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Comunicação e Liberdade
Armando
Strozenberg*
Discurso em 12 de abril de
2002, durante a entrega dos Premios Comunicação 2002
Posso dizer, sem qualquer temor
de erro, que a ABP foi criada pelos fundadores da comunicação
social do Brasil, quando ainda não se pensava que as rotativas
poderiam multiplicar a oferta da informação impressa,
o rádio era um sonho que virava realidade com Roquete Pinto
e a televisão e a internet sequer estavam nas perspectivas
de um dia se tornarem maravilhosos instrumentos da ubiqüidade.
(Para o bem e para o mal, é verdade, mas - com certeza -
ferramenta de aproximação dos homens).
A Associação Brasileira de Propaganda é, portanto,
a entidade decana na representação nacional da atividade
publicitária, a única que, no país, integra
todas as suas vertentes: empresas e profissionais de agências,
anunciantes, veículos e fornecedores.
Antes de apresentar e justificar os vencedores
do Prêmio Comunicação 2001, permitam-me uma
breve reflexão sobre uma faceta menos visível deste
nosso negócio, que só no ano passado movimentou diretamente
400 bilhões de dólares no mundo e, por aqui, quase
13 bilhões de reais - tenho orgulho de poder falar na moeda
do meu país, que muitos dos publicitários aqui presentes
ajudaram a consolidar.
Aparentemente tão efêmeros, tão
descartáveis, tão banais, por que será que
um consumidor brasileiro exposto em média a, por exemplo,
40 mil mensagens publicitárias por ano presta atenção
- ao contrário do que se pensa - aos nossos comerciais, anúncios,
jingles, slogans?
Pesquisa recente do respeitável Starch
Roper Institute, de Londres, revela que nunca as pessoas estiveram
tão interessadas em publicidade quanto nestes últimos
10 anos.
E por que isto está acontecendo? Seriam
os anúncios que teriam se tornado mais atraentes? Infelizmente,
esta hipótese ainda não é verdadeira: para
especialistas em estética publicitária apenas cinco
por cento do que é veiculado no mundo pode ser considerado
original, brilhante, memorável.
Quem me parece mais qualificado para levantar
um aspecto novo sobre este fenômeno é o antropólogo
argentino Nestor Garcia Canclini, que se dedica a estudar Cultura
Urbana na Universidade Autônoma do México. É
dele esta afirmação corajosa:
"A luta pela cidadania passa pelo acesso à condição
de consumidor".
Seria parcial, talvez até falsa, a
visão do consumo como determinada apenas pelo interesse do
capital.
O consumo, na prática, seria então
uma forma de linguagem através da qual cada um de nós
fala sobre si mesmo e sobre a sua relação com os outros,
marcando e deixando muito claro nosso lugar no mundo.
"Nas novas gerações - diz
ele - as identidades se organizam, hoje, tanto a partir dos símbolos
nacionais, como também em torno daqueles produzidos por Hollywood,
por uma rede de comunicação internacional ou por uma
importante griffe de moda global. Perguntas próprias dos
cidadãos, do tipo a que lugar pertenço, que direitos
isso me dá, como posso me informar, quem representa meus
interesses, são respondidas mais pelo consumo privado de
bens e dos meios de comunicação de massa do que pelo
exercício das regras abstratas da democracia ou pela participação
coletiva em partidos ou sindicatos enfraquecidos."
Três exemplos brasileiros e recentes confirmam que a publicidade
não é eficaz e o consumo não acontece se não
incluir também interações de colaboração
e transação entre produtores, as mensagens de venda
e consumidores.
1. É um fracasso a tentativa de criação
de uma terceira marca mais barata nos supermercados; como vêm
se mantendo, e até crescendo, os volumes de venda nas classes
C e D de produtos com maior valor agregado.
2. São "cases" vencedores
as ofertas públicas de ações detidas pela União
em empresas estatais e ex-estatais com recursos do FGTS, como também
tem índices crescentes de eficácia as campanhas públicas
e privadas na área da Saúde, Educação,
Energia e do Meio Ambiente, por exemplo.
3. É palpável o sucesso da
campanha de uma cadeia de lojas cuja moda - a preço justo
- quem apresenta, usa e recomenda é a mítica top model
Giselle Bündchen.
Consumo e política, ou consumo e cidadania,
estão estreitamente relacionados. Ou seja: nas sociedades
de mercado a luta pela cidadania passa também pelo acesso
à condição de consumidor. E de um consumidor
respeitado em seus direitos.
