|

A catedral de pedra
Diário do Laos e do Cambodja
Daniel Japiassu
Nono dia: Hanoi-Vientiane
Preocupação com os
canarinhos
O dia foi inteiramente perdido no aeroporto de Hanoi, pois o vôo,
da Vietnan Airlines, atrasou quase 10 horas... Foi tempo mais que
suficiente para que o funcionário da alfândega local
viesse me perguntar sobre a atual forma física de Romário.
Já no fim da noite, chegando em Vientiane,
capital do Laos, mais explicações futebolísticas.
O fiscal queria saber que fim havia levado o capitão do tetra,
Dunga. Disse-lhe que tinha se aposentado; o homem ficou profundamente
indignado.
Décimo dia:
Vientiane-Luang Prabang
Capitalismo chique e beleza milenar
A capital do Laos é uma belíssima cidade, de muitos
contrastes, que merece atenção do visitante. Primeiro
porque, a cada esquina, é possível comparar as duas
faces desse novo tigre asiático.
Templos budistas de meio milênio (devidamente
restaurados durante a segunda metade do século passado) dividem
lugar com o capitalismo chique - em latente antagonismo com a selvageria
de Saigon.
Outro motivo para que o viajante saia a descobrir
a cidade é que um dia e meio não constitui tempo suficiente
para fazer justiça às belezas de Vientiane. Lembre-se:
você terá de pegar o avião para Luang Prabang
à noite.
Décimo-primeiro
dia: Luang Prabang
A antiga capital merece respeito
Leio no guia que comprei em Hanoi que Luang Prabang era capital
do Laos até meados do século 16. Preparo-me, como
qualquer ocidental ignorante, para desembarcar em um grande centro
econômico. Mas o que vejo logo ao pisar no aeroporto é
que a cidade mantém-se adormecida no tempo.
Trata-se de um vilarejo medieval com alguns traços de colonização
francesa e toques sensíveis de capitalismo - muito sensíveis,
graças à Buda!
Minha acompanhante durante a estada é
a jovem Souda, que me leva a percorrer os grandes monumentos da
antiga capital. Ela me explica que Luang é uma cidadela sagrada
para os laos e detêm dezenas de patrimônios da humanidade.
Os templos são mesmo colossais, principalmente o que fica
no alto da maior montanha local, de onde se pode avistar toda a
cidade e os campos de arroz que cercam o cenário.
Aproveite bem o dia e espere pelo pôr-do-sol
no templo da colina. É um espetáculo só comparável
ao crepúsculo em Angkor Vat.
Décimo-segundo dia: Luang Prabang
A catedral de pedra
Souda está no hotel - cuja comida é fantástica
e baratíssima - às 6h30. Está sorridente. É
seu modo, nada ortodoxo, de demonstrar afeição pelo
cliente. E diz que estou atrasado...
Vamos pegar uma chata no Mekong e subir o
rio parando nas vilas de pescadores para conhecer algumas etnias
ancenstrais. É um bom momento para adquirir tapeçarias
e outros artefatos artesanais, que sustentam, juntamente com a pesca,
a economia desses povos.
Sou apresentado a uma senhora de longos cabelos
grisalhos, atenta a seu tear já gasto, que me garante ser
o dia de muita sorte. Pergunto por quê e ela me responde que
o templo budista encravado na encosta do rio, alguns metros acima,
acordou mais iluminado do que habitualmente. E que isso só
pode significar uma coisa: Buda está de bom humor.
Fazemos a curva no Mekong, quando ele se une
ao rio Nam Ou, e eis que surge Tham Ting e Tham Theung, as duas
escavações que formam um monastério nas rochas.
É uma visão que remete às aventuras de Indiana
Jones (talvez porque se pareça, na arquitetura, ao templo
de Petra, na Jordânia, usado por Steven Spielberg na terceira
aventura da série).
Dentro, milhares de imagens de Buda, de diferentes
proporções, em ouro, prata, bronze, gesso, terracota,
madeira, cristal e vidro. E um mix de aromas provenientes de uma
infinidade de incensos. O silêncio da gruta santa só
é quebrado pelo motor dos barcos com turistas que chegam
a cada 15 minutos. Mas, quando tudo está calmo, é
possível mesmo ouvir o cair dos pingos das estalactites em
cada canto. E o eco dos sussurros vibra em cada bronze antigo.
A volta para o hotel parece mais longa do
que foi a ida àquela catedral de pedra. Você saberá
por quê.
