaje com pacotes turísticos. O risco maior
é a falência da empresa de turismo (da qual os donos
costumam sair mais ricos), mas esse é um risco de pouca freqüência.
O perigo à vista ou em suaves prestações é
o que você vai enfrentar numa viagem dessas: passeios chatos,
guias tagarelas, horários de caserna, programas burros. As
excursões em grupo só levam a um lugar: o lugar-comum.
Essa advertência, claro, vale para todos os lugares do mundo.
Para se passar umas férias curtas ou prolongadas em Natal,
por exemplo, o bom é consultar os nativos de lá. Não,
não vale consultar os nativos de mau gosto, aqueles que acham
que conhecer a base de foguetes da Barreira do Inferno é
um grande programa. Fuja desses, fuja desses. Se você consultar
dez natalenses de bem com a vida e com a cidade, eles irão
lhe apontar, com pouca margem de divergências, dicas como
essas:
1. Visite a Fortaleza dos Reis Magos, presença do português
colonizador que se mantém bela e muito bem conservada. Vale
a pena contratar um guia mirim (cinco ou dez reais pagam) para lhe
contar um pouco da história da cidade, que nasceu a partir
dali. Peça para conhecer o quarto escuro onde morreu André
de Albuquerque Maranhão, líder da revolução
republicana de 1817. Suba até as ameias e veja, ao sul, a
beleza tranqüila da praia da Redinha.
2. Vá à Redinha, do outro lado do Rio Pontengi, sente-se
numa mesa de bar ao lado do mercado, com piso de areia da praia.
Peça uma cerveja acompanhada de ginga na tapioca. É
de deslumbrar a alma.
3. No Litoral Norte, conheça Graçandu, uma praia solitária
com dunas e enseadas de água morna e azul. É uma praia
histórica. Na década de 80, o marxista-leninista Danilo
Bessa e dez de seus camaradas construíram ali as suas dachas,
mudaram o nome de Graçandu para Praia Vermelha e fundaram
a Primeira República Socialista do Litoral Norte, que durou
até o desmanche da União Soviética. Hoje, numa
curva da praia, você encontra jet-ski de aluguel e bares que
fazem um drinque com vodca e abacaxi que apaixona até empedernidos
maoístas. Graçandu, mesmo solitária, tem uma
pousada de alto nível: a Pousada do Tio, de um sobrinho do
saudoso jornalista Castello Branco.
4. Em Natal e nas praias dos arredores, há hotéis
e pousadas para todos os gostos e bolsos. Uma dica: na Via Costeira
(uma avenida à beira-mar, onde só se pode construir
hotéis ou restaurantes), há o Hotel Porto do Mar,
quatro estrelas, vista maravilhosa. A proprietária, minha
amiga Sônia Pacheco, pode acertar um preço mais camarada,
pelo telefone 84 202-4242.
5. Na época do caju, que vai de outubro a começo de
janeiro, peça a um nativo para lhe ensinar como se bebe cachaça
com caju. Ou aprenda simplesmente a se deliciar com essa fruta sem
sofrer com o seu ranço ou cica.
6. Aos casais são aconselháveis passeios à
beira-mar, aspirando a forte maresia, que é um afrodisíaco
incontestável. Os ventos que agitam coqueiros e cabeleiras
em Natal vêm da África, sem fazer curva. Segundo o
poeta natalense Diógenes da Cunha Lima, esses ventos evitam
as rugas na mulher e tornam os homens mais viris.
7. Onde comer? O restaurante Camarões, no bairro de Ponta
Negra, serve camarão de oito maneiras. Um prato dá
para duas pessoas e às vezes sobra. Em comparação
com os preços do Rio e São Paulo, os do Camarões
são outra delícia a ser saboreada.
8. A cozinha regional já foi mais presente na cidade. Enfraqueceu
com o fim do Carne-de-Sol do Lira e, mais recentemente, com a invasão
dos restaurantes a quilo. Vale uma incursão pelo Farofa d'Água
- Av. Roberto Freire - e, principalmente, pelo Restaurante do Lula
- Rua Xavier da Silveira, Morro Branco. No cardápio do Lula,
variadíssimo, bato palmas para o guiné à cabidela
(galinha d'angola ao molho pardo). Mesmo quem foge dos restaurantes
a quilo, convém conhecer o Mangai, um superfestival de comidas
regionais: filé de bode, cabrito na panela, porco torrado,
farofa de bolão, farofa sertaneja, arrumadinho, arroz à
Bessa - uma infinidade de pratos, sem falar nos doces caseiros.
O Mangai fica na Rua Amintas Barros. Não serve bebida alcóolica
e sua dona, uma paraibana braba que só a gota, desfila pra
lá e pra cá com uma imensa peixeira na cintura. Talvez
para inibir os que pretendem insistir por uma bebidinha...
9. O agito da noite acontece principalmente em Ponta Negra, onde
há a maior concentração de bares e restaurantes
por metro quadrado. Mas no bairro do Tirol a noite se desvaira até
de madrugada nas varandas do Raro Sabor. Comandado por Gracinha,
que gosta de poesia e de poetas, o bar reúne artistas, romancistas,
jornalistas, poetas, publicitários e outros malucos. As comidinhas
do Raro são divinas.
10. Na praia de Ponta Negra, para curar a ressaca, vale um demorado
banho na enseada ao pé do Morro do Careca. Foi ali, no verão
de 1633, que os holandeses desembarcaram e marcharam para tomar
a Fortaleza dos Reis Magos. Dizem que alguns soldados flamengos
tiveram um surto diante de tanta beleza.
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