|
Um pequeno mergulho
no País Gallego
Celso Japiassu
O belo país galego é diferente
do resto da Espanha. Seco e marítimo, lembra mais a Bretanha
francesa. O mar desempenha o mais importante papel na história,
na cultura e na economia da Galícia. O interior ainda é
pobre, apesar do desenvolvimento por que passa a região e
a Espanha como um todo. Mas o isolamento em que sempre viveu o país
manteve em compensação a originalidade da Galícia,
suas tradições culturais e seus costumes antigos.

A nova Galícia, desenvolvida.
O nome Galícia tem a mesma raiz celta
de Galia e Gales e a região foi ocupada e colonizada no Século
VI antes de Cristo, durante a expansão dos celtas por toda
a Europa. Em todos os cantos encontram-se ainda vestígios
dos celtas e dos romanos.
A gastronomia tem seu ponto alto nos frutos
do mar: mariscos, mexilhões, camarões e lagostins
feitos das mais diversas e interessantes formas. Não deixe
de provar a verdadeira "Coquille Saint Jacques", típicamente
galega e que nada tem a ver com a que se encontra nos restaurantes
brasileiros. A empanada galega, um empadão de carne ou frango
muito bem temperado, também merece muita atenção.
Cada pequena cidade tem a sua padroeira e
as festas religiosas costumam durar dias de muita comida e muito
vinho. Se você encontrar uma dessas festas pelo caminho, vale
a pena parar e se incorporar às comemorações.
Este roteiro de uma viagem de automóvel
passa pela Galícia e atravessa as Astúrias e o País
Basco, entrando na França.
Por todas as estradas você vai notar
a reação dos galegos contra a língua castelhana.
A sinalização das estradas é corrigida. Onde
está escrito La Coruña, um spray corrige para A Coruña;
onde se escreveu Ajuda, está corrigido para Axuda; Calle
corrigida para Rua e assim por diante. É o povo galego em
busca da independência impondo a sua própria língua.
Saindo de Portugal, via Valença do
Minho, a primeira cidade galega, depois de atravessar o Rio Minho,
é Tuy.
Tuy
Pertence à provícia de Pontevedra. Fundada pelos romanos,
Tuy foi importante fortaleza estratégica nas lutas entre
Castela e Portugal. É interessante ver as duas fortalezas,
a de Valença e a de Tuy, uma em frente à outra, lembrando
as lutas seculares que foram travadas nas redondezas. A catedral
foi consagrada em 1232 e merece uma visita, assim como várias
outras igrejas medievais muito belas e bem preservadas.
A cidade é muito pequena, apenas 15
mil habitantes. O melhor restaurante fica no melhor hotel de lá,
o Parador de San Telmo (diária entre 7.200 e 9 mil pesetas).Viajando
pela Galícia e por toda a Espanha, é bom prestar atenção
aos paradores. Onde existir um Parador Nacional, conte com boa hospedagem
e razoável (às vezes muito boa) comida. São
hotéis controlados e administrados pelo Ministério
do Turismo. Lá, funciona.As diárias para casal nos
paradores variam entre 8 e 20 mil pesetas, dependendo do luxo das
instalações e você pode, de um parador, fazer
reserva para o próximo, desde que saiba onde pretende pernoitar.
Vigo
O mais importante posto de pesca da Espanha, de onde se deduz o
que há de melhor na comida: frutos do mar, frescos, de toda
especie.Vigo tem bons restaurantes, como o "Puesto Piloto Alcabre"
(Av. Atlantida, 98 Tel.29.79.75). Experimente o Pote marinero, um
guizado de frutos do mar, os Chocos guisados ou entao os Pimientos
rellenos de marisco com arroz blanco. O chefe Argentino já
veio ao Rio para um festival de comida galega promovido pelo restaurante
do Salvamar. Preços entre 2.400 e 3.300 pesetas. O restaurante
El Castillo, no Monte del Castro, é o mais elegante da cidade
e possúi uma longa carta de pratos e de vinhos. Preços
entre 2.500 e 4 mil pesetas. O vinho branco Siglo ou o verde Albariño
merecem um lugar à mesa.
Para as compras, diversas boutiques sofisticadas
na Via Colón ou no El Corte Inglés, grande e bem organizada
loja de departamentos com filiais em toda a Espanha.
Viajando de carro, muita atenção
com a saida de Vigo em busca da auto-estrada para Pontevedra. A
sinalização é precária e você
pode ficar dando voltas à toa. Melhor perguntar que o pessoal
ajuda.
Pontevedra
O Parador Casa del Baron, embora esteja bem
no centro e tenha um estacionamento muito pequeno, é confortável
e silencioso e o restaurante-buffet é bom. O melhor restaurante
da cidade, no entanto, é o de Doña Antonia (soportales
de la Herreria, 9 Tel.84.72.74). Experimente o Revuelto Donã
Antonia ou Hígado de Pato salteado com manzana.
A cidade tem cerca de 60 mil habitantes, foi
fundada por navegadores gregos em época muito antiga, possúi
belas igrejas medievais e um interessante museu dedicado à
marinharia.
Santiago de Compostela
É a próxima parada obrigatória. Se não
fosse pela igreja medieval onde estão os despojos do apóstolo
São Tiago, pelo menos para ver a cidade antiga com suas construções
da alta Idade Média. Comer no Don Gaiferos (Via Nueva, 23
Tel.58.38.94), onde duas pessoas podem jantar muito bem por cerca
de 6 mil pesetas.

