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MÚSICA. DANÇA. TABACO.
SOL. RUM
Maria
das Gracas TARGINO *
Música. Dança. Tabaco.
Sol. Rum. Verdade! A República de Cuba é tudo isto.
Este país de beleza ímpar, a que voltei, depois de
12 anos, não mais como turista, mas como estudante de curso
de extensão em espanhol, na Universidade de Havana, conserva
seu esplendor em meio ao Mar do Caribe. A "Chave do Golfo",
denominação que causa orgulho a seu povo, compreende
um vasto arquipélago, formado pela ilha de Cuba, Ilha de
Juventude e mais ou menos 1.600 ilhotas, que somam cerca de 110.922
km2 de puro esplendor. Seu clima tropical, com temperatura entre
21oC a 30oC/35oC, face à sua umidade excessiva, faz Teresina
parecer um recanto gélido, com a ressalva de que julho e
agosto são exatamente os meses mais quentes, em oposição
a janeiro e fevereiro. Todos estão sempre suados, o que se
aplica aos habitantes dos 14 estados (províncias) e 169 municípios,
divisão político-administrativa vigente desde 1977.
É um povo que idolatra os seus
símbolos nacionais - a bandeira de estrela solitária,
o hino de Bayamo (somente duas lindas estrofes) e o escudo da palma
real. A flor nacional (mariposa), branca e de agradável fragrância
e o pássaro nacional - tocororo - em vermelho, branco e azul
(as cores da bandeira nacional), são lembrados, com freqüência,
pelos cubanos. O Herói Nacional de Cuba, José Martí,
mentor intelectual da Revolução de 1959, está
presente em monumentos, praças e instituições,
seguido da figura legendária de Che Guevara, "o valente
companheiro de Fidel", cuja imagem é a mais consumida
por turistas de todo o mundo.
A expressão - A Revolução
- integra o cotidiano da população desta nação
que se intitula socialista - "Tenemos y tendremos socialismo".
Velhos, jovens e crianças se referem sempre ao antes e depois...
É impossível não falar sobre "ela".
Está em todos os lugares. Na TV (três estações
estatais), no rádio, nas lojas, nos filmes, nas músicas,
nos outdoors que trazem dizeres, como estes "Decir Cuba es
decir Revolución" [Falar em Cuba é falar na Revolução];
"Lo nuestro es nuestro" [O nosso é tão-somente
nosso] e até mesmo nas residências particulares. Isto
porque, a cada quarteirão, uma casa sedia o Comité
de Defensa de la Revolución (CDR), instalado desde os anos
60, com o intuito explícito de proteger A Revolução,
mantendo controle sobre o que ocorre na vizinhança. E sem
contar uma série de outras organizações sociais,
voltadas para setores específicos, mas que visam, sempre,
"consolidar e defender a sociedade socialista". É
o caso da Central de Trabajadores de Cuba e da Federación
de Mujeres Cubanas.
Desesperança
E aqui começa um dos primeiros
paradoxos deste país. Se você pensa em Cuba, inevitavelmente,
vem à tona, a imagem de um povo explosivo, alegre, extrovertido,
temperamental, astuto, sentimental, emocional, barulhento, amante
da música e da dança (balé, mambo, chá-chá-chá,
rumba, salsa e qualquer outro ritmo), do fumo, do sol, do mar, do
rum, da cerveja (Cristal é a preferida), do beisebol (esporte
no 1), do futebol (adoram o nosso), do dominó, do boxe e
do cinema, onde, aliás, fala, grita, entra e sai a qualquer
hora. Conversador, contista, contador de anedotas, meio fanfarrão
- adora narrar suas proezas -, o homem encarna, sistematicamente,
a figura do Don Juan, não importa a idade da mulher ou sua
aparência. Se for estrangeira, então, os piropos são
diretos e inevitáveis, e, algumas vezes, extremamente engraçados,
ainda que repetitivos. E mais, pensar no cubano, é pensar
no amigo solidário.