Para se refazer do choque de civilizações,
nada melhor do que uma passada nas cataratas de Kouangsy, um local
para piqueniques e passeios despreocupados. Relaxe e se prepare,
pois a próxima parada, depois de voltarmos para a capital
Vientiane, será o Cambodja. E quem não tiver fôlego
para aguentar os três dias em Angkor Vat vai lamentar.
Diário do Cambodja

Palacio Real em Phnom Penh
Décimo-quarto dia: Vientiane-Phnom Penh
Nos domínios do Khmer
A capital do Cambódia fervilha. Phnom Penh lembra Saigon
em diversos aspectos, mas o trânsito é menos caótico
- o que garante a integridade física do visitante atento.
Passeio pelas ruas do centro e deparo com
algumas preciosidades. Primeiro, a pagoda prateada ou pagoda do
Buda de esmeraldas ou Wat Preah Kaeo Morakot. Ela fica próxima
ao Palácio Real e merece a sua atenção pela
beleza e pelo faiscar que emana de sua torre. Como os dias nesta
época do ano são quase sempre azuis na Indochina,
o cenário é mesmo inspirador.
Uma dica: ande sempre com alguns trocados
da moeda local à mão, pois nas cercanias dos pontos
turísticos há muitos monges e pedintes profissionais,
que lhe seguem em busca de algum alento financeiro.
Caminhando um pouco mais, chega-se ao Palácio
Real, erguido em 1866 pelo rei Norodom. Inaugurado em 1870, ele
é uma obra-prima da arquitetura imperial, ornamentado com
dragões reluzentes e pintado com o clássico amarelo-ouro
que dignifica a presença do rei.
Chega a noite e, com ela, a chance de conhecer
o outro lado da cultura khmer. A vida noturna na capital cambodiana
é um delírio de cores, aromas e sabores. Come-se bem
nesta terra, acredite!
Experimente o peixe no espeto com a pimenta
local, servido nos restaurantes do bairro velho. Mas leve água
do hotel, em abundância de preferência, pois a temperatura,
que já não é das mais amistosas, sobe consideravelmente
após a segunda garfada.
Décimo-quinto dia: Phnom Penh-Siem Reap
Nada há como o complexo de Angkor
Pego o avião e parto para a segunda grande jornada desta
aventura pela Indochina: Siem Reap. Ou, mais precisamente, o complexo
templário de Angkor, construído em pedra no século
12, tombado pela Unesco como patrimônio mundial da humanidade
e símbolo maior da cultura khmer clássica.
Desculpe a franqueza, leitor, mas estamos,
eu e minha guia miss Punch, diante de algo tão estarrecedor
que não se pode descrever em palavras. Também não
se deixe influenciar pelas fotos aqui expostas. Elas não
sabem o que o local esconde e não compreendem o que ele significa.

Angkor Vat
Nada há como Angkor, leitor. A começar
pela visão dos templos ainda na entrada, de longe, que servem
como aperitivo para as descobertas que o visitante faz a cada nave
ultrapassada, a cada coluna secular, a cada escultura corroída
do deus Brahma.
Sou recebido por uma filha de Shiva, uma senhora
bastante idosa de cabeça raspada e vestida com o tradicional
manto alaranjado dos monges. Ela não me compreende muito
bem, mas não parece interessada. Prefere que eu repita uma
complicada mis-en-scene diante de um Buda de terracota ornamentado
por uma centena de incensos.
Apresenta-me também a Garuda, uma ave
com corpo humano que simboliza a penitência para os budistas.
Miss Punch observa tudo um tanto impressionada, apesar de conhecer
cada desvão do templo de olhos fechados. Esses encontros
não são raros em Angkor. Mas o turista que se deixar
levar pelo receio perde muito da visita.
Uma dica para os vídeomaníacos
e fotógrafos inveterados: não deixem para comprar
filmes e baterias em Angkor. Além de o preço ser uma
exorbitância - Brahma prefere não interferir na atividade
comercial de seus fiéis -, há uma grande chance de
você sujar o local com plásticos, caixinhas de papelão,
etc.
É mais fácil o visitante encontrar
a iluminação do que um cesto de lixo nos templos de
Siem Reap.

Templo de Vat Xiengthong
Décimo-sexto dia: Siem Reap
Sapinhos menores que um dedal
Voltamos a Angkor para descobrir que dois dias de visita, definitivamente,
não são suficientes para devassar essa imensidão
de pedra.