O altar da Catedral de Santiago
de Compostella
É interessante notar que Santiago de
Compostela foi responsável pelas grandes mudanças
culturais e econômicas ocorridas na Europa a partir do Século
XIII. Quando os restos de São Tiago (Saint Jacques, para
os franceses) foram encontrados, construiu-se alí uma catedral
e começou a época das grandes peregrinações.
Multidões de peregrinos vinham de toda a Europa para obter
graças em Santiago e no caminho fundaram cidades, movimentaram
o comércio e foram transformando a face do continente. Mais
interessante ainda é que, sete séculos depois, recomeçam
hoje as peregrinações. Os esotéricos de todo
o mundo, da Europa em particular, começam a refazer o trajeto
para Santiago de Compostela, que novamente se vê como centro
de atração dos modernos peregrinos. Os caminhos de
Santiago estão voltando a ser percorridos nos seus roteiros
originais que partem da França, da Alemanha, de Portugal
e de quase todos os países europeus, como fruto dessa nova
onda de misticismo que está varrendo o mundo.
A Coruña
Ou La Coruña, como dizem os espanhóis.
Os galegos insistem na sua grafia original: A Coruña. É
a Finisterra, o fim da terra, conforme acreditavam os antigos. Alí
se acabava o mundo e começava o mar enorme que só
terminava no abismo de uma Terra que seria quadrada.
É a capital da Galícia, com
232 mil habitantes, cheia de história onde se mesclam os
romanos e as guerras marítimas pelos séculos a fora.
O restaurante Coral (Rua Estrela, 2 Tel.22.10.92)
vale a parada para o almoço ou jantar, no caso de pernoite.
Preços entre 2.600 e 3.100 pesetas. O melhor hotel é
o Finisterre, no paseo del Parrote. Diária de 12 mil pesetas.
Costa Verde e Mar Cantábrico
Saindo d'A Corunã na direção
do Oeste, depois de Ribadeo você vai beirando a Costa Verde
e o Mar Cantábrico, passando pelas Astúrias. Várias
pequenas cidades e vilas de pescadores, com destaque para San Vicente
de la Barquera, vilarejo de praia com pequenos restaurantes de calçada,
na região da Cantábria. O restaurante Maruja, na Av.
Generalissimo, tem excelente cardápio de peixes e frutos
do mar com preços entre 2.500 e 3.000 pesetas.
Santillana del Mar

O parador em Santillana Del Mar
Logo após San Vicente de La Barquera,
ainda na Costa Cantábrica, vale a pena seguir por uma estrada
secundária, a Carretera 6316, estreita mas em muito boas
condições, como acontece com todas as estradas da
Espanha, para pernoitar em Santillana del Mar. É uma cidade
muito pequena, preservada desde a Idade Média em sua arquitetura
original. Surgiu de uma pequena pousada construida para os peregrinos
que vinham do outro lado da Europa seguindo o caminho de Santiago.
Tem um convento do Século XIII inteiramente preservado e
o luxuoso Parador Gil Blas. Nas proximidades existe a famosa caverna
pré histórica de Altamira, com desenhos marcando a
presença do "homem de Altamira".
Voltando para a carretera principal, você
pode passar por Santander, depois por várias pequenas cidades
praianas e em breve vai topar com um arco atravessando a estrada
E-70 onde está escrito EUZKADI VYZCAYA. Isto significa que
você está entrando no País Basco e tomando contato
com sua língua muito estranha e muito antiga.
San Sebastian (Donostia)
O espanhois chamam a cidade de San Sebastián.
Os bascos querem que seja Donostia. É a capital da província
basca de Guipúzcoa, centro gastronômico e cultural,
onde anualmente, em setembro, há um importante festival internacional
de cinema. Os hotéis ficam lotados e você topa com
aquelas caras conhecidas dos filmes produzidos na França,
Itália, Espanha e europa oriental. Donostia é uma
bela cidade marítima construida na Bahia de la Concha, balneário
frequentado por quase toda a Europa, apesar dos protestos e eventualmente
das bombas disparadas pelos separatistas do País Basco, que
até hoje não se conformam com o domínio espanhol.
O melhor hotel é o Maria Cristina,
no paseo Republica Argentina (28 mil pesetas com pensão completa)
, mas você pode se hospedar confortavelmente no Orly (8 mil
pesetas), que não tem restaurante mas fica bem em frente
à pequena e charmosa baía.
A Academia de Gastronomia forma os grandes
cozinheiros de San Sebastián, onde existem diversas confrarias
de gastrônomos, clubes do bolinha onde mulheres não
entram, localizadas na parte antiga da cidade. Algumas recebem visitantes
para comer.
O melhor restaurante é sem dúvidas
o Casa Nicolosa (Aldamar, 14 - 1.piso Tel.42.77.62). No sofisticado
cardápio você pode escolher um Creme de Ave, Pimentões
recheados de bacalhau, um pato trufado ou o carro chefe da casa,
"Cigalas sobre hojaldre y brik". Um casal janta muito
bem por 6 mil pesetas, acompanhando a comida com algumas garrafas
de vinho. Preste atenção ao horário de funcionamento
dos restaurantes. Abrem as 8 horas da noite e permanecem abertos
pela madrugada adentro.
Compras nas lojas e nas boutiques das proximidades
da Plaza Zaragoza. San Sebastian é uma cidade sofisticada
e as mulheres em especial adoram passear pelas largas ruas onde
estão as casas das "griffes" famosas.
Após esta breve visita ao País
Basco espanhol, entre na França via Bayone para percorrer
vários quilometros ainda dentro do País Basco, mas
já no território francês. Se preferir ou estiver
cansado de dirigir, pode deixar o carro em San Sebastián
e pegar um avião para qualquer cidade da Europa.
(voltar ao topo)
|