No entanto, morando em casa de família,
convivendo dia-a-dia com o povo durante 33 dias, distante do turismo
requintado e das informações oficiais, a todas as
características citadas, posso acrescentar outras. Estamos
diante de um povo desesperançado, sem expectativas, apático
e temeroso. Ninguém confia em ninguém. Todos têm
medo de todos. Como acreditar em amizade e solidariedade, quando
os integrantes do CDR estão vigilantes 24 horas? São
comuns, por exemplo, os chamados serviços voluntários.
Vivenciei ativamente um deles: limpar o parque em frente de "minha
casa". Uma estudante de comunicação, 24 anos,
companheira de muitas horas, foi "convidada" a participar,
como membro da audiência, de um programa televisivo para discutir
o registro feito por concludentes do seu curso sobre a atuação
de médicos cubanos em Guatemala, Paraguai e Venezuela. Nos
dois casos, obviamente, não há obrigatoriedade, mas
os que não aparecem têm seus nomes anotados, para confronto
com solicitações posteriores que possam fazer, como
transferência de local de emprego, concessão de linha
telefônica, estágios e coisas assim. Nada é
dito explicitamente. É preciso, sempre, ler nas entrelinhas.
Ainda em relação ao temor
generalizado, o sistema de habitação impede qualquer
resquício de privacidade. Todos sabem tudo sobre todos. Com
poucos dias, salvo no caso dos horários de trabalho (incompreensível
para mim, por causa da diversidade de sistemas), me inteirei - independente
de minha vontade - do ritmo de vida dos vizinhos: horários,
alimentação (cheiro da comida), quem os visita, que
músicas ouve, o timbre das vozes etc. etc. Isto porque, os
imensos casarões de outrora são, hoje, habitados,
por muitas famílias, sem nenhuma adaptação
e muitos, em situação precária, em termos de
instalações físicas, elétricas e hidráulicas.
Com freqüência, três ou quatro famílias
convivem num mesmo andar, e, às vezes, compartilham um único
banheiro. A princípio, logo após a Revolução,
o Consejo Superior de la Reforma Urbana se encarregou da distribuição
das famílias nas novas moradias, abrigando, inclusive, um
alto número de camponeses que se instalaram em Havana, incentivados
pelo Governo tão-somente para fortalecer a ideologia, esvaziando
o campo e dando um golpe duro na agropecuária. Agora, é
o Instituto de la Vivienda. Mas se você pergunta a 10 cubanos
sobre os procedimentos que norteiam tal distribuição,
obterá 10 respostas distintas. A falta de individualidade
é tão grande que filmes com êxito internacional,
como Morango e chocolate (versão brasileira) ou nacional,
como Nada e Santa Camila de la Habana Vieja, inevitavelmente, fazem
alusão a este fato.
Os privilégios
Mas, como compreender Cuba é
uma missão impossível, enquanto jovens não
podem se casar a não ser que continuem morando com uma das
duas famílias, há pessoas, como o proprietário
de onde vivi, a quem pertence todo o andar térreo de um grande
casarão, e a quem é permitido exercer a atividade
legal de alugar suas dependências. São as chamadas
casas de alquilar, que, a cada dia, se tornam mais numerosas, tanto
as oficiais, como as "clandestinas", que sobrevivem, mediante
suborno repassado aos fiscais do Governo.
Suborno faz parte da vida do povo cubano.
E não tem saída. É uma forma e fórmula
de sobrevivência. Profissionais liberais ganham entre 10 a
25 dólares. Uma psicóloga com mestrado recebe 10 dólares
para sua manutenção e da filha. Uma médica,
especialista em gastroenterologia no ramo da pediatria, de quem
me tornei muito próxima, aos 55 anos, com 20 dólares
mensais, não possui um local para morar. Vive de favor num
dos quartos de "minha casa", assumindo, então,
a administração dos negócios do seu padrinho,
o proprietário, a quem, nunca vi. A ele, paguei por seu intermédio,
620 dólares pelos 31 dias que passei (estive em hotel por
dois dias) por um quarto com cozinha e banheiro, incluído
café da manhã. Isto significa que recebeu, num mês,
valor superior ao salário anual da médica, sem contar
o aluguel das outras duas dependências. Uma estudante norte-americana
(Roe) pagou, em torno de 500 dólares, o mês, por um
apartamento grande para os padrões cubanos - sala, dois quartos,
banheiro e cozinha - propriedade de uma só mulher. Além
do privilégio da moradia exclusiva, da renda do aluguel,
recebe dinheiro de uma filha, que vive nos Estados Unidos. A estas
pessoas, o Governo cobra uma taxa de 100 dólares mensais
por habitação, acrescido a 10% do lucro anual.
