
Informe de Buenos Aires
Celso Japiassu
A Argentina está em crise igual a nós.
Tem greves de serviços públicos e mendigos nas ruas, crianças
nos sinais de transito fazendo malabarismo com três ou quatro
bolas, um montado nas costas do outro, engraxates e vendedores de bilhetes
de loteria.
As semelhanças terminam por aí.
A violência assusta os argentinos, mas ainda se pode andar pelas
ruas de Buenos Aires com a tranqüilidade que o Rio já teve
um dia. Em minha opinião modesta, esta é a melhor cidade
da América do Sul e de vez em quando me pergunto se a rixa dos
brasileiros com os argentinos não se deve ao fato de eles habitarem
um país tão belo e terem Buenos Aires como capital. A
cultura de Buenos Aires nos humilha. Um exemplo: tem mais livrarias
e mais cinemas do que o Brasil inteiro.
Acabo de chegar de lá, com a memória
do vinho e da bela carne argentina no olfato e no paladar. E aqui ofereço
algumas dicas:
Dinheiro:
o peso está mais valorizado que o real, a 2,94 por dólar
e tem muito mais poder de compra. De modo que tudo lá está
mais barato para os brasileiros, até mesmo aquelas compras idiotas
que só turista faz: faqueiro, roupa, cosmético e souvenires.
Táxis:
são mais baratos do que no Rio. A bandeirada é 1,44 pesos
e uma corrida de distância equivalente a Copacabana-Centro não
chega a 10 pesos. Amigos argentinos me recomendaram só pegar,
na rua, os rádio-taxis, dirigidos por profissionais mais organizados
e mais honestos. No táxi comum, sem o letreiro "rádio-taxi"
na porta, você corre o risco de cair na bem urdida lábia
do vigarista argentino e perder alguns pesos naquela conversa de preço
especial por corrida ou, o que é pior, receber o troco em dinheiro
que já saiu de circulação.
Tango: existem
as tradicionais casas, como Tango Mio e El Viejo Almacén mas
recomendo o novo La Ventana (http://www.la-ventana.com.ar)
, em Santelmo - Balcarce, 431. É um belo espetáculo de
bailarinos (principalmente bailarinas), excepcionais e de música
que vai de milongas e tangos tradicionais até Astor Piazzola.
Restaurantes:
Os meus preferidos são o Asador 9 de Julio (http://www.9dejulio.com.ar)
e a Cabaña Las Lilas (http://www.buenosaires.com.ar/cabana_las_lilas_1.html)
. O asador fica na Carlos Pelegrini, 587, em frente ao Teatro Colón,
esquina de Tucuman. Carlos Pelegrini é como se chama a pista
da direita da Avenida 9 de Julio. Já a cabaña, cujo dono
é o Belarmino, o mesmo do Rubayat de São Paulo, está
localizada no Puerto Madero, um projeto imobiliário que recuperou
o velho porto de Buenos Aires e nos faz ficar pensando por que não
fazemos o mesmo com o velho porto do Rio de Janeiro. São dois
estilos diferentes. O asador tradicional e o outro mais moderno e contemporâneo,
na atmosfera do próprio Puerto Madero. Recomendo a ´parrillada´
do primeiro e o ´asado de tira´ do segundo. Experimente
chinchulin (tripas de vitela ou de carneiro), o doce de leite e as empanadas.
Os turistas brasileiros são assíduos
em duas casas tradicionais: La Chacra (http://www.lachacra.com.ar/espanol/nosotros.htm)
e La Estancia (http://www.atangolimpio.com.ar/b-lugares-laestancia.htm)
Beber: Existem
dois bares aos quais sempre volto, desde a primeira vez que os conheci,
há muitos anos. O bar do Hotel Claridge (Tucuman, 535) demonstra
a sofisticação argentina - belo e sóbrio no estilo
inglês, serviço perfeito, grandes marcas, coquetéis
bem feitos. Peça um ´pisco sauer´. O outro bar que
recomendo é um monumento da cidade de Buenos Aires, o Café
Tortoni (http://www.cafetortoni.com.ar/index2.html).
Desde fins do século XIX o velho Tortoni é uma síntese
de Buenos Aires com os seus intelectuais boêmios, grandes jogadores
de bilhar, mulheres lindas, mulheres feias, mulheres sofisticadas, mulheres
bregas, shows de tango (tudo em Buenos Aires tem ritmo de tango), jazz
e boa comida. Detalhe: o único garçon negro é um
brasileiro simpático. Procure sentar-se numa mesa da sua praça,
logo na entrada.
Vinho:
Os vinhos de Mendoza já são de qualidade reconhecida e
gozam de prestígio internacional. Com a crise argentina, algumas
marcas que sempre foram consumidas por lá mesmo passaram a ser
exportadas e foi assim que ganharam fama e mostraram qualidade idêntica
e às vezes superior à dos vinhos chilenos. Pessoalmente,
prefiro as marcas da Bodega Lopez (www.bodegaslopez.com.ar):
Rincón Famoso, Chateau Vieux e Monchenot. Nos anos 70, um velho
garçon e sommelier me disse que esta era a bodega mais séria
do país. Acreditei. Acredito até hoje.
Compras:
os turistas brasileiros adoram a Calle Florida e nesta rua encontram-se
também as Galerias Pacifico (http://www.fotoargentina.com.ar/cbsas/cbsas1.htm),
que merecem a visita pela beleza do lugar e a qualidade das lojas, que
andam meio vazias mas não deixam de fazer figura. Bem argentino.
Outra catedral de consumo é o Patio Bulrich (Libertador 750,
Recoleta), de comercio altamente sofisticado e moda feminina no seu
último grito.
Como já disse, Buenos Aires tem uma
livraria em cada rua. Vale a pena visitar pelo menos uma e a que indico
é a El Ateneo (Florida, 336 -http://www.tematika.com/institucional/elAteneo.jsp?direccion=2#capital),
num histórico e bonito prédio. Lá você encontra
o que há de novo na criativa literatura argentina e livros de
todo o mundo.
Passeios: caminhar
pelas ruas e amplas avenidas de Buenos Aires é um grande prazer
à disposição do turista: Santa Fé, Corrientes,
Callao, dezenas de programas de fazer a pé nos amplos espaços
de uma cidade de tradição espanhola que consegue ser mais
bela que Madrid. Vá à Costanera, a 20 minutos do centro
e aproveite para comer num dos restaurantes locais especializados nos
pescados do rio da Prata, do mar e dos lagos argentinos.
Aos domingos tem a feira de antiguidades
de Santelmo, que não fica apenas nas antiguidades: tem shows
de rua, talentosos músicos portenhos, chorosos bandoneones.
Internet:
o país é on-line. Se você quiser falar ao telefone
internacional ou acessar a internet, vá a um dos locutórios
espalhados pelas ruas da cidade. O preço é 0,20 para cada
minuto ligado na rede. Vários são os lugares que já
oferecem cobertura Wi-Fi, a começar pelo aeroporto de Ezeiza
Jornais:
a imprensa de Buenos Aires é bem feita, bem escrita e opinativa.
O noticiário político é amplo e a cobertura de
assuntos culturais bem melhor do que a dos jornais brasileiros. La Nacion
e El Clarin são os grandes jornais. Este último, em formato
tablóide, traz no seu caderno social todos os programas da cidade.
(voltar ao topo)