Os homenageados pela ABP com o Prêmio
Comunicação 2001, de uma forma ou de outra, são
criadores de cidadania. E, talvez por isto, têm em comum densas
e longas histórias que não se limitam ao que fizeram
no ano de inauguração do milênio.
Todos os segmentos profissionais têm os seus gurus. Seja pelo
que representam como exemplo pessoal, como referência ética
e equilíbrio na prática comercial ou como dínamo
no engajamento pelas bandeiras comunitárias em que acreditam.
Estas são as características
do Homenageado Especial do Prêmio Comunicação
2001.
Octavio Florisbal há mais de 30 anos
constrói, tijolo a tijolo, com aquele seu jeito tranqüilo
e gentil de ser, uma das carreiras mais sólidas de Profissional
de Mídia da propaganda brasileira.
Iniciou sua carreira na Thompson, em 1969.
Evoluiu para a área de Planejamento de Mídia na Lintas
International, hoje Lowe, do Grupo Interpublic. Culminou com uma
atuação irrepreensível na Rede Globo de Televisão
desde 1982: primeiro como Diretor de Marketing durante 8 anos e,
desde 91, como Superintendente Comercial.
Lá implantou um modelo altamente profissional
que rapidamente transformou-se para o trade na referência
de comercialização de espaços publicitários;
em especial, por ter sido sempre um defensor ardoroso do desenvolvimento
das pesquisas de audiência e de mídia no Brasil (aliás,
Florisbal é o fundador e primeiro presidente do pioneiro
Grupo de Mídia de São Paulo e um dos principais responsáveis
pela introdução dos people-meters no país como
resultado de seu trabalho na Comissão ABAP-Redes).
É como se fosse parte de seu dia-a-dia
a obsessão pelo
aprimoramento do profissional de mídia,
a defesa do desenvolvimento sustentado das agências brasileiras,
o rigor com a ética da linguagem publicitária e a
sua postura como parte da cúpula de uma empresa-líder
do mercado publicitário brasileiro e uma das maiores do mundo.
A história de Octavio Florisbal não
deixa nenhuma dúvida sobre as razões pelas quais ele
é e será sempre um dos nossos gurus. E do porquê
a Rede Globo de Televisão tem há apenas 10 dias um
bambam, mas há 20 anos mantém um bambambam no seu
time diretivo...
Como é do conhecimento de todos, o
publicitário é um egoholic. Muitas vezes, só
para atender a um estereótipo. Mas, quando relaxa, deixa
escapar algumas verdades profissionais. Uma delas, com certeza,
é a admiração por uma certa agência...
Pelo conjunto da obra, a Talent é
a Agência do Ano do Prêmio Comunicação
2001. Fundada há 22 anos, ela se propôs a trazer para
o mercado um modelo inédito de operação: ao
invés de oferecer serviços de propaganda, propunha-se
a "prestar talento" e "alugar inteligência".
Para manter a qualidade do trabalho, a agência adotou uma
estrutura modular de crescimento, com número limitado de
clientes por grupo de atendimento. Tudo dentro do conceito de "empregar
tempo para pensar".
Baseado num forte planejamento estratégico
e associado ao talento criativo, em pouco tempo este padrão
se tornou conhecido e admirado. Afinal, esta fórmula gerou
alguns clássicos da propaganda como "Não é
assim uma Brastemp", "Nossos japoneses são mais
criativos que os outros", para a Semp Toshiba e "Apaixonados
por carro como todo brasileiro", criado para a Ipiranga - todos
hoje incorporados pelo imaginário popular.
Pelos principais rankings da imprensa especializada,
uma receita de 97 milhões de reais em 2000 levou a Talent
para o segundo lugar entre as agências de propaganda com capital
100% nacional.
Além do presidente Júlio Ribeiro,
atuam na agência os sócios José Francisco Eustachio,
Ana Carmen Longobardi, Rubens Ribeiro e Antônio Lino Pinto.
No total, são 140 profissionais atendendo 24 clientes, que
acreditam no talento.
Júlio, além de uma das melhores
cabeças da propaganda brasileira, está sempre na linha
de frente quando está em jogo a defesa apaixonada dos princípios
que a norteiam e do papel que o consumidor deve esperar das agências
de propaganda.
Credibilidade, isenção, rapidez.
Estas são as marcas do Veículo do Ano 2001, a CBN,
primeira e maior rede de rádios all news do Brasil, cuja
proposta é transmitir informação 24 horas por
dia, via satélite.
Criada em 1 de outubro de 1991, é fruto
de uma decisão corajosa de José Roberto Marinho, que
sempre acreditou no potencial do novo formato.