É evidente, assim, que o socialismo
cubano permite a formação de uma casta, que possui
privilégios e goza de regalias, e a quem o povo já
denomina, ironicamente, de maceta, literalmente, vaso. Em linhas
gerais, são os alquiladores, os taxistas, os "donos"
de restaurantes e os que têm acesso ao dólar através
de familiares morando nos EUA.
Retomando a questão do suborno,
este não é exclusivo das casas de aluguel clandestinas
ou da distribuição da habitação. Junto
com o "olho vigilante" do CDR, interfere em tudo: na seleção
das escolas dos filhos; na licença para os taxistas; na concessão
de linhas telefônicas; na transferência de trabalho;
na ascensão profissional; no recrutamento de empregos etc.
Por exemplo, trabalhar em hotel constitui privilégio. Seus
empregados, quase todos, com formação superior, são
afortunados, pois há a perspectiva de ganhar gorjetas em
dólares, de "herdar" alguma coisa do turista que
se vai ou de conhecer um(a) estrangeiro(a) Então, é
preciso ter "influência" para ser admitido. O que
parece cômico é o trambique em coisas triviais, como
na compra do pão e do jornal. Com a libreta de abastecimiento
(caderneta de controle de abastecimento), cada família tem
direito a uma quantia x de pão, cujo valor oficial é
de cinco centavos (peso cubano) cada unidade. Mas, por um peso,
é possível comprar mais. Assim, o fiz várias
vezes, e os 95 centavos passam ao bolso do balconista. Dentre os
vários jornais, todos estatais, estão Juventud Rebelde,
Trabajadores e Tribuna de la Habana. Dentre eles, o mais popular,
de periodicidade diária, Granma, vale um centavo. Cedo, muito
cedo, velhos se portam diante de longas filas e compram toda a tiragem
para revenda a um peso, o que representa o "lucro" de
99 centavos por cada exemplar.
Os velhos
Aliás, contradizendo todo o discurso
oficial, a situação, em geral, dos velhos cubanos,
desperta compaixão a qualquer pessoa. Estão sempre
nas ruas ou nas sacadas dos prédios ou sentados nas entradas
de suas casas. Os primeiros vendem de tudo para sobreviver: guloseimas,
jornais, bijuterias, cigarros, flores, cafezinho fraco e requentado...
Os que estão nas sacadas, por suas condições
físicas, não descem as numerosas escadas e permanecem
a olhar a vida que se vai... Às vezes, o seu ponto de contato
com o mundo é o jaba, saco que fazem descer por uma corda
para receber ou enviar coisas variadas. Por sua vez, os que ficam
nas entradas dos prédios também negociam o que podem.
Além destes dados visíveis, Roe, a estudante norte-americana,
como membro de uma missão humanitária, visitou 25
deles. Seu relato é atroz. Enquanto, paradoxalmente, a expectativa
de vida cresce para 77,5 anos (no caso da mulher) e 73,5, para os
homens, a renda mensal média desta parcela populacional é
em torno de oito dólares e as condições de
vida miseráveis, a bem da verdade, como as de muitos idosos
brasileiros. Fecho os olhos e vejo a figura patética de um
velho do primeiro andar de "minha casa". Morando sozinho,
aos 74 anos, lava sua roupa, cozinha, limpa, mas o que é
mais triste, como nada possui, vaga, como uma sombra, entre as duas
"casas" vizinhas para assistir TV. Ouve o barulho e lá
se vai: para não incomodar, fica de pé, à porta.
Sua figura frente à TV me causou constrangimento e sentimento
de culpa, por possuir quatro aparelhos...
