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A cidade que vive dos leitões
Celso Japiassu
Para quem sái do Porto de carro em
direção a Lisboa, pela auto-estrada A1, a apenas 17
quilômetros de Coimbra está situada a Mealhada, na
região da Bairrada, famosa por seus vinhos encorpados e pelo
Leitão à Bairrada, glória e orgulho da gastronomia
portuguesa.
É um dos dezenove "Concelhos"
do Distrito de Aveiro. Os "concelhos" são o equivalente
aos distritos de um Município, no Brasil. Na entrada da cidade,
como um portal que identifica a sua principal atividade econômica,
está exposta num conjunto de azulejos a imagem de um homem
assando um leitão enfiado num espeto, num forno de barro
muito usado na região. Azulejos como os que existem até
hoje no Brasil, na nossa herança cultural portuguesa guardada
nas igrejas coloniais, só que, ao contrário daqueles
da Mealhada, os nossos contêm imagens de santos e cenas religiosas.

Mural na entrada mostra o que melhor se
faz na cidade
Numa gastronomia em que reina o leitão
assado, a Bairrada é famosa também pela Chanfana (cabrito
cozido no vinho tinto), Cabidela de Leitão, Bacalhau a Lagareiro,
Negalhos (equivalente à nossa buchada Nordestina), Arroz
de Cabidela, Batatas a Murro e Sopa Seca de Leitão. No capítulo
das sobremesas, os deliciosos doces típicos: Bolo de Páscoa,
Barrigas de Freira, Aletria Doce, Arroz Doce, Bolo de Noz, Bilharecos,
Caramujos. Uma festa.
Leitão Assado à Bairrada, nos
restaurantes da Mealhada, foi mais uma vez o objetivo da minha viagem
pela estrada de Paris até o centro de Portugal, no inverno
suave deste ano de 2001, com direito a passar, ainda na França,
pela região do Périgord, que é a pátria
do "foie gras". Mas este é um outro assunto.
A arte de assar leitões
Um modo próprio de criar e assar transformou
o leitão no símbolo da cidade da Mealhada. Desde o
século XVIII, quando carros a cavalo faziam o transporte
Lisboa-Porto, a pequena aldeia já era um lugar de parada
obrigatória onde se serviam leitões e o vinho da Bairrada.
Nessa época, o prato já comandava, como até
hoje, as festas de casamento, batizados e as comemorações
da Igreja.
Toda a área da Mealhada e da floresta
do Bussaco, na vizinhança, é práticamente coberta
de carvalhos e os porcos, no passado e em grande parte até
hoje, são nutridos com as nozes do carvalho, o que dá
um sabor muito especial à carne. E um detalhe importante:
o pequeno leitão, como diz o próprio nome, alimenta-se
apenas do leite materno. Essa é a grande diferença
entre o leitão da Mealhada e os leitões do resto do
mundo.
O peso do leitão varia de acordo com
o desejo de quem vai assá-lo mas a média, nos restaurantes,
é de seis quilos, que correspondem a mais ou menos quatro
semanas desde o nascimento. Depois de assado, fica com cinco quilos.
Alem da importância do forno de barro,
a qualidade do leitão que você vai comer varia de acordo
com a experiência do assador, que na Mealhada foi elevada
à categoria de arte e de sabedoria. Timóteo, que veio
de Guiné-Bissau e escolheu a cidade para viver, trabalha
na Churrasqueira Rocha e transformou-se num dos grandes assadores
dos restaurantes da Mealhada. Diz que a qualidade dos leitões
à Bairrada deve-se ao fato de que eles são assados
no mesmo dia em que são abatidos. Se for à geladeira,
perde a qualidade. Se congelar, fica imprestável", diz
Timóteo, que na alta temporada assa uma média de 80
leitões por dia.

Na companhia de Timóteo, que veio
de Guiné-Bissau para assar leitões na Mealhada.
O tempero é simples mas é responsável
pelo sabor inconfundível dos leitões nas mesas da
Mealhada: num almofariz de bronze ou de mármore pisam-se
duas cabeças de alho, um punhado de sal, uma colher de sopa
bem cheia de pimenta, um pouco de salsa, 50 a 100 gramas de banha
(ou manteiga) e uma folha de louro.
Essas são as quantidades recomendadas
para um leitão de seis a oito quilos. Depois de tudo bem
pisado junta-se um pouco de azeite. Há quem acrescente também
um pouco de vinho branco da Bairrada. O leitão é então
enfiado no espeto antigamente esse espeto era de loureiro
e as patinhas traseiras são amarradas com um arame
fino. O tempero é então introduzido na barriga e nas
partes vazias.Os cortes são cosidos com fio de sapateiro
ou fio de nylon e o leitão está pronto para entrar
no forno.

O forno da Bairrada
João Paulo dos Santos Castela é
um dos funcionários graduados do restaurante Pedro dos Leitões.
Fez o Curso de Aptidão Profissional na Escola Profissional
Vasconcelos Lebre, da Mealhada, e a sua prova final foi um trabalho
sobre a importância do leitão na economia da região.
Ele diz que o forno de barro, usado também para fazer broa
de milho, é imprescindível. Deve ser muito bem aquecido
a lenha (casca de eucalíptos ou de videiras) até ficar
muito quente.
O leitão deve assar muito lentamente,
durante cerca de duas horas para um leitão de oito a dez
quilos. Para que o assado fique uniforme, o leitão vai sendo
girado manualmente e aqui reside um dos segredos da competência
e da habilidade do assador. Quando fica pronto é servido
imediatamente, na companhia do molho que foi se formando enquanto
estava no forno.
Deixar o leitão uniformemente assado
é uma das provas da habilidade do assador.
Ao contrário do que se poderá
pensar, o leitão da Mealhada é um prato leve, pràticamente
sem gordura. Antigamente, ia para a mesa inteiro, numa travessa
de madeira ou de metal. Atualmente é trinchado e divido em
travessas, servido na companhia de batata frita, salada de alface,
laranja, molho extraido da assadura e do pão feito na região.
Além do imprescindível vinho espumante da Bairrada.

Na mesa, com acompanhamentos leves
Os restaurantes
O mais conhecido e o mais antigo dos restaurantes
da Mealhada é o "Pedro dos Leitões". Álvaro
Pedro, antes de se instalar em sua própria cidade de nascimento,
morou no Brasil, em São Paulo, onde não se deu bem
no negócio de restaurantes. Na década de 40, numa
casa modesta junto à estrada Porto-Lisboa, começou
a tornar famoso o leitão da Bairrada, que antes era circunscrito
ao consumo doméstico da própria região. No
princípio dos anos 50, com a inauguração da
auto-estrada e o aumento do tráfego entre Lisboa e o Porto,
o restaurante cresceu e hoje é uma casa ampla que atende
a mais de 800 pessoas por dia em cada fim de semana.

Pedro dos Leitões, o restaurante
mais antigo
Entre dezenas de pequenos e médios
restaurantes, são 12 os principais na gastronomia da Mealhada:
além do Pedro dos Leitões, a Meta dos Leitões,
o luxuoso Quinta dos Três Pinheiros, Hilário, Belarmino,
o Restaurante Típico da Bairrada, Rei dos Leitões,
Simões dos Leitões, Floresta, Pic-Nic dos Leitões,
Oásis e Churrasqueira Rocha.
Próximos uns dos outros, recebem
por dia centenas de viajantes que não resistem à parada
ou então, como é o meu caso, que atravessam as estradas
da França, da Espanha e do Norte de Portugal em busca do
saboroso e único leitãozinho da Mealhada.
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