A Fênix De Atlanta
Lea Maria Aarão Reis

Pouca gente sabe que a simpática cidade
de Atlanta, capital do Estado da Geórgia, no Sul dos Estados
Unidos (4 milhões de habitantes), já se chamou Terminus.
Não passava, então, de um importante entroncamento
de trens do faroeste, de propriedade da Western and Atlantic Railroad.
Depois, foi batizada de Marthaville - foi, talvez, a cidade de alguma
Mrs. Martha. Até que ganhou seu nome definitivo - pelo menos
até agora.
A fênix é o símbolo da cidade. Seu lema é
Resurgens. Sinais de que o pessoal de lá é teimoso
e persistente. Com a história de Atlanta na mão -
e lembrando de E O Vento Levou e de Jezebel - compreende-se o porquê
da fênix.Durante a Guerra Civil americana, como era um entroncamento
de trens e, por isso, um ponto estratégico fundamental tanto
para as tropas da União como para os Confederados, Atlanta
foi arrasada. Enquanto o mitológico general William T. Sherman
avançava sobre ela, seus habitantes fugiram em massa, depois
de incendiar praticamente a cidade inteira. O pouco que restou de
pé, o general se encarregou de acabar de queimar, antes de
iniciar sua devastadora marcha através da Geórgia,
em direção ao mar, como registram os alfarrábios.
Resumindo, Atlanta foi a única cidade dos Estados Unidos
completamente destruída durante a guerra entre o norte e
o sul. No final do século dezenove, escolhida como sede central
do governo de reconstrução depois da guerra, ela,
até hoje, mantém o status de importante sede, no sul
do país, de agências federais e comandos militares.
Seus moradores voltaram com força redobrada, limparam as
cinzas, reconstruíram tudo e a fênix ressurgiu. Mas
a vingança foi funda. De lá para cá, os sulistas
da Geórgia (lembrem-se outra vez de Scarlett OHara!)
procuraram trabalhar mais ainda do que os americanos do norte e
produziram uma riqueza prodigiosa que concentraram em Atlanta.
Os atlantenses (ou atlânticos?) seguraram a sede da Coca-Cola
Corporate e da Coca Cola Enterprises para si, produziram Martin
Luther King, Ted Turner , Jimmy Carter e a escritora Margaret Mitchell
e ficaram com a poderosa CNN, com a sede da Home Depot, da UPS,
do Turner Broadcasting Systems, do Holliday Inn Worldwide, do Ritz
Carlton Hotel Co., da Bell South Corporate e por aí vai.
Transformaram o importante entroncamento de
trens no gigantesco hub da Delta Airlines - o aeroporto de lá,
Hartsfield, é o mais movimentado do mundo; é tão
grande que para circular por dentro dele, chegando ou partindo,
só de trem especial, subterrâneo.
Mas a turma de Atlanta também produziu
o reverso da medalha: a pobreza e as taxas de desemprego entre a
população afro são altíssimas e há
tantos pedintes negros nas ruas do downtown de Atlanta quanto de
mendigos nas da Zona Sul do Rio. (Mais um pour mémoire: lembram-se
do violento levante dos negros de Atlanta, na década dos
80, chamados de conflitos raciais? Pois é. Nunca mais se
ouviu falar desses riots, que aliás é um assunto que
não se deve botar sobre a mesa de jantar, lá, porque
ninguém gosta de lembrar. Mas os criadores dessa impressionante
riqueza são simples, hospitaleiros, amáveis, falam
arrastado, cantando, parecido com o sotaque nortista daqui - não
são estressados. Já as celebradas beldades regionais
(as belles sulistas) ou não existem mais ou não andam
nas ruas. Talvez tenham acabado. Atlanta, como todo o país,
por sinal, é um celeiro impressionante de obesos, de sexos
e idades variados. E o que se pode fazer em Atlanta, além
de recordar, olhando o conjunto imenso de grandes e luxuosos hotéis,
que os Jogos Olímpicos de 96 se realizaram lá?
Fazendo turismo de negócios, uma espécie
de turismo que aumenta mais que qualquer outro (por causa da globalização
econômica), anote:

Ver ao vivo as bonitas mansões sulistas,
arquitetura vitoriana chamada de antebellum: casas com colunatas
na frente, como as de E O Vento Levou, preservadas, algumas se transformando
em atraentes bed and breakfast, outras instaladas nos bosques de
um bairro onde moram os ricos-e-famosos, Buckhead - chamado de o
Beverly Hills do Sul.
Visitar o Museu da Coca Cola e tomar um gole de refrigerante na
fonte que jorra sem parar.
Marcar hora pelo telefone 404 827 2300 para fazer um instrutivo
tour pelas instalações milionárias da CNN e
topar, nos corredores, com as apresentadoras impressionantes que
parecem bonecas plásticas de inflar.
Percorrer a poderosa Americasmart, feira de decoração
e equipamentos para a casa, instalada em três edifícios
enormes, de 22 andares cada um, que faz girar nada menos que 20
bilhões de dólares de negócios por ano, todo
mês de junho.
Conhecer a casa vitoriana restaurada onde viveu Margaret Mitchell
e o quarto em que ela escreveu Times Goes with the Wind. Lá
tem um novo museu do filme, onde estão as calças de
Rett Buttler e os vestidos usados por Vivien Leigh e tudo que diga
respeito a Tara.
Comer uma sofisticada cozinha cajun, fundida com a internacional,
num dos muitos restaurantes simpaticíssimos da midtown, a
Ipanema de lá. Cozinha spicy, com bastante pimenta, pimentão,
coco (os bolinhos de chocolate com cobertura de cocada preta são
ótimos), galinhas condimentadas de arder na boca, batata
doce, milho em tudo e com tudo, (divinas broas), avelãs,
raiz forte, cebolas também fortes - e os lendários
tomates verdes fritos, lembram do filme? Deliciosos.
Não deixar Atlanta sem antes comer um pêssego sumarento.
É o principal produto da região e tudo lá é
peach. Peachtree Road, Peachtree St., Peachtree Square, Peachtree
Center.
Ir até o distrito histórico de Marietta, ao bonito
Piedmont Park e chegar ao histórico rio Chatahoochee ( o
general Shermann teve de cruzá-lo para avançar sobre
Atlanta, e foi cenário de violenta batalha) lembrando da
música Chanatooga Chuchu - pequena localidade próxima
da capital da Geórgia. E andar de subway para ver e ouvir
as matronas negras, enormes e coloridas, em grupos, falando alto,
rindo e papeando, se divertindo muito entre elas, no ritmo do mais
puro rap - que, claro, assim como o jazz, o blues e uma sempre presente
nostalgia fornecem a doçura desse outro lado do império.
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