Por outro lado, falar sobre a libreta
é compreender um pouco mais o porquê do suborno institucionalizado,
o porquê da luta diária pela sobrevivência, o
porquê da sensação de que o cubano atingiu seu
limite de saturação. São três moedas
paralelas: o dólar (um = 26 pesos), o peso conversível
(valor igual ao dólar) e o peso cubano. O salário,
invariavelmente, é pago em pesos cubanos, salvo no caso dos
macetas. Com o mísero salário mensal, a cada família
é possível comprar, em pesos, determinada "ração",
que inclui o mínimo do mínimo: arroz, açúcar,
feijão, sabão, sal, café, fósforo, azeite
e algumas coisinhas mais. Tive acesso a uma libreta. Vi e analisei
o não analisável. Para duas mulheres, um dentifrício,
três meses; um pacote de absorventes higiênicos, quatro
meses; um pacote de sal, quatro meses e por aí vai. E o que
soa irônico: enquanto a pasta de dentes figura como artigo
de luxo, o cigarro está sempre disponível. Resultado:
é preciso comprar, em dólar, nas chamadas tiendas,
produtos ditos essenciais para qualquer pessoa civilizada, como
dentifrício, xampu, sabonete, leite, papel higiênico.
E onde buscar o dólar? É preciso usar a criatividade.
E as pessoas falam, com naturalidade, sobre o desvio de certo produto
do hotel para dedetização de residências, a
gasolina vendida no mercado negro, o café e o tabaco falsificado.
Sem falar nas questões mais sérias, como a prostituição
crescente e ostensiva. Verdade que não há assaltos
à mão armada. Predominam os furtos: minha máquina
fotográfica, num piscar de olhos, sumiu de cima da mesa de
um restaurante em pleno meio dia e assim se foi...
Sob esta perspectiva, Cuba não
é um país em dificuldades. É muito mais. Por
detrás do retrato vendido ao turista, há uma nação
sofrida e plena de contradições. Em meio à
beleza estonteante de todo o seu território, com Varadero
(Matanzas), Pinar Del Río/Vale de Viñales, Cárdenas,
Trinidad, Cienfuegos, Cayo Largo do Sul, Santiago de Cuba, e a cidade
de Havana, com sua famosa muralha El Malecón, seus bairros
Centro Habana; Vedado; Miramar e sua Habana Vieja (tombada, como
Trinidad, como Patrimônio da Humanidade), seus hotéis
de luxo, como o Hotel Nacional, há um país roto (quebrado),
para usar uma das palavras que muito cedo aprendi. Tudo está
roto: telefones públicos; o serviço de abastecimento
de água e luz; o sistema de transporte público; as
companhias de aviação (com filas intermináveis
diante da Cubana, e pessoas dormindo nas calçadas de um dia
para outro para conseguir passagens nacionais), e até mesmo
o que se pensa que Cuba tem de melhor: os sistemas de educação
e de saúde.
O ensino
Em relação ao ensino,
é, praticamente, gratuito. Segundo arquivos do Museo de la
Alfabetización, aos quais tive acesso, com a campanha realizada
em 1961, dois anos após A Revolução, restaram
entre 1,5% a 1,9% de analfabetos. O teste final e obrigatório
para os recém-alfabetizados consistiu em carta dirigida "de
coração" ao Comandante em Chefe Fidel Castro!
Tudo bem! Também não há crianças e jovens
fora da escola! Mas o que dizer da qualidade do ensino? E do analfabetismo
funcional? É preciso conversar com os estudantes e ouvir
seus queixumes em relação ao que ocorre. Não
há direito de escolher onde estudar, a não ser que...
O treinamento dos mestres deixa muito a desejar. As diferenças
sociais e culturais entre colegas de uma mesma classe, onde filhos
de famílias ajustadas são obrigados a conviver com
delinqüentes de fato ou em potencial interferem no processo
de aprendizagem.
Acrescento aqui: é ingenuidade
pensar que a mestiçagem - brancos espanhóis, negros
africanos e certa porção de chineses - impede o preconceito.
Hoje, dentre a população de mais de 11 milhões
de habitantes, dos quais cerca de dois milhões vivem em Havana,
66% são brancos; 33%, negros e mestiços e 1% de chineses.
