
MALLORCA, DE HISTÓRIA, BELEZA E PRAZER
Maria das Graças Targino *
Fim de 2007. Outono europeu. Árvores desnudas, ou que se desnudam, contrastam com pessoas mais e mais vestidas. Os casacos pesados de frio deixam os armários e começam a encher as ruas outonais de Mallorca, por onde, repetindo o fenômeno dos demais espaços europeus, caminham muitos imigrantes ao lado de maiorquinos, jovens ou velhos, bonitos ou feios, mas, quase sempre, simpáticos e receptivos.
Maiorca (para honrar nosso português) é uma das Ilhas Baleares, primeira comunidade autônoma da Espanha. Somam cerca de 5.000 km 2 e abrigam em torno de 985 mil habitantes. Na imensidão do Mar Mediterrâneo, ao longo de 1.238 km de costa, esse arquipélago agrupa cinco ilhas centrais em dois blocos. O primeiro, intitulado ilhas Gimnésias, incorpora Maiorca, Menorca e Cabrera. O segundo, as ilhas Pitiusas, reúne Ibiza e Formentera. Dentre elas, Maiorca e Ibiza são, na atualidade, o destino de muitos turistas. Apesar da disputa feroz com as Ilhas Canárias (a famosa Tenerife) em torno do turismo, as Baleares têm conseguido preservar sua herança histórica e suas riquezas naturais. Surpreendentemente, segundo dados oficiais, 40% de sua superfície está protegida.
Ao tempo em que historiadores asseguram que essas ilhas estão povoadas desde tempos remotos, possivelmente, a partir do século V d.C., no caso específico de Maiorca, temos uma sobrevivente de sucessivos ataques ou colonizações, e até da história de um reino fugidio (Reino de Maiorca), que vai somente de 1262 a 1349, criado por Jaime I, O Conquistador, e extinto, em definitivo, em 1715. Por aí, passaram gregos, fenícios, cartagineses, romanos, turcos e muçulmanos, dos quais restam nas ruas cálidas da cidade algumas heranças. Dentre elas, os visitados Banhos Árabes, século X, que decepcionam o visitante pelo quase vazio de seu interior e pela falta de restauração.
Durante o período histórico da Reconquista, as Baleares, e, por conseguinte, Maiorca, foram integradas a Catalunha. Então, à briga territorial soma-se a disputa que se repete entre os povos: hoje, os mais velhos lutam para preservar “sua” língua, no caso, o baleárico ou “maiorquí” , enquanto os jovens fazem a festa com o castelhano, num clima de modernidade e irreverência total, o que faz uma dama nativa afirmar: “os jovens só estão para as discotecas e para os porres”. Vai além, e complementa, com desdém: “os catalães não cansam de chamar minha Maiorca de ´nossa ilha´, pelo simples fato de nossa língua derivar do catalão. Vejam só!” De qualquer forma, oficialmente, Baleares e Maiorca são bilíngües (catalão e castelhano). Ademais, fora o inglês, o alemão também está presente em quaisquer pontos turísticos. A razão é a invasão de sua gente. Mas, dessa vez, não como imigrantes ilegais ou sem trabalho. Trata-se de fenômeno semelhante ao que vem ocorrendo nas praias do Nordeste e Sul brasileiro, quando estrangeiros, vizinhos, ou não tão vizinhos, correm em busca de sol e de calor, em diferentes estações do ano, e, algumas vezes, fixam-se em definitivo.
A capital administrativa das Ilhas Baleares e da ilha de Maiorca é a cidade de Palma de Maiorca ou, mais precisamente, Palma. A supremacia de Maiorca dentre as Baleares resulta não apenas de sua maior extensão (ocupa 3.640 km 2 ) ou de sua população expressiva (cerca de 770 mil habitantes, concentrados na capital, com, aproximadamente, 375 mil), mas de seu esplendor e encanto, incluindo o clima ameno. Há de tudo. Há para qualquer gosto. Há para qualquer idade. Se suas ruas antigas ou se suas águas cristalinas convidam ao descanso, o que deu a Maiorca de outrora o título de “ilha da calma” , hoje, ela mantém infra-estrutura invejável: hotéis de luxo se mesclam com pousadas; bares e discotecas garantem vida noturna infernal; restaurantes de luxo coexistem com os fast foods da vida e com lanchonetes populares, mas, quase sempre, é possível se deliciar com peixes e mariscos, aves e carne de porco. E mais: cruzeiros marítimos convivem em harmonia com encantadores trenzinhos; carruagens enchem os olhos de turistas; os preguiçosos se estiram nas gramas dos parques, enquanto os esportistas se deliciam em longas caminhadas ou pedalam bicicletas, que comportam modelos para o solitário, o casal ou a família.