A Rede CBN está presente hoje nas principais
cidades e capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo, Brasília
e Belo Horizonte. Ao todo, a Rede CBN possui 20 afiliadas, de Norte
a Sul do país.
Conta com mais de 200 jornalistas e comentaristas
de primeira linha, como Heródoto Barbeiro, Sidney Rezende,
Miriam Leitão, Carlos Alberto Sardenberg, Franklin Martins,
Juca Kfouri, Gilberto Dimenstein, Carlos Heitor Cony, Artur Xexéo
e Arnaldo Jabor.
Ao longo dos seus dez anos de operação,
a "rádio que toca notícia" esteve ao lado
dos grandes acontecimentos que marcaram o Brasil e o mundo.
Ao mesmo tempo, e com o mesmo empenho, a CBN
acompanha os fatos das cidades onde atua, abrindo espaço
para as principais reivindicações das comunidades.
É sua marca buscar formas diferenciadas
de noticiar, como na nova e ousada cobertura futebolística
pela qual vários jogos são levados ao ar simultaneamente.
Segundo o Ibope, a CBN alcança uma
cobertura máxima acima de dois milhões de ouvintes
por minuto nas praças de São Paulo, Rio de Janeiro,
Brasília e Belo Horizonte. A sua audiência é
qualificada: 64% dos ouvintes são das classes A e B; 56%
têm entre 35 e 59 anos; 73% são economicamente ativos.
O Veículo do Ano da ABP resgatou e está ampliando
para o tamanho do Brasil o prestígio que a informação
radiofônica teve nos anos 50 e 60.
Com sede em Vevey, Suíça, a Nestlé é
a maior companhia de alimentação do mundo, com 135
anos de idade e faturamento em 2001 de 51 bilhões de dólares.
Ela nasceu da cabeça de um homem -
o alemão Henri Nestlé - que acreditava num produto
que pudesse combater a desnutrição dos bebês
cujas mães fossem incapazes de amamentar.
Já em 1867, ele acreditava na força
de comunicação de um logotipo: apropriou-se da imagem
de um ninho que fazia parte do brasão de sua família
e que, até hoje, é o principal elemento da identidade
corporativa da Nestlé, por evocar segurança, maternidade,
afeição à natureza, família, tradição.
No final do século XIX a Nestlé
já investia em propaganda. A verba se dividia entre classificados
de jornais, bulas de remédios e painéis urbanos desenhados
por grandes artistas e ilustradores.
Como é o caso, também, de uma
de suas maiores operações: a Nestlé Brasil,
o Anunciante do Ano 2001. Que aqui emprega mais de 15 mil pessoas,
fatura 5,7 bilhões de reais e, desde o ano passado, vive
uma ampla reestruturação comandada por um brasileiro
- Ivan Fabio Zurita - há 27 anos na empresa.
São 650 marcas em dezenas de categorias, muitas das quais
são sinônimos de produtos, graças à relação
contínua que a empresa mantém com a Propaganda e as
agências que a atendem.
Mas, é na área de responsabilidade
social que está talvez a principal virtude mercadológica
da Nestlé Brasil:
"Comprei um Leite Moça da Nestlé numa quitanda.
Percebi que o produto estava esquisito, com uma coloração
diferente. Liguei para o SAC e eles me disseram que era um problema
de armazenamento, na própria quitanda, e fizeram a troca
do produto. A Nestlé foi muito 10!".
Eis o depoimento de Vera de Andrade, consumidora, dona de casa,
42 anos, casada, ouvida pela revista About.
A empresa foi uma das pioneiras em divulgação
de caixa postal nas embalagens. E o seu SAC (Serviço de Atendimento
ao Cliente) funciona também como processo interativo de criação
e mudança de produtos, como foi o caso de Moça Fiesta
e a adoção de embalagens fall off pelo Nescau e pelos
cereais matinais.
Para a nossa memória profissional: ano passado, num dos momentos
mais difíceis do mercado publicitário brasileiro,
coube à Nestlé Brasil romper o marasmo quando lançou
uma campanha de 55 milhões de reais promovendo um gigantesco
sorteio de casas.
O Prêmio Comunicação da ABP vem ao longo dos
anos refletindo ou se antecipando à realidade vivida pelo
país.