Mesmo assim, os brancos deixam antever seu desagrado ante o convívio
obrigatório com os negros, seja nas escolas, praças
e jardins. Para eles, delinqüência ainda lembra a figura
do negro. Tudo muito sutil. É a pátria do indizível...
Quanto à educação
superior, ao contrário do que se pensa, inexistem vagas para
todos e, à semelhança do vestibular brasileiro, há
seleção. Penso, especificamente, na Universidade de
Havana. Prédio majestoso, escadarias grandiosas. Penso em
Maria, minha professora. Durante 80 horas-aula, num curso direcionado
ao ensino de língua a estrangeiros, nenhum laboratório,
equipamento ou recurso didático, salvo a apresentação
do filme Morango e chocolate e vídeo sobre o grupo Buena
Vista Social Club, num aparelho de TV minúsculo e fitas de
péssima qualidade. A mão no quadro como apagador,
atitude cotidiana. Cumprimento do horário!? Onde está
o material distribuído? Ficou! Não valia a pena trazer:
cópias ilegíveis e conteúdo fragmentado. Nos
banheiros, quase sempre, o método de balde d'água.
O pagamento para tudo, no âmbito de uma instituição
nacional, em dólar, incluindo tours, lanchonete e acesso
à Internet, este restrito ao correio eletrônico - dois
computadores na Biblioteca Central para os alunos da Universidade.
Em relação às bibliotecas, pobreza franciscana,
sobretudo em ciências humanas e sociais. A este respeito,
até os números oficiais reconhecem o declínio
do investimento em edições de livros de qualquer natureza.

A saúde
Quanto ao sistema de saúde, em
se tratando da área de odontologia, uma visita aos bairros
periféricos ou à praia do povão, Concha, onde
estive, diz tudo: o número de desdentados em faixas etárias
distintas fala sem palavras! Teoricamente, há excelente formação
médica. Na prática, resta a indagação:
como estão sendo formados os médicos da geração
atual, se os equipamentos estão rotos e, o que é mais
grave, não há medicamentos?! Há alguns poucos
centros de excelência voltados à cura de vitiligo e
da retinose pigmentar, mas que priorizam o atendimento aos estrangeiros,
incluindo brasileiros, como o Centro Internacional de Retinosis
Pigmentaria Camilo Cienfuegos. E não se trata tão-somente
de uma opinião. Conversei com pessoas da área e li
relatório da norte-americana sobre os hospitais infantis
visitados. Acompanhei a via-crúcis de uma cubana, 35 anos.
Com problemas ginecológicos sérios, escutou da médica
o diagnóstico e a frase: "não lhe dou prescrição,
porque não há remédio disponível".
Outra, o dentista "esqueceu" uma raiz do dente. Requer
cirurgia maxilo-facial, e como é urgente, a intervenção
ficou para setembro (estamos em julho).
Eu mesma vivi a experiência de
ser atendida no serviço oftalmológico de um dos hospitais
considerados excelentes, para a retirada de uma de minhas lentes
de contato, constatando as condições precárias
das instalações. Com a doutora, minha "anfitriã",
vivi a agonia de procurar, às 23:00 horas, por quase 45 minutos,
um médico (dormia "escondido" em sua salinha, a
exemplo de muitos dos nossos plantonistas). Com ela, vivi a agonia
de fingir que estava operada da garganta. Não podia falar.
Para quê? Aprendi, e muito rápido, que o meu tipo físico
me ajudava e muito! Em quê? A fazer de conta que era cubana!
Qual a vantagem? O turista, independente de sua nacionalidade, é,
sempre, explorado! Assim, escapei do pagamento impiedoso que é
imposto aos turistas no serviço médico!
