Léa e Emílio, no Tarantella
As Primeiras
Pizzas do Rio
Léa Maria Aarão Reis
Este mundo é perverso, dizia
outro dia Oscar Niemeyer, numa entrevista dada a um jornal.
Mundo cada vez mais feio. Mundo esnobe.
Será que também nós
vamos envelhecendo e ficando ranhetas?
Ou somos mansos dinossauros, sobreviventes, remanescentes de épocas
mais amenas?
Por exemplo: agora, só ouço
falar das pizzas DOC ( denomination origine controlée). Há
algum tempo elas estão na moda. A mídia gastronômica,
que aqui se dá ares de uma importância ridícula,
se deslumbra com elas. As pizzarias mais sofisticadas se multiplicam,
e o mais grotesco: brigam entre si pela propriedade do nome na fachada:
forneria, pizzaria, cantina.
Não tarda e todos os domínios
públicos serão privados, tal a histeria neo liberal
de privatizar geral.
Neste mundo esnobe, poucos estão
lembrando que este ano o paulista do Brás Emílio Siniscalchi,
neto de um outro Emílio, este da cidadezinha de Benevento,
na Campania, próxima de Nápoles, está festejando
os 37 anos da sua Cantina Tarantella.
Em 52 Emílio veio para o Rio
e abriu a mitológica Cantina Sorrento, no Leme. Quando falo
dela aos amigos com mais de 60 anos, vejo neles um olhar enternecido,
lembrando talvez de um tempo, nas suas vidas, bem mais favoráveis,
e no qual um dos cenários foi o restaurante de Emílio.
Depois, em 63, veio a Tarantella, naquele
trecho inicial da Avenida Sernambetiba, na Barra, que ainda hoje
se assemelha à nossa beira-mar dos anos 50.
Pois bem. A Tarantella ainda existe,
viva. E o Emílio também, ativo, com o seu bermuda
e o tênis, que ele nunca mais tirou desde que se mudou para
a Barra. Todos os dias ele está lá, ao lado do filho
caçula, o Lico, seu braço direito no negócio.
(Aliás, para quem não
sabe, o filho mais velho dos Siniscalchi, o Ettore, é um
empresário muito bem sucedido, dono dos quatro bons restaurantes
que levam o seu nome, no Leblon, na Barra e no Recreio dos Bandeirantes.
No Rio, não há quem não o conheça).
É oportuno lembrar, para que os esnobes
baixem um pouco a bola, que foi Emílio quem praticamente
introduziu a pizza _ pelo menos a napolitana, mais cheia e mais
alta que a romana _ na cidade. O mesmo que o seu avô já
fizera em São Paulo, muito antes, fim do século dezenove,
quando ele e a mulher Victoria, personagens de uma uma saga ao modo
de Terra Nostra, inauguraram a primeira confeitaria italiana do
Brasil, a Guarany.
Nela, além de oferecer toda a doçaria da sua região
(o sfogliatelli, o zambaione, o sanguinaccio, a margherita) e de
exibir para os seus fregueses os primeiros filmes mudos, numa tela
no fundo do salão, Emilio, o avô, também fazia
o que chamou de pizza rústica _ uma espécie de massa
folhada, salgada, com pedacinhos de salaminho e ricota.
Duas gerações depois, passando pela do Ettore, o pai,
que foi quem criou uma das mais belas cantinas paulistas, também
no Brás, a Castelões, Emilio, o neto, repete as proezas
de seus antepassados. E junta ás suas outras duas paixões,
o futebol (e o Palmeiras) e a ópera, a profissão de
chef da cozinha mediterrânea.
Logo transforma a Sorrento num dos pontos de encontro mais badalados,
mais alegres e mais simpáticos dos anos dourados da cidade
_ os 50 e início da década dos 60.
Era lá que se via, todas as madrugadas, Ary Barroso ("ele
comia como um passarinho", lembra Emílio). Era onde
Linda Batista costumava dar o seu show particular, extrovertida,
desbocada e atrevida como ela era.
Onde os futebolistas batiam ponto: João Saldanha, Luiz Mendes,
Sandro Moreira, José Brasil Campio. Jogadores como Friedrich,
treinadores como o célebre Tim, do Fluminense e o Lula, do
Santos. O time do Milan, quando vinha jogar aqui e trazia, nas suas
malas, o azeite extra virgem, os tomates, a massa e o parmesão,
tudo, e era Emílio quem, na Sorrento, cozinhava para os jogadores.
Todos os cartolas da época . Mozart di Giorgio, da CBD. Até
o menino Pelé, que comia sempre a mesma coisa: bife, salada
e batata frita.
