O risco do negócio
Celso
Japiassu
O preço de uma campanha de publicidade
causa horror aos anunciantes, ainda mais quando o fantasma da crise
está sentado na cadeira ao lado. Quando eles tomam conhecimento
de quanto custa a exibição de um único comercial
de trinta segundos no horário nobre da TV, criva de perguntas
o pessoal da agência. Isso tudo? Cento e setenta e cinco mil reais
por meio minuto no Jornal Nacional ? Não parece uma quantia absurda?
Cento e sessenta e três mil por um filmezinho na novela das oito
?
Alguns mais afeitos aos custos do cinema nacional
chegam a arriscar que a verba necessária a uma pequena campanha,
que nunca se restringe a um único comercial, seria o suficiente
para a produção de um longa metragem.
Existe algum sentido no assombro dos clientes
diante dos custos da publicidade, mesmo quando lhes são apresentados
os cálculos de custo por mil espectadores. E mesmo quando eles
compreendem que a propaganda é parte dos custos para que um produto
possa ser produzido, ter presença e competir no mercado.
A propaganda na TV, ainda por cima, nem sempre
é suficiente para, sozinha, cobrir todas as necessidades de uma
campanha. A mídia segmentou-se diante dos interesses diversificados
de grupos sociais e culturais que se transformaram em mercados consumidores,
cada um com suas peculiaridades.
Cada vez mais a comunicação de marketing,
onde a propaganda se insere, passa a ser o item mais caro na vida de
qualquer produto. Fazer o produto com determinado nível de qualidade
há muito deixou de ser o calcanhar de Aquiles. Está aí
a Nike, provando que seus sapatos, meias, raquetes e toda a parafernália
esportiva podem ser fabricados na Indonésia, na China, no Japão
ou no Ceará, mantendo os mesmos padrões de qualidade.
A tecnologia se difunde com muita rapidez, atualmente. As empresas passaram
a administrar apenas as suas marcas, que são o seu maior ativo,
usando um complexo de comunicação sofisticado, caro e
eficiente.
As verbas precisam ser profissionalmente administradas.
O planejamento estratégico não começa nem termina
na criação ou na produção dos anúncios
e muito menos na compra do espaço nos veículos de comunicação.
Não estamos nos referindo ao planejamento de marketing de um
produto, e sim ao planejamento da comunicação de marketing.
As agências estão investindo no planejamento
estratégico tanto quanto na criação das campanhas.
Se antes o anúncio criativamente brilhante enchia os olhos dos
anunciantes e do próprio consumidor, hoje esse anúncio
tem de continuar a ser brilhante e memorável e tem de apresentar
um conceito estratégico que não venha a significar um
tiro pela culatra. Ou no pé, como diz Alex Periscinotto.
Um conhecido escritor brasileiro certa vez espantou-se
com a limitação e a dificuldade que tinham com a língua
portuguesa alguns redatores de publicidade que ele conhecia. Compreendeu
melhor quando lhe foi explicado que não se tratava, na realidade,
de redatores, e sim de criadores, responsáveis pela criação
de idéias dentro de um conceito previamente estabelecido.
Criar publicidade eficiente torna a campanha mais
barata. Ou menos cara. O conceito que diferencia o produto e motiva
o consumidor é obtido pela clareza dos objetivos - os de marketing
e também os de comunicação. Identificar o tipo
de consumidor com quem se fala ajuda a saber o que ele pensa da marca
e o que se pretende que ele passe a pensar depois de ser exposto à
campanha.
Embora a publicidade use e abuse da emoção,
porque ela tira o consumidor da indiferença, deve-se descobrir
qual o argumento que justifique tudo o que se disser sobre a marca.
Um único argumento que resuma os benefícios que estamos
prometendo ao consumidor e que vai ser confirmado no produto se a campanha
for bem sucedida. Toda publicidade é uma promessa feita ao consumidor.
Porisso ela precisa ser transmitida com clareza e de forma a que o consumidor
possa nela confiar.
Todos estes pontos deveriam ser considerados pelo
anunciante quando, ao escolher uma agência, é tentado a
aproveitar-se do momento e do alto grau de competição
do mercado publicitário para impor uma remuneração
humilhante. Ao ser transformado em "commodity", o trabalho
da agência pode perder a capacidade de viver o desafio do produto
e de se aliar ao cliente numa empreitada de risco, como é uma
campanha de propaganda.
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