|
INTERNET E MARKETING
J. Roberto
Whitaker Penteado
O Marketing na Internet é uma realidade?
Fala-se dele, mais do que se pratica.
Mas não há dúvidas de que uma rede de comunicação
que congrega dezenas de milhões de pessoas com razoável
poder aquisitivo - portanto, consumidores potenciais de todos os
tipos de produtos e serviços - representa uma excepcional
oportunidade como instrumento de comunicação e de
vendas.
É indiscutível que a
Internet pode oferecer imensas oportunidades ao profissional de
Marketing. A maioria dos sites das empresas ainda são administrados
por gente jovem, que entende de informática, mas não
de marketing. Quase todas as homepages e os links pela internet
estão estruturados em função do próprio
meio - e não da conveniência dos clientes/consumidores.
Falta o dedo do profissional de marketing, para torná-las
realmente ³amigáveis² para os cidadãos-comuns,
que são a maioria das pessoas que trafegam pela internet.
Pode-se comparar isso com a fase inicial do marketing, em que as
empresas eram todas product-oriented, e tiveram de voltar-se para
o mercado, para os consumidores, para tornarem-se marketing-oriented.
A internet de hoje está ainda, definitivamente, product-oriented
- ou, até, melhor dizendo: medium-oriented. Olhando para
o próprio umbigo.
Com relação à propaganda,
o problema é semelhante: os criativos de propaganda realmente
bons ainda não dominam o meio. Acham que se trata de criar
banners engraçadinhos ou fazer cineminha de animação.
A maioria das pessoas ignora as mensagens, ou fecham os quadradinhos
de anúncios, quando aparecem, sem ler.
Existe, ainda, certa confusão entre
³comércio eletrônico² e marketing pela Internet.
Comércio eletrônico é a tradução
para e-business. Há imensas possibilidades para agilização
de negócios através da rede, em vista dos seus recursos
de transporte e visualização de praticamente qualquer
coisa - fotos, documentos, softwares, etc. E a velocidade, quase
instantânea. O que é ótimo, por exemplo, para
transações financeiras - desde que as transferências
de fundos se processem, paralelamente, pelas formas convencionais.
Ou para reuniões on-line, entre parceiros que se encontram
separados, às vezes, por milhares de quilômetros.
Já o marketing é, essencialmente,
relacionamento entre produtor e consumidor, entre uma empresa e
seus clientes. Pelas características do meio, do lado do
cliente, ele se processa verdadeiramente na base de one-to-one -
um a um - como no livro de Peters e Rogers. A maioria das empresas
ainda não está preparada para lidar individualmente
com cada um de seus clientes.
Nosso país, entretanto, ainda lida
com problemas que lhe são específicos: muitos têm
a ver com a forte característica de prestação
de serviços que o marketing pela internet apresenta. E luta-se,
aqui, ainda, com dificuldades para assimilar preceitos do bom marketing
de serviços, como treinamento constante e boa comunicação
interna. Outro setor em que estamos atrasados - apesar de algum
progresso recente - é o da tecnologia. Excetuando-se algumas
áreas urbanas privilegiadas, a simples conexão telefônica
com o provedor pode tornar-se uma tortura. A navegação
pelos sites - sobretudo os nacionais - é, freqüentemente,
de uma lentidão exasperante. Isso acaba afastando os usuários,
fazendo com que comprem menos ou deixem de comprar. Outro fator
preocupante é a nossa ainda pequena habilidade para lidar
com computadores - que os americanos chamam de computer illiteracy.
Apesar dos números absolutos que impressionam - mais de 10
milhões de usuários, na rede - em termos relativos
ainda são muito pequenos. E, nesse aspecto, os grande responsáveis
são a própria indústria da informática,
que não assume uma postura mais didática para a conquista
de novos usuários - e um sistema educacional, que, especialmente
no ensino fundamental, está próximo da Idade da Pedra.
Qual o futuro do Marketing via Internet?
Apesar dessas críticas e restrições, confesso
ser, não só usuário assumido da internet, mas
seu entusiasta. Já não há, sequer, presente
para o profissional de marketing que não esteja imerso até
as orelhas na internet - e em todas as novas tecnologias. E certamente
não haverá futuro. Mas é essencial não
esquecer que o marketing continua tendo seus fundamentos no relacionamento
entre as pessoas. E isso, tenho certeza de que não vai mudar.
