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ROTEIRO SENTIMENTAL DE FLORENÇA
Nei Leandro de Castro
Florença não é aconselhável
para apressados, para aqueles turistas sôfregos, que querem
ver tudo num só dia, que têm um olho numa obra-prima
da Renascença, outro no relógio. Pessoas que não
relaxam, que madrugam, que querem aproveitar o máximo no
menor tempo possível, porque estão viajando em dólar.
A ex-mulher de um amigo meu certa vez o acordou em Paris, gritando:
-Acorda, meu bem, que você está
dormindo em dólar.
As três vezes que fui a Florença
somam um total de 40 dias. Já dá para conhecer uns
becos com belos restaurantes e incríveis prostitutas fellinianas,
pequenas igrejas com obras-primas escondidas dos olhos da maioria
dos turistas, passeios poéticos, um barzinho do outro lado
da ponte, além, claro, do espantoso número de obras
de arte da cidade. Florença, com menos de 500 mil habitantes,
detém cerca de 40% de todo o acervo artístico da Itália.
A melhor época para ir a Florença
é setembro, no começo do outono. Você pode visitar
museus, galerias e igrejas, tranqüilamente, sem enfrentar muitas
horas de fila. Na primavera, essa espera pode chegar a cinco, seis
horas, se você quiser conhecer as obras-primas da Galeria
Uffizi ou visitar a Galleria dellAccademia, onde, além
do David, estão as esculturas de Michelangelo que mais me
impressionam: os Quatro Prisioneiros, escravos fazendo esforço
para se libertarem do mármore em estado bruto.

A gente tropeça em arte em cada beco,
em cada rua, em cada praça de Florença. Um dos meus
grandes prazeres é caminhar pela beira do Arno, olhar suas
águas revoltas, cruzar suas pontes, tomar um sorvete excelente
perto de Ponte Vecchio, retomar o passeio, atravessar a ponte Santa
Trinità, projeto de Michelangelo, bombardeada pelos alemães
na Segunda Guerra Mundial. Uma observação: para reconstruir
a ponte, os florentinos usaram a técnica, o material e instrumentos
iguais aos usados há 500 anos. São esses detalhes
que fazem me apaixonar por Florença e pelo espírito
florentino.
Em Florença, o jeito mesmo é
andar a pé e ter cuidado com as motonetas que parecem vespas
gigantes voando na sua direção.

Pallazzo Pitti
A pé, a partir do centro histórico,
depois de uma boa caminhada você chega ao Pitti, uma construção
imensa, megalomania de um milionário da época que
queria construir um palácio que fosse maior do que o dos
Medici. Construiu mas faliu. O palácio Pitti abriga hoje
o Museu da Porcelana, o Museu da Prata, a Galeria Palatina, o Museu
do Vestuário, o Museu de Arte Moderna e os jardins Boboli.
Ah, esses jardins. Gramados a perder de vista, mirantes para se
apreciar a cidade lá embaixo, bancos para namorar e, de repente,
um espanto: no meio do gramado, uma escultura de Igor Mitoraj, o
rosto de um deus grego com três metros de altura, carcomido,
como se tivesse sido resgatado por arqueólogos. Mitoraj,
que eu não conhecia (pelo nome, deve ser do Leste europeu),
é autor de uma série de esculturas que ele denomina
Nova Mitologia. Atualmente, expõe seus trabalhos
em Veneza, Roma, Cortina dAmpezzo, Lausanne e Paris. É
um dos mais vigorosos, originais e grandiosos artistas de hoje.
Pudera: ganhar um lugar de honra no meio das artes de Florença
é um privilégio para raros, raríssimos.
Ao sair do palácio Pitti, do outro
lado da rua à direita, há um prédio modesto,
onde se lê numa placa: Aqui, o escritor Dostoievski
concluiu o seu romance O idiota. Alguns metros adiante, é
bom fazer uma pausa e entrar numa casa de vinhos, o Pitti Gola.
O dono do bar, Riccardo Zucconi, é o florentino mais cordial
e bom de papo que você pode encontrar. Pena que seja muito
ocupado, pois além de empresário é vereador
de Florença. Riccardo já morou no Brasil, admira a
literatura brasileira e é autor de um romance, Cuore di carta
(Coração de papel). Com ele aprendi muitas coisas
sobre Florença e aprendi a amar uma das cidades mais fascinantes
do mundo.
Com Riccardo Zucconi, conheci o Café
la Torre (Benvenuto Cellini, 65/R). No bar cheio de gente, uma italiana
chamada Barbara Casini começou a cantar, eu quase caí
para trás: ela cantou os grandes sucessos da bossa-nova no
mais perfeito sotaque carioca. No final da apresentação,
Barbara veio para nossa mesa, falou sobre o Rio, sobre os brasileiros
e, muito gentil, me deu o seu CD, Sozinha, que faz sucesso em algumas
cidades da Itália e em Paris.
Em Florença, na igreja Santa Maria
del Carmine, descobri Masaccio, um gênio da Renascença
que viveu apenas 27 anos. Na igrejinha de Santa Felicità,
me deslumbrei com o afresco Deposizione dalla Croce do pouco conhecido
Pontormo. Tomei um choque ao ver pela primeira vez os Prisioneiros
de Michelangelo. Conheci restaurantes excelentes, como La Baraonda
e La Stravaganza, nos lugares mais improváveis. Comi sanduíche
de lampredotto numa carrocinha. Bebi os bons vinhos da Toscana,
de onde vem o Brunello de Montalcino, que o papa atual, quando gozava
de saúde, bebia todo santo dia. E, todas as vezes, sempre
esfreguei o focinho da escultura do javali, que fica em frente ao
Mercato Centrale, joguei uma moedinha na fonte e fiz um pedido:
quero voltar a Florença.
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