Maiorca se caracteriza por uma geografia de contrastes: serras, como a de Tramuntana, e as Serras de Levante; praias de extrema beleza, como as que se reúnem sob a denominação de Praias de Maiorca (Can Pastilla, Meravelles e Arenal); e, por fim, região de planície, onde agricultores cultivam azeitona, figo, damasco, amêndoa, oliva e tomate, ou se perdem em seus bosques de imponentes pinheiros. Mesmo assim, nos dias atuais, a maior fonte de renda é o turismo, com quase 70% da população voltada para o setor de serviços. Algumas indústrias sobrevivem. Além das célebres pérolas artificiais de Maiorca, que povoaram o universo de minha mãe e minhas avós, e que continuam atuais para os aficionados por jóias, a indústria têxtil, o couro e o calçado marcam presença, além de artesanato múltiplo e variado.
O “casco” histórico de Maiorca reúne prédios e monumentos cuidadosamente preservados e com reflexos da arte catalã e valenciana. Catedrais góticas, palácios barrocos, museus antigos e modernos se espalham em ruas modernas ou em prosaicos bairros antigos, onde escasseiam “estátuas vivas” , mas outros artistas de rua resistem e mostram suas pinturas.

Castelo de Bellver
Além das Igrejas de Santa Eulália e de São Francisco, a Catedral de Palma, La Seu , século XIII, constitui mostra ainda mais preciosa da arte gótica, com pedras douradas e interior habilmente remodelado por representante máximo da arte espanhola, Antoni Gaudí, autor de A Sagrada Família, símbolo maior de Barcelona, Catalunha. O Castelo de Bellver, ocre e triste, durante o dia, com iluminação cuidadosamente planejada, à noite, domina a baía de Palma, nos fazendo recordar suas tantas vidas: de início, século XIV, residência luminosa dos reis de Maiorca; posteriormente, clausura escura para sofridos prisioneiros; de 1915 para cá, lugar de visitação pública para turistas entusiasmados ante a beleza do gótico.
A Almudaina, antiga fortaleza árabe, e, hoje, sob protestos de alguns nativos, residência oficial dos reis da Espanha, é de beleza indescritível. Há, ainda, o Museu de Maiorca, o Museu de Gaudí, o Museu Diocesano, com identidade religiosa, além da Fundação Pilar e Joan Miró, a qual, a bem da verdade, está um tanto malcuidada, apesar do acervo precioso. E há muito mais, como o Museu de Arte Moderna e Contemporânea de Palma de Maiorca, inaugurado somente em 2004, e cuja coleção inclui obras valiosas de Picasso e Miró.
A animação das praias e do centro de Palma, com largas avenidas e praças, como Passeio de Born, Avenidas Joan Miró e Jaume III, e a Praça Gomila, contrasta com a tranqüilidade das cercanias, que não ficam atrás em termos de atração. No cume da cordilheira da Serra de Tramuntana, o povoado de Lluc abriga belíssimo monastério, séculos XVII e XVIII, construído junto a uma capela, onde está La Moreneta ou a Virgem Negra de Lluc, imagem que data do século XIII ou XIV.

Mais adiante, em Porto Cristo , é possível visitar as inesquecíveis Cuevas (Cavernas) de Drach. Realmente, é um espetáculo surpreendente: não são tão-somente grutas que se unem entre as límpidas águas do Lago Martel, considerado o maior lago subterrâneo da Europa. Há um clima de magia indescritível: à surdina e na semi-escuridão, um concerto de música clássica por artistas que surgem em meio ao Lago, em barcas poeticamente iluminadas. A saída das Cuevas, a oportunidade de retornar ao mundo lá fora num barquinho e uma vontade imensa de reter na mente esses momentos de pura beleza. Mais adiante, a oportunidade de um cruzeiro marítimo, partindo de Porto Cristo e indo ao longo da Cala Petita até a Cala Bona.
Há, ainda, a chance de ir de Palma a Sóller, vilarejo, com vida e porto tranqüilos. Desta vez, em trem, aqueles trenzinhos elétricos de contos de fada, que, desde 1912, percorrem os 30 km entre uma cidade a outra. De Sóller, é possível prosseguir de ônibus, por estrada tortuosa e perigosa, até o povoado Valldemossa, que se imortalizou na memória popular, por seu complexo monumental de La Cartuja ter sido testemunha, ainda nos anos de 1838 a 1839, do amor proibido entre a escritora George Sand e seu célebre amante e compositor Frédéric Chopin. São as travessuras de apaixonados rendendo frutos, ultrapassando séculos e assegurando que, independente das variações na escrita – Mallorca ou Maiorca –, o encanto não se desfaz ...
* Maria das Graças TARGINO é jornalista e pós-doutora em jornalismo pela Universidad de Salamanca / Instituto Interuniversitario de Iberoamérica .
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