
CHILE TRINTA ANOS DEPOIS
Lea Maria Aarão Reis*
Trinta anos atrás, na noite de 11
de setembro, as pessoas não paravam de chegar, abrindo,
nervosas, as portas de madeira, tipo faroeste, do Degrau original,
o célebre bar do Leblon, onde, naquela época, se
reuniam os boêmios do Rio, artistas, intelectuais de todas
as espécies, jornalistas alternativos, contestadores, alguns
dedos duros e um punhado de espias dos serviços secretos
da ditadura, xeretando tudo e a todos.
Naquela noite de 11 de setembro de 73, as notícias continuavam
a chegar do Chile, devidamente censuradas, através do rádio
ao lado do caixa do seu Carlinhos, e confirmavam o que todos insistiam
em não aceitar: o sórdido golpe contra o governo
de Allende, o bombardeio de La Moneda, o suicídio do presidente
e as dezenas de primeiras baixas que abririam a longa e tenebrosa
sucessão de crimes cometidos, durante as quase duas décadas
seguintes, pelo bando de Pinochet _ ele e seus asseclas fardados.
Todos choravam, alguns grupos cantavam "guerreiros de Caparaó"
e o sentimento, de luto, era o de que se fechavam, naquele dia,
com a tragédia chilena, as últimas saídas
que ainda poderiam conduzir o continente a um futuro de independência,
liberdade e soberania. Kissinger, os fascistas e Cia. haviam,
enfim, vencido.
No Degrau, romanticamente, jurávamos nunca mais pisar em
solo chileno.
Trinta anos depois, há um mês,
numa manhã gelada de 5 de setembro, estamos defronte de
Moneda. Nós e mais alguns grupos de turistas fotografamos
a estátua, recém inaugurada, de Salvador Allende,
à esquerda do palácio, na Praça da República.
Com os olhos cheios de lágrimas,
atravessamos o muito bem cuidado jardim do pátio interno
espanhol da elegante construção, sempre aberto aos
visitantes, e saímos na rua lateral - calle Morandé,
onde um pequeno aindame oculta a obra discreta que vem se fazendo
há meses para reabrir a célebre e histórica
porta de Morandé número 80, por onde entravam e
saíam todos os presidentes do Chile democrático,
e através da qual os traidores passaram com o cadáver
de Allende. A porta, emparedada há trinta anos por Pinochet,
era um dos símbolos mais fortes, nos preparativos da cidade
de Santiago, que, liberada, enfim, ia render homenagem ao seu
presidente morto.
Pergunto a um dos vários policiais que vigiam o agora plácido
local, onde namorados gostam de passear, se ele sabia qual era
a janela em que o presidente havia aparecido pela última
vez. Em voz bem baixa e visìvelmente constrangido, ele
informa: a quarta, no segundo andar, à esquerda de Morandé
80. Penso que o homem pode estar querendo se livrar da incômoda
turista e inventa qualquer coisa. De qualquer modo, olho na direção
indicada. Depois, muito comovida, vou andando em direção
ao metrô mais próximo, pela larga avenida Bernardo
O'Higgins, para pegar o carro na locadora e iniciar uma das mais
bonitas viagens que já fiz. Desta vez ao sul do Chile.
Antes de mergulhar no excelente metrô, passando por uma
pequena feira de domingo, dos bouquiniers, compro, de um velho
sorridente, por um dólar, o cartaz de uma foto de Allende
com o texto de sua última fala, o emocionante Discurso
de Despedida. O velho, muito satisfeito, me diz que o cartaz vende
mais do que os de Guevara, outra atração da sua
barraca.
Depois, ele se queixa dos altos preços cobrados nos shows
de Maria Bethânia e de Gilberto Gil , na cidade - cerca
de 100 dólares, um preço que, evidentemente, ele,
que adora música brasileira, não pode pagar.
Na face turística desse país,
com uma população cuja opinião pública
ainda está profundamente dividida entre os mais à
esquerda e os (ainda) pró-Pinochet, descobrimos a excelência
da auto-estrada Panamericana, privatizada por diversas empresas,
com quatro pistas, e através da qual chegaríamos,
uma semana mais tarde, a Puerto Montt, cidade que fica a 70 quilômetros
do seu final, na Ilha de Chiloé, porta da Patagônia
Sul, dos glaciares e da Antártida.
Antes, em Santiago, havíamos experimentado um gosto de
Polo Sul, assistindo, em um telejornal, a metereologia informar
o tempo nas principais cidades chilenas e os quatro graus negativos
de temperatura máxima na Antártida.
