Uma coisa e outra que vi em Buenos Aires

A AMÉRICA LATINA LINDA,
EXPLODIDA, POBRE,EXPLORADA
E POLUÍDA
Léa Maria Aarão Reis
Estivemos em Buenos Aires há duas semanas.
Fomos fazer uma matéria de turismo
para a revista Desfile - que, por decisão judicial, voltou
a ser publicada pela Nova Bloch Editora, produzida pelo grupo corajoso
de ex-funcionários da extinta Bloch.
Fazer turismo, hoje, em Buenos Aires, continua
sendo uma experiência fascinante apesar do aparente caos econômico
do país. (Muitos analistas econômicos, e dos bons,
acham que Cavallo sabe o que está fazendo. Esperamos que
saiba. Já se fala em argentinização do Brasil
_ será catastrofismo)?
Fascinante porque ir até lá
é estar na Europa a duas horas e meia de vôo, non-stop,
do Galeão. Toma-se o café da manhã aqui e se
pode almoçar lá - porque os portenhos continuam com
o simpático hábito espanhol de comer em horários
bem mais dilatados que os nossos.
Vida caríssima para nós, no
país onde o peso agora vale tanto quanto o dólar.
Pode-se, inclusive, pagar tudo - restaurantes, hotel, shopping -
em dólar, porque todo mundo aceita. (Não faça
câmbio em bancos: eles trocam a verdinha por 96,97 centavos
de dólar. Prefira trocar em qualquer loja para ter um pouco
de dinheiro de bolso em pesos). O cafezinho (quase sempre muito
ruim, mesmo quando é um expresso) custa o equivalente a R$2,50.
Analisando com honestidade, sem falsas paixões
nem patriotadas infantis, há mais educação
e civilidade pública lá do que aqui. As pessoas são
corteses, um pouco à maneira antiga, como ocorre
na Europa: dizem obrigada e por favor. Quando
esbarram em você, na rua, pedem desculpas. E o que é
o melhor: continuam, apesar da crise severa, a ler livros como não
se sonha ler no Brasil. Onde arranjam dinheiro para comprá-los,
não sei. Mas é um amor invejável pelos livros,
pela literatura e pela leitura.
Num roteiro rápido por Buenos Aires
eu diria que uma das grandes atrações da cidade continuam
sendo as livrarias. A El Ateneu, na Av. Santa Fé com Callao
é extraordinária. O prédio fim do século
dezenove, foi teatro - El Magnífico -, depois cinema e, comprado
pelo grupo da Editora El Ateneu, é hoje uma livraria linda.
A estrutura interna foi mantida. Onde era o palco, há um
lounge/café, com mesas, sofás e poltronas. À
tardinha tem sempre pequenas sessões de música, jazz
ou encontros com escritores. Onde era a platéia, as frisas
e os camarotes, há estantes de livros. Nas torrinhas funcionam
um centro cultural e uma galeria de arte.
Outro lugar estritamente europeu é
o Café Tortoni. No fundo dele vê-se um belo salão
de bilhar e duas salas de café concerto. Também fin
de siècle, também cuidadíssimo, tem cortinas
de veludo bordeau impecáveis, madeiras e bronzes lustrados,
mosaicos rebrilhantes _ percebe-se capricho e respeito pelo patrimônio.
Apesar da crise e do dinheiro curto para quase todos.
Na mesma esteira há o Asador 9 de Julio,
defronte do Teatro Colón, um delicioso salão art decô,
onde se come um dos excelentes bifes de chorizo da cidade (ninguém
fala de febre aftosa; pelo contrário: os portenhos dão
de ombros e dizem que no seu rebanho a doença sempre esteve
presente e nunca alguém morreu por causa dela. Eles e nós
nos fartamos de comer carne macia e saborosa).
Mas é o tango a grande paixão,
a febre, a grande onda que, hoje, conquista até a garotada.
Desde meio-dia há milongas (bailes com tango e milonga, um
ritmo mais alto astral e mais alegrinho) explodindo por toda a cidade.
