Augusto
Anacleto Farias de Carvalho, poeta velho, pobre, gago e feio,
passou à memória do seu tempo com a alcunha de Faria. Isto mesmo. Farias sem s . Faria do verbo
fazer, no condicional.
Era um sonhador que só vivia de planos. Tinha todas as idéias
do mundo e nenhuma concretude. Jamais realizou nada do que idealizou
apesar de viver permanentemente imaginando realizá-las. Todos
os dias falava de um projeto que estava quase pronto e acabado.
Um conto , um poema, um livro , uma mulher para comer. No dia seguinte,
já não falava do que ia fazer e novamente vinha com
outra história do que faria. Por isso, Faria era seu apelido.
Farias de Carvalho não era, necessariamente, um mentiroso.
Para confirmar Mario Quintana, as mentiras, para ele, eram verdades
que se esqueceram de acontecer.
De concreto na vida, era padre e professor de latim do Ginásio
Estadual do Amazonas. Só para contrariar a alcunha, fez um
único soneto. Primor de métrica, rima e irreverência.
Como Farias era Faria e não deixou nada publicado, apropriei-me
do soneto e espalho que é meu. Faço sucesso, mas por
pudor adoto, quando poeta, o pseudônimo de Farias de Carvalho.
(Ronald de Carvalho)

FODER
Farias de Carvalho
Foder , foder em pé , foder deitado
Foder no céu , no mar , foder na esquina
Foder sobre a esmeralda do gramado
Ou sobre a tábua dura da sentina.
Foder de quatro pés , acocorado
Dentro dos templos ou pelas campinas,
Foder no torno, velhas ou meninas,
Gozar fodendo de colhões puxado.
Foder, foder com o olhar, foder com pica.
Foder com a língua rubra que se estica
Ao contato de púbis distendido.
Foder, foder que a vida é tão somente,
Um fodalhaço dado , diariamente ,
E quem não fode , irmão , está fodido.
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