
ANO CORTÁZAR
Léa Maria Aarão Reis
Se estivesse vivo Júlio Cortázar
estaria completando 90 anos este ano, o Ano Internacional Cortázar.
Nas vitrinas das livrarias de Buenos Aires a data é comemorada
com estilo, com volumes de análises críticas recém
lançados e dispostos com esmero, e reedições caprichadas
de suas obras.
Em Palermo Soho, o bairro da moda que é uma viagem no tempo,
ao início dos anos 60 - quando o Village de Nova Iorque começava
a fazer história - a Calle Cortázar, desembocando na Plaza
Jorge Luiz Borges, também faz lembrar ao visitante a festa de
aniversário de um dos escritores maiores da Argentina.
Nas duas famosas livrarias El Ateneo - a de Florida e a de Santa Fé
-, parada obrigatória do turista-leitor em visita à cidade,
uma exposição de simplicidade franciscana, pequena porém
montada com extremo cuidado, atrai a nossa atenção. Organizada
pela Fundación Internacional Cortázar, já viajou
por diversos países latino-americanos e mostra painéis
fotográficos legendados com trechos de variados textos do autor
- entrevistas, observações, frases e fragmentos relacionados
aos interesses do homenageado: os seus labirintos, o jazz, o boxe, as
políticas do continente sul americano da época, anos 60/70,
a Paris do seu longo exílio, o fantástico no cotidiano
e, naturalmente, a literatura. Paralelamente, um vídeo de uma
hora e pouco de duração é exibido para quem quer
ir mais fundo, com lindas imagens inéditas do escritor na Paris
das décadas douradas, quando a cidade recebeu o escritor. Basta
sentar em uma das mesas do café da Ateneo para assisti-lo com
calma.
Cortázar, nos lembra a mostra, quando jovem, dizia que buscava
a "experiência direta das coisas aliada à aventura".
E já nos anos 60 acreditava que a imaginação do
homem da América Latina não deveria deixá-lo "acabar
como os robôs nos quais querem nos transformar". (Se ele
estivesse vivo hoje para ver...)
Aquele homem diferente do sistema, dizia ele, às vezes era "internado
nas clínicas psiquiátrias e chamado de louco".
Sobre o célebre título de Rayuela, em uma das entrevistas
apresentadas, ele revela que, em princípio, o livro se chamaria
Mandala. Mas, "depois senti que não podia exigir do leitor
que conhecesse a metafísica do pensamento tibetano ou budista".
(Novamente pensamos que se tivesse vivido mais, Cortázar estaria
assistindo à vulgar banalização do símbolo
oriental, que hoje se transformou até em nome de condomínio
da Barra da Tijuca.)
Nas conversas, nos entretiens que ele manteve com jornalistas e amigos,
em Paris, falando do Bestiário, do El Libro de Manuel e de outros
livros seus, que foram bíblias para os descarrilhados e para
os hippies da América do Sul, quarenta anos atrás, Cortázar
é comovente, ao dizer:
"Dentro da gente há um outro que perseguimos durante toda
a vida. Penso que é importante a busca permanente de tudo que
está do outro lado do visível e do que chamamos de realidade".
Quando saíamos na rua fria e clara de outono em Buenos Aires,
depois da manhã passada com Cortázar, assistindo ao vídeo
com seus capítulos - El Compromiso (com a política), El
Passage (para o fantástico) e La Raiz del Ombre (fantasias, imaginação)
- temos na cabeça outra idéia que é dele: "Certas
coisas, certas impressões, permanecem impressas em nós
como tatuagens".
Como a cidade de Buenos Aires. Tatuagem na nossa pele.
Dois anos depois a encontramos recuperando-se, com valentia, da sua
decadência elegante. Os estoques das lojas estão mais variados
E mais atualizados, e os indefectíveis cachemeres têm um
corte mais moderno e uma qualidade melhor. Ainda há mendigos
vestidos de classe média pedindo discretamente dinheiro nas ruas
e dentro dos restaurantes, porém em menor número.
Face aos alertas para tomar cuidado com batedores de carteira e para
não embarcar em táxis que não são filiados
às cooperativas de rádio-táxi, o carioca que vem
da guerra civil do Rio de Janeiro, sorri, complacente. Evoca os velhos
bons tempos, diante da visão dos bancos dos parques, praças
e jardins dos bairros portenhos, limpos e inteiros, onde velhos, moços
e crianças se refestelam, despreocupados, como antigamente ocorria
no Rio.
Os lindos cafés forrados de lambrís e os restaurantes
da Avenida Libertador, onde está o imperdível Tortoni,
e os cafés das ruas nos fundos da Recoleta (uma pequena Paris),
que não costumam ser freqüentados pelos turistas, estão
muito mais animados que há dois anos. Sempre repletos, neles,
o clichê é sempre o da pedida de um café cortado
(com pouco ou com muito leite) e uma media luna (um croissant). E ficar,
se desejar, durante horas, lendo o jornal ou o livro, vendo o povo passar,
como nos cafés franceses, sem ser incomodado pelos garçons.
O tango tradicional de Troilo, o tango-Piazolla e o jazz continuam sendo
a trilha musical apaixonada e, às vezes melancólica, da
cidade que regorgita de turistas brasileiros, especialmente em feriadões,
a grande maioria falando com o forte sotaque do Sulll .
Eles se atiram aos restaurantes de carnes e nas compras de vinhos, lãs,
alfajores (o de nozes é a grande novidade) porque tudo, em Buenos
Aires, é muito mais barato que no Brasil. Por causa do câmbio
e porque lá a vida é mais barata mesmo, principalmente
artigos de perfumaria e cosméticos - sabonetes, cremes, desodorantes,
águas de colônia, perfumes e shampus à disposição,
assim como os vinhos de boas ou medíocres bodegas, nas gôndolas
dos supermercados da cidade.
Buenos Aires é uma Europa bon marché, distante a apenas
duas horas e quarenta de avião do Rio de Janeiro, e três
vezes mais barata que Paris, Roma ou Londres.
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