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LISBOA, LISBOAS
Nei Leandro de Castro
Os lisboetas (ou alfacinhas, para os
íntimos) gostam de caminhar pelos vastos espaços da
avenida da Liberdade, que começa no Rossio e se estende por
quilômetros, com dois calçadões laterais e um
canteiro central, bancos de praça e muito verde ao redor.
É como uma Presidente Vargas do Rio com respeito ao pedestre
e consciência ecológica.
No tempo da ditadura salazarista, Agripino
Grieco, mais famoso por sua língua ferina do que pelos livros
que escreveu, esteve em Lisboa e um dos áulicos de Salazar
levou-o àquela avenida, abriu os braços e gritou cheio
de orgulho cívico:
- Veja esta maravilha! Eis a nossa avenida
da Liberdade!
- E quando vai ser inaugurada? detonou
Agripino Grieco.
É muito bom passear à toa, sem
pressa, pela avenida da Liberdade. Do Hotel Embaixador (Rua Duque
de Loulé, 73) até o Rossio, dá uns vinte minutos
a pé. Antes de chegar à Pastelaria Suíça,
que fica no coração do Rossio, você pode fazer
um pequeno desvio e entrar numa ruazinha cheia de pequenos bares
especialistas em ginja. Ginja é a versão portuguesa
do cherry. Dê preferência à de um boteco de esquina
onde se lê na fachada: A melhor ginja. Não
é propaganda enganosa. Bebe-se em pé, às vezes
na calçada, porque o barzinho não tem cadeiras nem
espaço. Você entra, chega com certa dificuldade ao
balcão e o dono ou o garçom, antes de servir, pergunta:
- Com elas ou sem elas?
Ginja com elas, para sua cultura ginjística,
é o drinque acompanhado de quatro ou cinco cerejas silvestres.
De qualquer jeito, é um aperitivo maravilhoso.
Na mesma rua das ginjas há restaurantes
que expõem em suas vitrines (ou montras, no português
de lá) uns caranguejos colossais, chamados santolas e sapateiras,
que chegam a pesar três quilos. Foi ali, no final dos anos
80, que Celso Japiassu e eu travamos uma peleja contra uma sapateira
e só saímos do campo de batalha às cinco da
tarde, cantando vitória graças aos litros de vinho
que nos ajudaram na luta. Uma das melhores sapateiras que comi,
recentemente, foi a do Cacho Dourado, um restaurante simples, de
excelente cozinha e bom atendimento. Fica na rua Eça de Queirós,
no 7, esquina com a Duque de Loulé, nos Restauradores.

Não é de hoje que Lisboa me
seduz. Mesmo nos tempos difíceis em que morei por lá
(1968-69), eu amava olhar o Tejo, fazer a travessia até Cacilhas,
andar pelo Chiado, pela Alfama (por onde os personagens de Eça
tanto passavam), desvendar os seus becos e tocar nos séculos
de sua história. É sempre bom visitar as ruínas
do Castelo de São Jorge, de onde Lisboa se apresenta inteira
aos nossos sentidos. Vale a pena fazer como todo turista: ver a
Torre de Belém e o Mosteiro dos Jerônimos. Uma visita
ao Museu das Janelas Verdes é imperdível. Mas eu não
abro mão de outras emoções. Por exemplo: beber
um vinho no bar A Brasileira (Rua Garret, 120, Chiado), onde Fernando
Pessoa bebia com seus amigos inseparáveis Alberto Caieiro,
Ricardo Reis e Álvaro de Campos. É obrigatória
uma ida ao restaurante Martinho da Arcada, que fica na beleza imponente
da Praça do Comércio. Num ambiente de bom gosto, com
paredes forradas de fotos de Fernando Pessoa, os garçons
e maîtres são muito atenciosos, apesar da casa sempre
cheia. Não é surpresa saber que o Martinho é
uma das melhores cozinhas da cidade.
No Parreirinha dAlfama (Beco do Espírito
Santo, 1), você ouve o melhor fado enquanto janta muito bem.
No bar Pavilhão Chinês (Bairro Alto), você bebe
seus drinques cercado de uma das mais sofisticadas e originais decorações.
Os cardápios do Pavilhão são tão bonitos,
com uma direção de arte tão primorosa, que
são colocados à venda. O Cais Sodré, que parecia
o triste e tenebroso Cais do Porto do Rio de Janeiro, ganhou restaurantes
e bares que fazem da noite lisboeta uma festa. Se você tiver
sorte, como eu já tive, pode ver dali, numa noite mágica,
a lua cheia equilibrada sobre a ponte do Tejo, banhando de prata
as águas do rio.
Lisboa ainda tem a vantagem dos preços
bem melhores do que os da Itália e da França, por
exemplo. Almoçar ou jantar num bom restaurante lisboeta não
dói tanto no bolso. A diária do Hotel Embaixador,
bem localizado, conforto, atendimento muito profissional, fica entre
150 e 200 reais. Em Paris, por esse preço, você vai
dormir numa pensão para estudantes que passam a noite cantando
o equivalente ao nosso axé music.
Amo Lisboa e, por extensão, amo Portugal.
Convivo muito bem com seus defeitos, que não são muitos,
mas existem. Um certo jeito grosseiro de ser, por exemplo. Depois
da Revolução dos Cravos, na euforia da liberdade reconquistada,
alguns portugueses passaram a exibir grosseria para turistas, talvez
para compensar quase meio século de espinha curvada, de servidão.
Mas deixa pra lá. Eles vão terminar aprendendo, como
o francês, que era muito mais mal-educado com o estrangeiro
e hoje é a própria délicatesse.
Ah, antes que eu me esqueça, as livrarias
de Lisboa tantas e tão aconchegantes. Na minha época,
eu freqüentava a Quadrante, onde encontrava amigos, iniciava
namoros, aliviava minha solidão. Hoje, você pode ir
à Livraria Histórica Ultra-Marina (Travessa da Queimada,
28) e se encantar com os livros e com o atendimento do livreiro.
Em qualquer delas, quem gosta de livros vai se sentir muito bem.
E como há belas edições de poesia! Foi numa
pequena livraria, numa travessa da avenida da Liberdade, que descobri
um livro chamado Lisboas (Quetzal Editores), do poeta Armando Silva
Carvalho. Grande poeta. Dá vontade de voltar a Lisboa só
para conhecê-lo pessoalmente.
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