Como "falsa cubana", utilizei
fórmula simples, seguindo as instruções dos
nativos: roupas discretas, sem chapéu e sem falar. Quando
estava com amigos cubanos ou com Neka, jamaicana negra, espanhol
perfeito e traços de cubana, estes providenciavam tudo. Assim,
freqüentei restaurantes, exposições, jardim botânico,
teatro etc., pagando em peso, mas, sobretudo, presenciando a vida
como ela é... A discriminação é tão
grande entre as duas cubas (a turística e a "real")
que atinge até os meios de transporte. É impossível
imaginar o que é usar o camello (ônibus grande como
um camelo), a gualgua (ônibus comum) e o trem suburbano. Além
do risco de furtos e do "rolo compressor" da multidão,
até mesmo policiais e cobradores usam e abusam dos cigarros
e charutos. Também para nós, povo, existem, em pesos,
o bicitaxi (bicicleta-táxi) e os cucarachones, táxis
coletivos em carros clássicos americanos dos anos 30, 40
e 50. Para os turistas, os táxis estatais e os cocotaxis,
adaptações cuidadas de motos. Estes são recorrentes
em postais, o que não se aplica aos camellos e gualguas,
cujas filas (colas) são sempre intermináveis. Aliás,
o povo cubano adora colas. Há, sempre, filas quilométricas
para tudo, como as da célebre sorveteria Coppelia, mas todas
são obedecidas com rigor.
O embargo
Na realidade, todo este quadro não
comporta uma explicação unívoca. Além
do embargo econômico e comercial imposto pelos EUA, há
mais de quatro décadas, as dificuldades da população
se agravaram, desde o início dos anos 90, com o chamado "período
especial". Este corresponde à queda do socialismo nos
países comunistas do Leste Europeu mais a dissolução
da União Soviética, com os quais Cuba mantinha 85%
de seu intercâmbio comercial. Os soviéticos destinavam
em torno de seis bilhões de dólares anuais em Cuba.
Além de subsidiarem o petróleo, contando com a colaboração
desses países, exportavam produtos básicos a preços
acessíveis. Com a queda de 35% do PIB, segundo depoimentos
colhidos, a fome marcou presença, de forma cruel e inesquecível,
junto com o déficit de energia elétrica, o agravamento
dos problemas de transporte e habitação, a suspensão
da distribuição de roupas e calçados, a falta
total de produtos essenciais à higiene pessoal. Um economista
e vigia (às noites) confessa que passou a criar galinhas
dentro de um apartamento minúsculo, para ter algo para comer
com mulher e filhos. Uma universitária, à época,
15 anos, mostra, emocionada, seu álbum de fotos da data,
possível, graças à venda das jóias restantes
de família.
Diante de tal situação, desde 1993, a Ley de Trabajo
por Cuenta Propia permite e incentiva "negócios particulares",
dos quais, o Governo leva uma taxa considerável, "para
evitar enriquecimento ilícito", segundo discurso oficial.
É o caso mencionado dos alquiladores, taxistas, "donos"
de restaurantes e de paladares (restaurantes localizados em residências),
eletricistas, sapateiros, mecânicos e até mesmo dos
miseráveis que pedalam os bicitáxis.
Ademais, Fidel abriu o país ao
turismo e a economia ao capital estrangeiro. Um número crescente
de nações mantém, aqui, empresas mistas: Canadá,
Espanha, Brasil, França, México, Argentina e outras.
Se antes, os produtos fortes de exportação eram, sobretudo,
açúcar ("sem açúcar não
há país", frase tradicional) e níquel,
além de cítricos, pescados e mariscos, rum, café
e tabaco, Cuba tem, hoje, no turismo, a peça-chave de sua
recuperação econômica.
Só que, na minha visão
de leiga e distante dos preceitos que regem a economia, acredito
que até mesmo o turismo tende a decair, devido à exploração
que é imposta ao turista. Nada custa menos do que um dólar.
Até mesmo um sorriso vale dinheiro. Andando, vi uma garotinha
negra lindinha, entre sete a oito anos. Olhei e sorri: de imediato,
a mãe me acompanhou e o pedido veio em seguida. E não
se trata de um fato isolado...O turismo também fez surgir
a figura do jinetero, que não se aplica somente à
prostituta ou ao michê, mas a todos os que vivem não
do turismo, mas da exploração do turista. Mas, veja,
ele não é maltratado. Ao contrário. Goza de
uma série de regalias para acesso mais fácil ao dólar.
Só para exemplificar: no jardim botânico, uma fila
imensa de cubanos (eu, inclusive) para o restaurante. Os turistas
recém-chegados passaram à frente, sem qualquer questionamento.