A manhã é de sol tórrido,
entrecortado por uma fina garoa que insiste em nos seguir. Eu e
miss Punch vamos explorar os Pequenos Segredos do complexo. Trata-se
de uma série de salas e ante-salas de pedra divididas por
minitemplos, onde se podem encontrar imagens de Buda, da Garuda
e de Brahma.
As paredes são completamente forradas
por um trabalho em relevo que reconstitui a iluminação
de Buda e diversas passagens do Mahabarata - o mais longo poema
do mundo, com cerca de 100 mil versos, que conta a história
do conflito entre Kauravas e Pandavas e que constitui o princípio
da milenar cultura hindu.
À tarde, passo a uma parte do templo
denominada Grandes Segredos, onde encontro a mais bela arquitetura
local - já bastante corroída pelo tempo, é
verdade.
À entrada deste complexo feito de rocha
no século 13, uma multidão de minúsculos sapinhos
nos aguarda. São menores do que um dedal e, assim que nos
aproximamos, iniciam a fuga aos milhares. Um espetáculo impressionante.
Esse cenário majestoso erguido com
blocos de pedra (cujo encaixe é perfeito apesar dos diferentes
formatos e tamanhos) está servindo de pano de fundo para
uma reportagem do Discovery Channel. A emissora inicia as filmagens
de um especial sobre a construção do templo de Angkor
Vat durante o reinado de Suryavarman II, em 1113 - com atores vestidos
tipicamente e uma centena de figurantes escolhidos dentre a população
local.
Aproveite o dia para conhecer também
o Terraço dos Elefantes, esplendoroso como tudo por aqui.
Mas não se esqueça do pôr-do-sol. Nessa hora,
corra para o alto do Palácio de Phimeanakas e aguarde o momento
ocasional. Vale cada suspiro e cada foto.
Décimo-sétimo dia: Siem Reap-Phnom
Penh
Uma cidade cercada pelo passado
Estou de volta à capital, após a desintoxicação
cultural em Siem Reap. O sol é ainda mais abrasador. E meu
guia, o "jovem Sorem" (como eu o chamo embora ele só
entenda metade da expressão), inicia a excursão pelos
prédios sagrados da cidade.
Vou conhecer cada salão do Palácio
Real. As bandeiras estão baixas, o que significa que o imperador
ainda não chegou. Sorem sabe tudo sobre o "seu rei",
como ele diz. Desde os primórdios da dinastia até
os dias atuais, nada escapa a esse rapaz de olhos vivos e voz compassada.
Visito o templo do imperador, cujo chão
é forrado por placas de prata de 40 quilos. Uma visão
abissal. Devidamente protegidas por painéis de vidro, centenas
de imagens de buda em ouro, marfim, pedra, esmeralda, diamante e
cristal, doadas pelo povo (o " meu povo", segundo Sorem)
a seu soberano sagrado.
O dia está azul, como sempre no Cambódia,
e meu guia me leva ao centro de Phnom Penh, onde almoço no
restaurante dos correspondentes de guerra. Nas paredes, imagens
do conflito capturadas pelas lentes de fotógrafos que abasteciam
a esperança de voltar inteiros para casa nos copos da aguardente
local.
Do alto do segundo andar, percebe-se a movimentação
às margens do Mekong (sempre ele, leitor, razão de
viver de vietnamitas, laos e cambodianos). Toda a orla foi recuperada
nos últimos cinco anos pelo governo e pela iniciativa privada,
o que emprestou um ar afrancesado ao ambiente, como na década
de 50, antes de a guerra arrasar a cidade.
Ao se despedir, o jovem Sorem me alerta sobre
os perigos de me aventurar pela cidade. É que as cercanias
permanecem minadas. São em torno de 4 milhões de artefatos
da época da guerra esquecidos e que ainda respondem por mais
de 500 mortes anualmente.
Sigo a recomendação de meu guia,
mas aproveito as últimas duas horas no Cambódia para
me aproximar de uma tenda armada no banco de areia que emoldura
o Mekong.
Foi um erro, leitor! Se você estiver
extasiado com a cidade (como eu estava), não vá até
a areia! A visão da miséria por detrás do calçadão
sublime é horripilante mesmo para nós brasileiros,
já acostumados a toda sorte de humilhações.
O enorme cassino construído por
um conglomerado malaio, alguns metros rio acima, ajuda a revoltar
ainda mais o visitante. Sigo para o aeroporto com um nó na
garganta. Vou precisar de algo mais forte do que o vinho tinto da
classe econômica para descansar. Nada que 22 horas de viagem
até São Paulo e a visão das favelas na marginal
do Rio Tietê não amansem.
(voltar ao topo)
|