Dois cozinheiros, dois poetas
Celso Nucci
Escrevo em prosa que poeta não sou.
Mas amo a poesia e amo a cozinha, eis porque comento este belo e
saboroso trabalho de dois poetas cozinheiros. E estamos diante de
obra valorosa, interessante casamento das letras e versos com fornos
e fogões. E acaba tudo numa arte só.
A experiência poética dos dois
cozinheiros nordestinos - Celso é paraibano, Nei potiguar
- escolheu a rígida opção do soneto e ali trabalhou
competente e sensível. A intimidade com a cozinha dos dois
poetas elegeu um delicioso conjunto de 50 receitas que nem por serem
escritas em catorze versos cada uma deixam de carregar todas as
informações necessárias para que os frequentadores
dos fogões ou mesmo espertos iniciantes cheguem com sucesso
ao final das preparações.
Das mais interessantes é a reunião
das receitas deste livro de arte culinária (ou de poemas
das panelas?). Sua composição tem pratos portugueses
legítimos - quem duvida da origem lusa do bacalhau à
Gomes de Sá, do caldo verde ou das lulas recheadas? - e um
tema central brasileiríssimo que apresenta da buchada ao
churrasco, da vaca atolada ao jacaré, da cabritada ao tatu
e à carne-de-sol. A cozinha das famílias e dos saudáveis
botequins antigos está presente dando água na boca
com coisinhas como o feijão, farofa e coração,
bife à cavalo, camarão com chuchu e leitão.
Na base da boa parte das receitas encontramos
variações do saudável refogado português
- óleo, cebola, alho, salsa, cebolinha, louro, pimentão,
sal, pimenta-do-reino são ingredientes básicos - o
único traço forte de união entre todas as nossas
cozinhas brasileiras. Há pratos do sertão nordestino,
da montanha mineira e outros com muito sabor de mar. Um poético
resgate de porção importante da rica e pouco cultivada
cozinha brasileira.
Mas este receituário não é
puro nacionalismo e os autores se abrem para o mundo e apresentam
em seus versos-receitas - vejam só - coisas como o germânico
labskaus de D. Maria, macarrão aos quatro queijos, risoto
francês e um alegre cordeirinho ao vinho branco.
Todos os pratos têm suas histórias
com os autores. Muitas receitas lembram vigorosas paneladas que
eles cozinham com frequência para amigos privilegiados como
é o caso do "mocotó do trabalhador" com
que Japiassu celebra religiosamente o Primeiro de Maio em sua cozinha
nas montanhas de Petrópolis.
É um livro amável à primeira
vista. Li, reli e fui ao fogão. Fui feliz com suas artes.
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