O NÓ DA UNIVERSIDADE
Nessa última segunda-feira, fui impedido
de entrar no campus da UFRJ - onde estou fazendo um curso de pós-doutorado
- pelos mesmos porteiros que estão, habitualmente, em seus
postos para facilitar a entrada das pessoas. Por causa da greve,
explicaram. Disseram-me que isso (ser "barrado") não
ocorria, no país, desde a época do regime militar.
Estou seguindo um curso, no setor de História
da UFRJ, exatamente com o objetivo de conseguir entender as agudas
contradições do Brasil. "Somos um país
tolerante, cordial" - proclamaram Gilberto Freyre e Sergio
Buarque - mas o que se vê, no dia-a-dia, são os sinais
de violência e a prática da intolerância.
Na discussão da questão da
universidade brasileira, é absurda a radicalização
das partes - a tal ponto, que o ministro Paulo Renato, preocupado
com a imagem de presidenciável, parece ter desistido de arbitrá-la.
O que dizem os críticos da universidade
pública? Que representa um pêso para a nação:
é ineficiente, injusta, perdulária e corporativista.
Ineficiente porque - demasiadamente conceitual e teórica
- não prepara nem para a vida nem para o trabalho. Injusta
por prestar seus serviços a quem menos precisa deles: as
classes mais abastadas. Perdulária, porque apresenta baixíssima
relação alunos x professores e alunos x funcionários.
Na ponta do lápis, custa de 3 a 8 vezes mais à sociedade
do que um aluno formado na escola privada. E corporativista - sem
nenhum privilégio - como é corporativista toda a sociedade
brasileira, com a agravante de que a versão acadêmica
inclui o patrulhamento ideológico: uma só linha de
pensamento costuma ser aceita, especialmente nas escolas federais.
Os defensores têm argumentos consideráveis.
Não admitem as medições quantitativas de eficiência,
uma vez que, atualmente, só as universidades públicas
se dedicam ao importante trabalho de pesquisa, praticamente inexistente
na rede particular. (Devo testemunhar que, no meu recente convívio
com nossas universidades públicas, conhecí profissionais
de rara competência, à altura dos melhores do 1º
Mundo). Por outro lado, seus números - que são de
domínio público, diferentemente dos das particulares
- incluem a onerosa manutenção de hospitais e outras
instituições de serviços - além de substancial
passivo de pensões e aposentadorias, o que não ocorre
com as de direito privado. A admissão de alunos de maior
poder aquisitivo reflete a qualidade do processo de seleção
- e, mesmo assim, são as públicas que oferecem maior
número de bolsas aos jovens de famílias carentes.
Ao suposto corporativismo ideológico,
contrapõem-se críticas ao mercantilismo de muitas
escolas particulares, excessivamente presas a orçamentos
que não admitem prejuizo.
Enquanto isso, a educação superior
continua apresentando números comprometedores, que colocam
o país abaixo do Chile e da Argentina, no mesmo nível
do Paraguai e de Zâmbia. E a participação do
ensino privado cresce cada vez mais.
Será difícil resolver o problema
no âmbito do MEC. Como percebeu o ministro, os setores-chave
da instituição estão nas mãos de profissionais
ou simpatizantes das universidades públicas, que são
- inclusive - as que "julgam" o ensino particular, através
dos provões e das comissões de avaliação.
Diante do premente desafio de modernização do Estado,
é, hoje, definitivamente questionável se a educação
deve continuar centralizada em Brasilia. Nos EUA, por exemplo, o
sistema é administrado pelos Estados.
Mas pior do que tudo será radicalizar.
Nas críticas e suas defesas, há elementos de verdade
e de distorção que não são difíceis
de identificar e distinguir. Há, também, escolas públicas
e privadas extremamente respeitáveis e as há absolutamente
desqualificadas - o que não deveria ocorrer.
A sociedade precisa de suas universidades
públicas, como as universidades - e o pessoal que nelas trabalha,
de fato - precisam de reconhecimento pela contribuição
que dão - e pela que podem dar ainda mais, se aceitarem as
vassouradas e espanadas de que carecem, nos seus recantos menos
acessíveis.
E não pode ser deixado para depois.
Ou as universidades públicas poderão seguir o mesmo
caminho dos nossos portos marítimos, tornando-se caras e
inúteis ruínas, vítimas da intolerância
e da falta de visão.