Uma das primeiras gratas surpresas da viagem, a 130 quilômetros
da capital, além da qualidade da estrada, é a extensão
dos vinhedos no Vale do Maipo, onde estão os vinhedos mais
tradicionais do Chile - San Pedro, Macul, Santa Rita, Cánepa,
Undurraga, Concha y Toro, Santa Inês, Casa Rivas e Maule
Segu, fora dezenas de outras ainda desconhecidas no Brasil. É
a ruta del vino.
Para o visitante interessado no assunto, é bom saber que
existem inúmeras agências de turismo oferecendo excursões
de degustação, tão organizadas quanto aquelas
francesas, para as diversas regiões do país onde
se plantam uvas sauvignon, chardonnay, merlot e carménère.
O viajante encontra também, nas margens da Panamericana,
diversas salas de venda de vinhos. Nos supermercados, pode comprar
as principais marcas de vinhos nacionais, a preços baixos
_ a partir de 2 a 3 dólares os mais populares, e nem por
isso ruins _ , vários deles embalados em caixas e ainda
mais baratos _ menos de um dólar!
Estamos indo, agora, na direção da cidade de Temuco.
Não é preciso parar, mas vale saber que lá
é o santuário dos índios mapuches, cidade
em que Pablo Neruda nasceu e onde se encontra o centro de controle
de atividade dos inúmeros vulcões chilenos _ Vilarrica,
Lonquimay, Toluaca, Osorno.
Atravessamos bonitos bosques de pinheiros, com floradas de retamo,
a flor amarela, típica da Patagônia, e assistimos
ao espetáculo do vento patagônico _ o peulche _,
fortíssimo, varrendo os campos durante o inverno. Ao longe,
sempre margeando a estrada, paisagens extraordinárias,
os picos majestosos e eternamente nevados, dos Andes.
Ficamos só uma noite em Chillán, com spa, grande
hotel sofisticado, termas e estação de esqui, aos
pés do vulcão Chillán. É lugar de
turismo internacional, os americanos adoram, os brasileiros também.
Vale uma parada de alguns dias

O vulcão Villarica
Mas preferimos parar com mais vagar em Villarica e Pucón,
dois lugarejos deliciosos, à beira do lago, ao pé
do vulcão Vilarrica. Quem quer turismo/aventura adora.
Dezenas de agências oferecem trekking, rafting, escaladas,
navegação e longas caminhas até a borda da
cratera que está sempre, noite e dia, expelindo faíscas.
Os trajos apropriados são alugados nas próprias
agências.
Para quem quer vida mais mansa, os hotéis estrelados são
ótimos e os restaurantes também. E os preços,
muito bons. Aqui é o reino salmão (média
de R$ 20 em um bom restaurante) e dos peixes finos, de carne branca
_ a vedete é o congro. Ou do pastel de choclo (milho),
que não é um pastel, mas sim uma frigideira feita
com frango, especiarias e creme de milho.
Não se deve perder a subida, de carro, até 1 500
metros de altitude do Vilarrica, meio do caminho para o topo,
onde há um abrigo para visitantes, com café, chocolate
quente e lareira acesa (temperatura: cerca de 3 graus, durante
o inverno; e neve o ano inteiro).
Lá de cima, a paisagem do lago e dos Andes é estupenda.
E tem as excursões até as cavernas vulcânicas
formadas pelas lavas solidificadas para quem quer aventura mas
nem tanto.
Depois, mais adiante, vamos até a costa do Pacífico,
conhecer as praias imensas e desertas, de areias amarelas, onde
se assiste a belos espetáculos, inéditos para nós,
os do lado do Atlântico _ lá, o sol se põe
sempre na linha do horizonte do mar.
Parada para almoço no porto de Valdívia, em um dos
inúmeros restaurantes do mercado, à beira do rio.
Leões marinhos se espreguiçam ao sol.
Lá, experimentamos, pela primeira vez, os famosos frutos
do mar chilenos, os mariscos do Pacífico. Antes, prepara-se
o paladar comendo uma pastinha feita de alho, azeite e coentro.
Depois, vêm os locos, pirocopos, navaruelas, machas, huepos,
puyes, choros e o fortíssimo e afrodisíaco piures.
Além do ouriço do mar, o oursin amado pelos franceses,
que é o mais refinado e mais dispendioso _ come-se com
torradas e apenas um fio de azeite.
Próximo de Valdívia está Los Molinos, na
beira do oceano. O melhor restaurante local, na praia, é
o La Bahia. Voltamos a nos fartar com salmão (R$5,00 o
quilo, no mercado), acompanhado de ótimo vinho branco,
de mais mariscos e congro rosa (R$ 4,00).