Exibições de casais de dançarinos/feras. E
aulas de tango para quem quiser. Individuais, em grupos, para iniciantes
e iniciados, em todos os bairros da cidade. Na hora do almoço,
no centro, há gente que desce dos escritórios para
comer e dançar um pouco de tango.
Na Confeitaria Ideal (Calle Suipacha) a festa
começa diariamente as duas das tarde. No Club Gricel (fica
no Once, bairro onde se deve evitar passear, principalmente com
cara de turista, mas pode-se chegar e sair de táxi, sem problemas)
a coisa é levada a sério. As mulheres entram, se sentam
e esperam para serem tiradas pelos homens - como na nossa gafieira.
Na pista do subsolo do fascinante shopping
Galerias Pacífico, em Florida (aliás, você sabia
que praticamente todos os shoppings de Buenos Aires são de
propriedade do mega especulador George Soros, inclusive esse?),
aos sábados à tarde há concurso de tango e
exibições, onde se concentra mais gente vendo, torcendo,
aplaudindo, apostando nos pares e dançando (mulher com mulher
também pode e ninguém repara) do que na loja do McDonalds,
que fica defronte. A idade média nesse evento é alta.
Uma delícia.
Mesmo não indo lá para comprar,
as Galerias merecem uma visita. No seu teto abobadado há
afrescos. E a atmosfera é art nouveau. Lembra muito as Galeries
Lafayette de Paris.
Os passeios pelos extensos jardins de Palermo,
ainda bem tratados, pelos bares ao ar livre da Recoleta, pelo deck
de Puerto Madero _ o cais com armazéns restaurados, transformado
em magnífica área de lazer _ são alguns programas
imperdíveis.
Em Puerto Madero, há dezenas de restaurantes
(alguns bons, me diz o amigo Celso, que elege o Las Lilas como um
dos seus preferidos) e tudo conspira para dar certo, não
fosse a enrascada econômica bem america-latina-corrompida
em que o país se enredou. Resultado: a imensa área
está custando a decolar, os restaurantes e os bares abrem,
não se sustentam muito tempo e logo fecham. Para realmente
acontecer, Puerto Madero está como a Argentina: sem grana
para se manter de pé.
Voltar ao bairro popular da Boca me lembrou
muito Havana. É: Havana. Só que em Cuba justifica-se.
Há ideologia.
A pobreza das ruas dos bairros proletários
de Buenos Aires é semelhante a das nossas favelas. O contraste
exorbitante deles com os bairros de classe média (Alto e
Viejo Palermo, Belgrano, Recoleta, Lãs Cañitas) tem
um selo: a crueldade do capitalismo selvagem da latinoamerica.
Mas há outros prazeres nessa cidade
de 11 milhões de habitantes, explodida e poluída (a
frota de carros está antiga, os ônibus são velhos
e desregulados e passam jogando fumaceira preta tóxica em
cima dos passantes).
Dentre as amenidades burguesas e turísticas:
programe-se para trazer bons vinhos argentinos. Compre-os nas pequenas
lojas especializadas que estão por todo lado. Peça
para embalar para aéreo e se quiser uma dica (que recebi
também do meu amigo Celso) escolha a seleção
da Bodega Lopez. Os tintos são ótimos. Merecem o esforço
de carregá-los. Preços médios: R$ 18.
Já os couros (casacos e casacões),
nem pensar. Modelagem antiga, pesada e feia. E o tratamento das
peles, hoje, é igual ao dos couros vendidos aqui (é
tudo tratado na Itália).Em compensação, a indústria
de confecção de roupas masculinas continua ótima.
Homem vaidoso e consumista em Buenos Aires fica louco. (As mulheres,
por sua vez, ficam loucas com a beleza dos argentinos).
No capítulo cashemere, tire o seu cavalinho
da chuva portenha. Os pêlos soltam em nuvens, são de
péssima qualidade e dão alergia mesmo aos que não
são alérgicos!
De modo que um fim de semana esticado passado
em Buenos Aires ainda é um programão. A cidade tem
estilo, classe altiva e uma velha elegância que valem bem
mais do que algumas das horríveis americanices modernosas
(Barra da Tijuca) do nosso Rio.
Raízes bem mais plantadas, talvez.
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