MARKETING DE SERVIÇOS
Os homens nascem livres e, em toda parte, estão aprisionados.
- Rousseau
Se perguntar-me porque lembrei da frase do
Contrato Social, ao escolher o Marketing de Serviços como
tema para essa última página, respondo que lembrei
dela ao perguntar-me: - por que, nesses tempos de "encontro
com o futuro", consubstanciado no novo milênio, todo
mundo fala das novas oportunidades para o marketing de serviços
e nunca foi tão difícil encontrar um serviço
sequer digno do nome?
Se não me acredita, busque no seu
Document Center ou na biblioteca a edição de 23.10.2000
da revista Business Week e leia a instrutiva reportagem intitulada
Why Services Stink (Por que os serviços são uma m...)
Aprendí cedo, com meu querido e saudoso
professor Carlos Werneck, que uma das melhores maneiras de dirimir
dúvidas e/ou resolver problemas é tentando entendê-lo
melhor através da análise da origem das palavras.
Se V. procurar, no novo Aurélio, a palavra serviço,
vai receber, instantâneamente, uma dose maciça de insight.
Ela deriva do latim servitiu - que significa "a escravidão"
ou "os escravos" - quase um sinônimo perfeito de
servidão.
Mas quem liga para a etimologia e o latim nos dias atuais? Será
que a idéia de serviço ainda evoca - no rapaz que
nos atende tão bem no McDonald e na moça da caixa
do banco, que atende tão mal - idéias de escravidão?
A resposta está contida no próprio exemplo - e a única
razão pela qual o moço do McDonald tem orgulho do
que faz, e a jovem bancária nos detesta, é que um
teve bom treinamento e o outro não.
Mas, voltando aos fundamentos, além
de olhar no dicionário, gosto de consultar a Bíblia,
que, no caso do marketing, é o livro Administração
de Marketing, do vovô Philip Kotler, cuja 10ª edição
se autoproclama a "do milênio" Pois é significativo
que entre uma edição e outra o professor tenha substituido
três citações (de T. Levitt, de um ex-presidente
da IBM e de um gerente da AT&T) por uma observação
sua, que chama de "essencial": Toda empresa é uma
empresa de serviços. Não existem indústrias
de produtos químicos; existem empresas especializadas em
serviços químicos.
Aí está a chave da questão:
se toda empresa é uma instituição voltada para
a prestação remunerada de serviços, por que
algumas agradam e outras desagradam? Essa é a dúvida
saudável que deixo ao caro leitor - até o próximo
mês.
MOÇOS E VELHOS
Ficar velho não passa de um mau hábito
- André Maurois
The Economist, em sua edição
especial do final de 2000 abordou a questão O Velho e o Novo.
A revista refere-se a uma tendência demográfica que
se vem acentuando nos últimos anos e que deverá dar
o tom nas principais mudanças que ocorrerão neste
Século 21. Trata-se da modificação na estrutura
etária das populações. Embora existam mais
jovens do que nunca, entre os mais de 6 bilhões de terráqueos,
o número de pessoas idosas cresce, proporcionalmente, a cada
ano.
E não só cresce o número
de idosos, como se torna cada vez mais longo o período produtivo
nas vidas das pessoas. Diante de tais estatísticas, até
quando poderemos cultivar a ficção de que se possam
aposentar depois de três décadas de atividade? Muitos
homens de 55 e mulheres de 50 anos - provavelmente a maioria - têm,
diante de si, facilmente, mais 20 ou 30 anos para exercer praticamente
quaisquer tipos de funções em uma empresa.
E, se essa prolongada vida profissional tornar-se
realidade, como se vai dar o convívio entre as gerações?
Como será a empresa ou instituição que empregará,
lado-a-lado, colaboradores com 20, 30, 50 e 80 anos? O que farão?
Como interagirão?
Abordei a questão uma primeira vez
numa coluna de jornal e recebí um e-mail de um leitor espantado,
em que dizia: Tenho 49 anos e trabalho numa agência de propaganda.
Meu chefe tem 35 anos e a média de idade da equipe é
de 24 anos. Já é bastante complicado; imagine se eu
tivesse 80 anos...
De fato, nessa nova sociedade, será
preciso perguntar: quem são os jovens - os de 24? Os de 35?
E os velhos? Os de 49 - ou os de 80?