Tancredo Neves, escolhido a Personalidade
do Ano 1983, lançou-se candidato à Presidência
da República aqui, num discurso memorável; o Doutor
Ulysses Guimarães recebeu o Prêmio Comunicação
1985 como símbolo da resistência democrática;
o jornalista Carlos Castelo Branco foi a Personalidade de 1987 como
a figura-síntese do jornalismo político sério
e independente que se pratica neste país; Marcílio
Marques Moreira foi o escolhido em 1992 pela condução
serena do delicado papel que a História lhe reservou durante
os meses que precederam a um doloroso impeachment presidencial;
e para ficar num só exemplo a mais, Herbert de Souza, o Betinho,
foi a Personalidade do Ano 1993 pela ousadia do lançamento
da sua hoje consagrada Campanha Contra a Fome e a Miséria.
Desta vez, a Personalidade do Ano é
o Presidente Fernando Henrique Cardoso. Como fez antes, e como fará
no futuro, a ABP se antecipa.
Acima de convicções partidárias
ou ideológicas, a nossa decisão é política
na verdadeira dimensão do termo.
Concorde-se com ele ou não, homenageia-se
hoje um homem público e uma biografia. Que têm como
denominador comum e permanente o compromisso com a liberdade de
expressão.
Se por alguns anos foi vítima do arbítrio,
nos períodos em que teve e tem o poder nas mãos -
nas salas de aula sempre contestatárias da USP ou de Nanterre,
de Berkeley, de Stanford, ou de Santiago do Chile, nos espaços
de debates acalorados e de egos inflamados do CEBRAP ou durante
as várias etapas de sua carreira política -, de uma
coisa Fernando Henrique Cardoso jamais abriu mão: o respeito
absoluto aos princípios que norteiam as sociedades democráticas.
Como já disse antes, a publicidade
é um dos indicadores da saúde dos povos, por permitir
a democratização do acesso a bens e serviços,
com ética e respeito aos direitos de cidadania.
Mais do que em qualquer outro momento da história
política brasileira, ela tem merecido do Governo Federal
tratamento ético, sério e criterioso.
Não aquém dos méritos
políticos, destaca-se, também, na escolha do nome
do Presidente Fernando Henrique Cardoso, o trabalho desenvolvido
na área da Secretaria de Estado de Comunicação
(SECOM) onde se pratica o maior e mais democrático acesso
às contas publicitárias da Administração
Federal e das empresas públicas. São mais de 40 agências
de vários portes e origens diferentes trabalhando; e isto
num período em que o Estado brasileiro se contraiu consideravelmente.
Registre-se também o constante aprofundamento
da profissionalização e, em conseqüência,
do nível de exigência da Administração
Federal como anunciante; além da inédita redução
da remuneração das agências de propaganda sobre
os serviços prestados, fruto de negociação
intensa.
Mas, é de fora de nossas fronteiras,
a constatação da ABP para premiar o Presidente Fernando
Henrique Cardoso, um viajante não acidental , o mais importante
e competente comunicador dos fatos brasileiros para o exterior,
um dos maiores responsáveis pela nova imagem do Brasil, marca
hoje identificada não apenas com os nossos clichês
e atrasos, mas também com a modernidade e os nossos avanços.
"O presidente não anda pelo mundo
à toa... (O fato é que) o Brasil ficou mais conhecido
com a disposição viajeira do (nosso) inquieto presidente"
reconhece o quase sempre mordaz comentarista político Villas-Bôas
Corrêa, uma espécie de consciência crítico-carioca
das coisas do país, em artigo recente.
Outro observador de nenhuma "papa na
língua", o inesquecível governador Mário
Covas, dizia que "os políticos devem ser avaliados por
seus traços de caráter; não por seus traços
no ibope".
A ABP tem a convicção de que
está escolhendo uma Personalidade cujo compromisso com a
liberdade de expressão não só revela o seu
caráter, como garante mais uma vez o ibope do Prêmio
Comunicação para o futuro.
Neste Brasil da liberdade, peço ao
Senhor Presidente e aos senhores homenageados, que permitam-me saudar,
em nome da ABP, uma pessoa e um fato - pessoa e fato dignos do Brasil
que desejamos construir - como indicadores de democracia. Seja bem-vinda,
Senhora Governadora Benedita da Silva, síntese humana do
que esperamos possa ser uma constante em nossa terra.
Senhor Presidente,
Senhores homenageados,
Como uma outra mulher, Hanna Arendt (a filósofa
do respeito humano), eu creio que "o sentido da política
é a liberdade."
E a ABP crê, e reitera aqui, que só num espaço
de liberdade é que a publicidade brasileira vai exercer melhor
a sua relação com um número cada vez maior
de cidadãos-consumidores brasileiros.
Muito obrigado
*publicitário, presidente da Associação
Brasileira de Propaganda
(voltarao topo)
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