Los Molinos, um lugarejo bem simpático, tem uma inédita
arquitetura alemã de fim de século 19 começo
de 20. Uma mistura de Petrópolis com arquitetura da Europa
Central. Estranho, não?
Naquela época, o governo chileno programou a ocupação
da região com dezenas de levas de imigrantes contratados
na Alemanha. Os descendentes desses alemães, hoje, são
donos da célebre cerveja Kunstmann (a cervejaria com o
mesmo nome, na beira da estrada que leva de Valdívia a
Los Molinos, é parada obrigatória) e dos famosos
chocolates de Valdívia, de nível internacional.
Bem mais ao sul, chegamos ao sofisticado Puerto Varas, na beira
do lago Linhaqueue. Fica sob outro vulcão nevado, o Osorno,
um gigante (3 500 metros de altitude) situado próximo da
fronteira com a Argentina _ do outro lado dos Andes, e depois
de atravessar mais dois lagos, está Bariloche.
Lá, também há excursões, turismo-aventura,
e um grande cassino que abre ao meio-dia. É local para
férias de norte-americanos. A influência é
imensa. As casas de veraneio, na borda do lago, têm a arquitetura
tradicional das casas dos subúrbios ricos das cidades dos
Estados Unidos: gramado, garagem lateral, cesta de basquete no
jardim.
As lojas são requintadas, têm artesanato fino _ há
muita peça de bom gosto feita numa madeira loura, da árvore
do alerce, típica da Patagônia _ e arte popular,
suéteres, belos xales e mantas de lã de alpaca,
alguns tecidos à mão. Expõem os produtos
ao modo americano e a gente jura que está nos Hamptons!
Há pastos de ovelhas nas imediações, e aqui
o reino é do salmão defumado (vem em potes de vidros)
e dos campos de lavanda (a flor lilás, seca e perfumada,
é vendida em pacotinhos).
Sugerimos um jantar no restaurante La Olla, na beira do lago.
A adega é especial, o caldinho de mariscos _ ou de mexilhões
_ é delicioso e o salmão, perfeito.
Depois, uma, ou várias idas até Puerto Montt, paralelo
40, último ponto de território chileno no continente.
A partir dali o país se desmancha em centenas de ilhas
_ Chiloé é a maior, e onde termina a Panamericana
_ e ilhotas, formando a hoje chamada Patagônia do Sul. No
passado, se considerava que ali era o começo da Patagônia
propriamente dita.
Mercado de Angelmó
A região é fascinante. Há
o grande porto de onde saem as excursões para os glaciares
e, nele, o imenso mercado popular de Angelmó _ imperdível.
É onde os índios mapuches vendem suas mercadorias,
produtos feitos em Chiloé: cestaria, peças em madeira,
lãs, peles, couros. Há, também, dezenas de
pequenos restaurantes típicos de porto, onde se come muito
bem, e é de onde parte a carretera austral, estrada ruim,
de terra batida. Fala-se em asfaltá-la em breve, rumo ao
sul do mundo e tendo em vista a ampliação dos caminhos
do turismo. Por enquanto, porém, é um trajeto que
só jipes pesados fazem.
De volta a Santiago, dez dias depois, para
pegar o vôo da Lanchile de volta ao Rio com escala em São
Paulo _ a empresa, aliás, tem ponte aérea Santiago-Puerto
Montt _, damos uma última volta, num fim de manhã
de claro domingo, pelas ruas da capital.
Observamos com mais atenção que as regras de trânsito
são iguais às dos Estados Unidos.
Um jipe que atravessa a nossa frente se chama Montero _ exatamente
como nos EUA. (No Brasil, o nome foi mudado para Pajero).
E notamos que várias cadeias de lojas americanas, tipo
Burger King, K-fried potatoes e Hushie Shoes se instalaram na
cidade.
A influência volta a aparecer, forte.
Enquanto visitamos a curiosa La Chascona, no bairro da Providência,
espécie de Ipanema de Santiago _ outro programa imperdível
_, uma das oito casas de Pablo Neruda, não podemos deixar
de lembrar a profunda tristeza em que o poeta morreu, dias depois
do golpe de Pinochet. Neruda não pôde ver o Chile
de hoje, trinta anos depois, mais livre, mas com uma distribuição
de renda bem pior.
Mas ele ficaria contente de ver seu bonito país novamente
uma democracia, onde, de um jeito ou de outro, estão se
abrindo aquelas "grandes alamedas por donde passe el hombre
libre para construir uma sociedad mejor", como dizia Allende,
confiante, no seu último discurso de 11 de setembro de
73.
*Jornalista
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