Essa é uma questão de extraordinária
pertinência, a que nos chama atenção a excelente
revista britânica. Durante as últimas décadas
do Século passado, houve uma decidida corrida entre as grandes
corporações no sentido de ter quadros cada vez mais
jovens. Enquanto isso, as aposentadorias oficiais foram minguando,
quase desaparecendo - e nem todos podem fazer um bom pé-de-meia
previdenciário. Que farão, daqui para a frente, esses
milhares de profissionais com a possibilidade de trabalhar mais
20 ou 30 anos, ao se verem assim tão precocemente escorraçados
do mercado?
O FIM DA PROPAGANDA
A propaganda é a mais importante forma de arte do Século
Vinte.
- Marshall McLuhan (1911-80)
Não se faz mais propaganda como antigamente.
O que é antigamente? Sou capaz de lembrar-me de dois tempos:
o primeiro é como se fazia propaganda desde antes da Segunda
Guerra - quando aqui chegaram as primeiras agências internacionais
- até, mais ou menos o final dos anos 50. Nascí em
1941 e não participei diretamente, mas meu pai era da JWT
e seus amigos foram os grandes da propaganda, como Lima Martensen,
Castelo Branco e Armando Sarmento. Fazia-se boa propaganda, muito
profissional e divertida e a grande diferença em relação
à segunda fase foi que não havia TV. Os grandes anúncios
eram spots ou jingles e as grandes campanhas eram de imprensa-e-rádio
e, em mídia, ficava na frente quem conseguia espaços
no horário nobre da Rádio Nacional e comprar maior
número de quartas capas de O Cruzeiro.
O segundo tempo da propaganda começa
com a televisão nos anos 60 - mas essa ainda foi a década
do preto-e-branco. Muitos talvez nem se lembrem de que assistimos
à maravilhosa conquista da Seleção Canarinho
do Brasil (um dos muitos bordões criados pelo locutor oficial
da Copa, Geraldo José de Almeida) em p&b e que só
uns poucos privilegiados - políticos, militares e diretores
de mídia - assistiram aos jogos em cores nos estúdios
das TVs, que recebiam o sinal da Embratel. Com a televisão
surge o segundo tempo da propaganda - criativa, engraçada,
persuasiva, concebida nos charmosos escritórios de Manhattan
da DDB, da BBDO, da Wells Rich Greene - e traduzidas aqui, principalmente,
pela Standard e pela Almap.
São dessa época as memoráveis campanhas audiovisuais
- os filmes do Fusca, o garotinho francês da Danone, as idéias
ousadas do Itaú, as entrevistas impagáveis da Caixa
Econômica Federal, Carlinhos Moreno, da BomBril, o primeiro
sutiã, as superproduções de Carlos Manga, para
a falecida MPM carioca, os filmes da Fiat criados pelo Graciotti...
O Festival de Cannes torna-se o termômetro da competência
publicitária - iniciado como uma promoção dos
vendedores de espaço em cinemas, a SAWA sucumbe à
força da telinha. São os comerciais criativos, surpreendentes,
memoráveis que darão o tom das campanhas e estabelecerão
os estratosféricos níveis salariais dos profissionais
de criação, que não são mais redatores,
nem diretores de arte... As trilhas sonoras dos comerciais serão
veiculadas no rádio, tornado mídia classe-turista,
e os atores dos filmes serão os modelos dos anúncios
impressos. Esses tempos acabaram. Tanto o primeiro como o segundo.
Não existe mais mídia
que, sozinha, monopolize a atenção de todo o mercado
consumidor. Jornais, revistas, rádio, estão segmentados
à exaustão. A TV ainda comanda altas doses de emoção
e consegue compartilhar a leucemia da mocinha com milhões
de brasileiros e brasileiras ou pseudo-escandalizar outros milhões
de oprimidos com as grosserias do Ratinho, ou do Gugu. São,
contudo, os últimos espasmos de um tempo que se acaba com
o milênio. A propaganda que nós conhecemos nasceu da
mídia: com os corretores de anúncios de jornais, no
finzinho do século passado e prosperou nesse, aprendendo
a falar com o invento de Marconi. Teve seu apogeu com a TV de grandes
redes e monumentais audiências. Ela não vai sobreviver
à morte da mídia, como se prenuncia no eufemismo da
multimídia nascida nos computadores. Quando tudo é
mídia, nada é mídia.
(voltar ao topo)
|