Os Irmãos
Siameses
Celso Japiassu
Propaganda e jornalismo são irmãos
siameses que nasceram nas praças da cidade antiga. No ambiente
populoso da ágora, do mercado, das praças onde a cidade
se reunia para comprar, vender e saber das últimas. Ali circulavam
as notícias e, junto com elas, os pregões dos vendedores
de produtos artesanais ou das safras agrícolas.A notícia
passada oralmente, o próprio boato na ausência de fatos,
foram as origens do jornalismo. E o exagero dos vendedores, apregoando
qualidades que muitas vezes os produtos não tinham, foi a origem
da publicidade moderna. Juntos, as notícias e os reclames atravessaram
os séculos enquanto aprimoravam suas técnicas e seus veículos,
às vezes sua própria ética.
Ambos viveram, sempre juntos, as mesmas revoluções:
a de Gutenberg, que ampliou os olhos e a inteligência da humanidade;
séculos depois, a do Rádio e a da Televisão e, hoje,
a revolução da grande rede mundial de computadores
a Internet, uma mídia que surgiu caótica e indisciplinada
mas com o poder de alterar os sistemas tradicionais de comunicação
e a própria distribuição dos produtos de consumo.
O tipo móvel mudou a face do mundo e criou
as condições para a revolução industrial,
ampliando o alcance da informação. Os meios eletrônicos
e os computadores desempenham papel semelhante numa revolução
que não sabemos onde vai terminar e qual o papel que verdadeiramente
representa para a sociedade humana unificada na globalização.
As características principais das organizações
sociais de hoje são contraditórias. Se de um lado a humanidade
se une diminuindo e quase apagando as diferenças nacionais, dando
origem a um único mercado mundial para todos os produtos, de outro
o indivíduo nunca se isolou tanto. As grandes corporações
globais encaram o mundo como uma única praça para seus produtos,
porem as marcas que identificam esses produtos procuram influenciar o
consumidor com uma comunicação cada vez mais segmentada
e pessoal. Ao lado da clássica divisão por sexo, idade e
classe social, praticada tradicionalmente pelos institutos de pesquisas,
procura-se segmentar o mercado por estilos de vida, grupo familiar, desejos,
gostos e ambições. Ou então mirar o próprio
indivíduo na sua solidão compartilhada apenas com o computador,
que se transformou em sua janela aberta para o mundo. O marketing
de relacionamento, ferramenta que se encontra na ordem do dia, pretende
simplesmente atingir o consumidor de forma direta, na sua própria
individualidade, em seu próprio universo pessoal.
O jornalismo segue trilha paralela que a todo momento
se confunde com a da publicidade. Os jornais do século passado
e do princípio deste, até a Segunda Guerra, opinativos,
políticos, provincianos e generalistas, foram substituídos
por jornais segmentados, dirigidos a públicos determinados, muito
bem identificados. Passaram a ser tratados como produtos e vendidos dentro
dos princípios e técnicas do marketing contemporâneo.
Os grandes e melhores jornais, antes tão austeros, procuram aumentar
suas vendas como sempre fizeram os refrigerantes lançando
mão de promoções, prêmios, brindes e vantagens
diversas oferecidas a seus consumidores. Os chamados anabolizantes. George
Washington e Líbero Badaró foram definitivamente enterrados.
Os irmãos siameses enfrentam os anos de crise
inaugurados no princípio dos anos oitenta, quando de repente os
consumidores deixaram de comprar tudo o que se produzia e os supermercados
estavam lotados de marcas de produtos que não giravam na rapidez
desejada.
A crise econômica começou quando terminaram
em todo o mundo os dias em que se vendia qualquer coisa. A era de vendas
crescentes deu lugar à do marketing atilado que tem de ser eficiente
em todos os setores. Tornou-se cada vez mais necessária a habilidade
de identificar novas tendências de consumo e desenvolver o mercado
apresentando o produto certo, no momento certo, no lugar certo.
Cada vez mais e com maior eficiência foi preciso
pesquisar o produto e pesquisar o mercado, analisar com inteligência
os riscos envolvidos, planejar de forma criativa, fazer testes e promover
adequadamente. A propaganda tornou-se elemento crucial do marketing mix,
um item muito caro no investimento das marcas para preservar e ampliar
sua participaçäo num mercado superlotado.
Os jornais e, principalmente, as revistas se diversificaram
em veículos que representam novas descobertas, nichos propícios,
segmentos sociais, novas técnicas de difusão. Buscam aumentar
o seu faturamento nas bancas e ampliar a venda dos espaços publicitários,
que representa oitenta por cento da sua receita. Do croché aos
aviões, passando pelo erótico e o religioso, a quantidade
de títulos expostos numa banca de jornal representa o alto grau
de segmentação a que as revistas chegaram. O rádio
luta pela sobrevivência, quase completamente dominado e sustentado
pelo fervor religioso dos humildes ou descobrindo o caminho das redes
nacionais, que exigem grandes investimentos para um retorno duvidoso.
A TV, que relativamente dedica pouco tempo ao noticiário,
amplia sua participação como entretenimento desenvolvendo
linhas de show, filmes e novelas ou então programas que não
se sabe exatamente a que gêneros pertencem. Ratinho é jornalismo?
A publicidade também se diversifica. Dos
orçamentos publicitários, sobra cada vez menos para a mídia
tradicional. As agências se reciclam para oferecerem amplos cardápios
de serviços enquanto vêem sua receita diminuir.
Os problemas de mercado, que há bem pouco
tempo eram resolvidos com campanhas de propaganda em veículos de
massa, contam hoje com recursos mais diversificados que competem entre
si por maiores porções do investimento publicitário.
A promoção do produto no ponto-de-venda cresce sua participação
nos orçamentos, assim como a promoção de eventos,
o merchandising, o marketing direto, as RP e os diversos recursos da new
media inaugurada pelos computadores.
Os anunciantes clamam pelo que chamam de mídia
criativa, expressão que pode ser traduzida como o desejo
de menor dependência da televisão, que acaba ficando com
mais da metade do que se investe em propaganda no Brasil. O que se explica
com o baixo preço por mil espectadores que a TV oferece, em face
das largas audiências de seus programas .
Os chamados birôs de mídia também
vão chegar ao Brasil, apesar da oposição que estão
sofrendo. É questão de tempo, porque a opção
brasileira pela globalização determina a aceitação
das tendências mundiais as boas ou as muito ruins. A ameaça
representada pelos birôs de mídia explica-se porque eles
criam a presença dominante do investimento financeiro nos espaços
publicitários. A mídia transforma-se numa commodity.
E, como toda mercadoria, vai ser comercializada nas circunstâncias
do mercado, sofrer especulações em mercados futuros e cumprir
ciclos de valorização e desvalorização.
Um dependendo do outro para a própria sobrevivência,
o jornalismo e a publicidade, como irmãos siameses, estão
unidos no mesmo destino, às vezes se odiando, jamais se amando,
mas sabendo sempre que se um deles der um passo numa determinada direção
o outro será forçado a fazer o mesmo.