Por outro lado, a recessão econômica
mundial e as conseqüências do atentado do dia 11 de setembro
aos EUA atingiram Cuba, em cheio: "tudo o que acontece nos
EUA respinga na gente", diz um jovem. E, de fato, os dois elementos
juntos fizeram decair, consideravelmente, o turismo, calculando-se
que, de janeiro a abril de 2002, a queda foi de 15%. Como esperado,
o envio de dólar às famílias pelos cubanos
que residem nos EUA também decresceu. E mais, o país
vive nova crise de petróleo. Como se tudo isto não
bastasse, o açúcar caiu de preço e de produção,
face aos estragos causados às plantações pelo
furacão Michelle, em novembro de 2001. Aliado a tudo isso,
há fatores internos incontestáveis, como a dificuldade
do país conseguir créditos internacionais, a escassez
de divisas em espécie e a ineficiência das empresas
estatais, cujos empregados, com raras exceções, trabalham
como robôs, sem estímulo e incentivo.
Em se tratando da relação
Cuba x EUA, não posso deixar de registrar a Gran Gala em
homenaje ao pueblo norteamericano. Como o nome sugere, uma grande
festa organizada pelo Comandante em Chefe em comemoração
ao aniversário da independência dos EUA, em 4 de julho
de 2002. Muita pompa. Teatro Karl Marx repleto. Estudantes de diferentes
níveis, diplomatas, autoridades e Fidel em pessoa. Até
aí, nada que os ditames diplomáticos não justifiquem.
A contradição: o teor agressivo e veemente contra
o poderio norte-americano em todas as falas, que não foram
poucas...

Solidariedade
No entanto diante de contradições
e paradoxos, a população espera. E reza. Em meio ao
sincretismo religioso do país (a exemplo do Brasil), não
importa se para os deuses da religião afro-cubana ou se para
a Virgen de la Caridad Del Cobre, Patrona de Cuba, segundo os ritos
da Igreja Católica, agora, aberta, sem restrições,
à população. Espera, reza e critica. Sim, as
críticas estão no cinema (o filme Nada é um
bom exemplo), nas ruas e até no teatro: um grupo de jovens
comediantes ridicularizam o peso cubano, os vendedores ambulantes,
a saga dos balseros. O povo usa a imaginação e faz
piadas. Face à escassez dos produtos básicos, homens
e mulheres se acostumaram a carregar um saco plástico (destes
de supermercado), a que chamam, em tom jocoso, também de
jaba, para comprar o que aparecer nas ruas, e dizem, às gargalhadas:
"nós, cubanos, somos cabeça, tronco, membros
e jaba (...) e corramos, que !llegarón las cebollas!"
Mesmo assim, a solidariedade continua. Mas, diante das geladeiras,
quase sempre vazias, aceitar qualquer coisa, até água,
em casas vizinhas, não é algo que se deva fazer. Por
isto, relutei diante de quatro convites para compartilhar refeições
e só retrocedi, por conta do tom sincero e da insistência,
tendo a preocupação de cooperar, com discrição.
Depois de tudo isto, se alguém
me perguntar: "E aí, valeu a pena?" Sem vacilar,
digo "sim". Não recorro a muitas justificativas.
Lanço mão de uma única: Cuba é um país
destroçado, no entanto, paradoxalmente, é um país
vivo. Seu futuro, absolutamente incerto e imprevisível. Mas,
seu povo pulsa e vive emoções profundas. Viver em
Cuba é viver sentimentos os mais variados: êxtase diante
da natureza; paixão pelas coisas da terra; tristeza ante
a falta de expectativas dos jovens e/ou sentimento de inutilidade
dos mais velhos; prazer de saborear a delícia da comida crioula;
bem-estar ante a preservação da natureza; paz diante
do trânsito relativamente tranqüilo; alívio pela
inexistência quase total do celular. Ninguém passa
imune por Cuba. E assim, dentro de mim, está a lembrança
do cubano como "o cidadão do sorriso", da música,
da dança, do tabaco, do sol e do rum!
* Doutora em Ciência
da Informação, Universidade Federal do Piauí.
Leia também
o discurso de Fidel Castro no aniversário da Revolução.
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