Era lá que, durante a ditadura, o então Ministro da
Fazenda Delfim Netto pontificava, muitas noites, à beira
de um generoso prato de espaguete ao vôngole _ o seu preferido
_, cercado pelos rapazes da sua assessoria.
Onde o glamuroso empresário paulista Ermelindo Matarazzo,
casado com uma das grandes belezas da época, a francesa Helène,
ex- mulher de Walter Moreira Salles, não deixava de estar,
quando descia de São Paulo e vinha para o Rio e distribuía
bilhetes de loteria para os mendigos (já havia), vendedores
de flores, cantores de rua e garçons.
Onde ás vezes aparecia a cantora lírica Benzasoni
Lage, enfeitada com as suas belas jóias, para comer penne
all'arrabiata.
Odete Lara e Norma Benguell. O cinema novo inteiro. O todo-mundo
do teatro. Os que esticavam dos concertos e da ópera no Municipal,
ou do Vogue, do Sacha's e do Fred's, onde só havia picadinho
no menu.
O Lan também estava sempre por lá, fundador do Clube
Cosa Nostra, um autêntico Clube do Bolinha. Samuel Wainer
era um dos sócios. Ao lado, as meninas lindas, as irmãs
Marinho.
Durante todo esse tempo, além da pizza, Emílio ensinou
o carioca a comer espaguete com garfo e colher. Apresentou a alcachofra
à galera. As lasanhas verdes. Introduziu a mozarela de búfala
no cardápio.
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Spaghetti à
Umbria:
Refogar em bom azeite: alho, cebola, pancetta em cubinhos, funghi,
tomate cassé sem pele e sementes,
peperoncino. Regar com vinho branco bem seco. Sal.
Dispor sobre o spaghetti cozido al dente.
Acrescentar, na mesa, parmezão ralado e ricota defumada também
ralada.
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Não foi só Paris a festa permanente
dos americanos, nos anos 30.
A Sorrento foi a nossa festa permanente. Um dos templos do pessoal
daquela geração que, dizem, era-feliz-e-não-sabia.
Ou sabia muito bem, sim, e pressentia o que poderia vir (de pior)
depois.
Mas o melhor, a boa notícia é que até hoje
saem do forno a lenha da Tarantella as mesmas pizzas verdadeiramente
napolitanas. Para muita gente que conhece o ramo, ainda é
a melhor pizza do Rio. Para o pessoal do Sindicato dos Proprietários
de Restaurantes do Rio, Emílio é um guru, uma lenda
viva.
Com o tempo, ele introduziu novidades no seu cardápio. Uma
delas é a pizza patria mia, com mozarela de búfala
e tomates cerejas descascados e sem sementes, intercalados com rúcula
(pizza branca/verde/vermelha).
Na seqüência do papo com Emílio,
em um desses inícios de tarde maravilhosos que a cidade nos
dá de presente, nos meses de janeiro, mergulhados na paisagem
extraordinária que se avista das mesas da Tarantella, ele
nos forneceu a receita da massa das suas pizzas, em um intervalo
de raro luxo.
Portanto, para quem se dá o prazer de ir para a cozinha fazer
pizza, lá vai:
Sobre um tampo de mármore (deve ser
de mármore, segundo Emílio) fazer um buraco em um
quilo de farinha de trigo. Colocar nele 600 gramas de água,
4% de fermento biológico e 4% de gordura vegetal. Sobre as
bordas da farinha, o sal. Mais 2% de açúcar para dar
cor à massa. Amassar durante cerca de quinze minutos. Quando
ela estiver se despregando da mão, divide-se em bolas (de
250 gramas por pessoa). Deixar descansar durante quatro horas em
um tabuleiro, coberta por toalha de linho _ para não formar
uma casca nela. Duas horas depois, cada bola de massa terá
crescido e estará o dobro do tamanho inicial. "Acariciar"
a massa, segundo Emílio, e não esmagá-la. Ela
irá abaixando.
A pizza napolitana deve ser "emoldurada", segundo ele.
Deve ter trinta centímetros de diâmetro, dois de altura
nas bordas e meio centímetro no centro.
Como vêem, desde os chucros quatrocentões
de São Paulo, caipiras que não sabiam comer direito,
à chegada dos italianos, como a de Emílio, o avô,
e até as pizzas DOC de hoje, sustentadas pelo marketing cretino
das assessorias de imprensa e pela preguiça dos pauteiros
dos jornalões, comemos muita pizza debaixo da ponte.
Algumas, ótimas. Mas nenhuma delas foi mais gostosa que as
de Emílio, o aniversariante deste ano.
Vamos cantar parabéns para ele.
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