O último
dia do ano em Fiesole
Celso Japiassu
Fiesole é uma cidadezinha simpática que avista Florença do alto da montanha. Domina todo o grande vale florentino e mais
as coxias que vão além e se perdem no horizonte da
sua aristocrática vizinha. Trezentos metros acima no nível
do mar lhe garantem no inverno um clima mais frio e mais seco, com
pouca neve e com dias claros de céu às vezes azul.
É uma combinação que conduz invariavelmente
à tentação da boa comida e, mais ainda, a generosas
taças do vinho toscano, onde a qualidade e o preço
mostram-se no melhor do seu equilíbrio, o que vem a significar
alta qualidade por um preço que nem o mais fanático
dos sovinas seria capaz de reclamar.
Em Fiesole, ou melhor, no Hotel Villa Fiesole,
na noite de 31 de dezembro para 1 de janeiro de 2002, alcancei um
pequeno récorde - bater 10 pratos numa única ceia,
e mais comeria, não fosse para tão grande ardor tão
curta a noite.
Um lugar para a noite de ano novo
Antiga vila etrusca dominada pelos romanos
e pelo menos uma vez destruida pela cobiça e pelos exércitos
dos nobres florentinos, Fiesole apareceu no meu caminho por recomendação
de Inocêncio Perez, artista e diretor de arte argentino-brasileiro-italiano,
quando ele me disse, em fins de dezembro de 2001, que Veneza estava
lotada. E mais: alem de lotada, quase submersa pelas águas
que de tempos em tempos expulsam os turistas e ameaçam a
própria existência da cidade.
Florença pareceu ser a alternativa
lógica. Mas todos os hotéis também estavam
lotados. Foi quando Fiesole surgiu. Inocêncio é um
artista gráfico acostumado a encontrar soluções
para problemas intrincados, menos para a crise argentina, que estava
no seu pior momento e para a qual ele não via solução.
Passamos dois dias em Voghera, nas cercanias
de Milão. Cacho Perez, como é conhecido, me levou
a conhecer a cozinha do lugar e a entender as razões que
o fizeram deixar a America do Sul e voar para a Italia. Tanto a
cozinha dos apeninos quanto os motivos de Cacho, nenhum deles merece
retoques.
Partí de Voghera na companhia de Brigitte,
que me faz companhia por terra, mar e ar, na busca não sabemos
bem de que, mas certamente de algo que nos conduza a momentos que
valham a pena ser lembrados. O destino era Fiesole e uma noite de
ano novo estrelada pelo "Cenone".
"Cena" você pode traduzir
por ceia. Cenone vem a ser, portanto, uma ceia grande. Mas não
imaginávamos que fosse tanto.
Florença e a ceia
Um dia na agitada Florença, nas vésperas
do ano novo. Turistas de toda parte na Piazza della Signoria, flashes,
grupos, vendedores e compradores, japoneses, filas para visitar
o museu, filas para entrar no Duomo, e mais japoneses.
O ônibus número 7 faz a linha
Fiesole-Florença-Fiesole. Tinha descido vazio quando embarcamos
para passar o dia em Florença e subia lotado para nos deixar
de volta na porta do hotel, onde já estavamos inscritos para
o "cenone".
Às nove da noite em ponto, somos chamados
com urgência porque estavam nos esperando para começar
a grande ceia, que só teria início com todos os convidados
presentes. Na companhia de uns 40 florentinos, em grupos ou casais,
alem de um alemão solitário que comeu lendo "Der
Spiegel" e se retirou antes da hora, demos início a
um curso de dez pratos que iria terminar à meia-noite em
ponto, com uma taça de prosecco. No exato momento de brindar
o novo ano e assistir à queima de fogos que se iniciaria
lá embaixo, na distante Florença, iluminada pelas
explosões faiscantes, chuvas de luzes, lírios de fogo,
estrelinhas candentes, rosas incendiadas.
O cardápio
O "cenone", com o nome oficial de
"Il Menú di Capodanno 2001", começou desprentensiosamente
com um pratinho de "Amore Louche", biscoitinhos apropriados
para o espumante aperitivo e logo em seguida foi servido o anti-pasti,
levíssima mousse de presunto ao lado de um vol-au-vent de
camarões. O primeiro prato, um risotto ao queijo groviera,
trouxe ao paladar os sabores do Piemonte e veio acompanhado por
um vinho frisante toscano que ampliou o espectro do gosto acentuado
do prato.
O Crespelle
alla Fiorentina veio para recordar que estávamos no país
toscano e que algo de especial seus criativos chefs tinham para
oferecer ao ano novo.
A tradição italiana diz que,
para ter sorte no ano que começa, é preciso servir cotechino
com lentilha no jantar da última noite e assim foi feito
no "cenone" de Fiesole: um cotechino fresco e saboroso
veio depositado sobre um leito de lentilhas para dar a todos boa
sorte no ano que dali a pouco iria começar.
Imaginavamos que a ceia havia finalmente chegado
ao fim quando nos vimos em frente a uma bisteca
à florentina, que merecera três meses antes um
concerto em homenagem ao seu retorno com a presença de Sting,
Elton John e Mike Jagger, na Marina de Carrrara. Para tristeza dos
florentinos e, como se vê, também dos "rock stars"
ingleses, a bisteca havia sido banida das mesas italianas pela ameaça
da vaca louca. Batatas assadas e espinafre na manteiga lhe faziam
companhia.
Numa demonstração do talento
organizacional dos italianos, algo em que os estrangeiros não
costumam acreditar, quando faltavam exatamente cinco minutos para
a meia noite, serviu-se um panettone e mais uma taça de prosecco
a todos os convivas. Ouviram-se os primeiros fogos. Lá longe,
Florença saudava o ano novo em salvas de fogos e girandas
espalhadas pela cidade inteira.
Naquela sala em Fiesole, pessoas estranhas
umas às outras cumprimentavam-se desejando-se mùtuamente
felicidade no ano que começava. Mas também comemoravam
o fim de 2001, sobre o qual Eugenio Scalfari escrevera, no jornal La Republicca, naquela mesma
manhã: "questo anno terribilis che sta per andarsene
col suo fardello di sangue, di pianto, di aggravata miseria, di
incertezze economiche e di piu intense paure esistenziali" - este ano terrível que está para ir embora com seu
fardo de sangue, de pranto, de agravada miséria, de incerteza
econômica e do mais intenso medo existencial.
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