Esplendor, glória, decadência
e o renascer das agências de publicidade
Celso Japiassu
A história das agências de propaganda é um desenrolar de esplendor e glória, ascensão e queda, alternando períodos de crescimento, riqueza e decadência. Nasceram junto com os primeiros sinais de profissionalização da imprensa americana, desenvolveram-se no interior da competição desencadeada pela revolução industrial e chegam ao fim do milênio procurando adaptar-se à globalização e à economia de escala dos produ tos e dos serviços globalizados.
Nenhum outra atividade dentro do setor de serviços capitalista tem sido tão abrangente como a das agências de publicidade. Nem apresentou uma capacidade de adaptação tão grande, a ponto de decretar sua própria extinção para ressurgir como empresa multi-disciplinar, eclética e inovadora, capaz de atuar em consonância com uma época em que o valor no mercado de ações é a principal meta das corporações. Ao lado da expertise financeira, têm de oferecer alto grau de eficiência operacional para sobreviver numa arena tão grande quanto o mundo.
A publicidade como recurso para vender produtos
ou propagar idéias sempre existiu, desde que o homo sapiens deixou
de ser nômade e se organizou em grupos sociais. A necessidade de
escoar o excesso do que produzia levou o agricultor a vender parte da
safra e para isso precisava divulgar a quantidade e a qualidade dos seus
produtos.
A ágora, na antiguidade, e o mercado, nas
cidades medievais, foram os espaços naturais para o aparecimento
da publicidade com fins comerciais. Era alí que o povo se reunia
para comprar e vender, para as assembléias populares e para trocar
informações sobre o que acontecia.
A invenção do tipo móvel por
Gutemberg criou condições para a propagação
das informações e a publicidade pôde então
estruturar-se como poderoso instrumento para as vendas e para a circulação das mercadorias.
Os primeiros movimentos do que viriam a ser as modernas
agências de propaganda surgiram nas grandes cidades americanas,
como Boston, onde se organizaram os primeiros corretores de espaço,
em meados de Século XIX. Eram vendedores autônomos, comercializavam
o espaço dos jornais para a publicidade das fábricas e do
comercio e passaram a oferecer serviços paralelos, como o de escrever
o texto dos anúncios e arrumá-lo em layouts
mais atrativos e mais fáceis de ler.
Esta atividade proporcionou enorme impulso nas vendas
e na capacidade de fazer circular as mercadorias produzidas em massa pela
nova indústria, que acabara de substituir a mão de obra
do operário pelas máquinas. A agência de propaganda
organizou-se não apenas para vender o espaço dos jornais
mas, principalmente, para oferecer aos industriais e aos comerciantes
uma solução para o grande perigo da produção
em massa a superprodução, uma ameaça que poderia
significar o encalhe das mercadorias e a falência do novo sistema.
A estruturação dos corretores de espaço
em empresas de serviço pôde desenvolver técnicas de
venda planejada com a cobertura da comunicação de massa,
tornando mais fácil o trabalho dos vendedores das fábricas
e das lojas, porque o produto já se tornara conhecido do cliente
que eles abordavam.
Dizia-se, nesses primeiros e heróicos tempos
da publicidade comercial, na era precursora das técnicas de marketing,
que a publicidade era a artilharia e a equipe de vendas a infantaria.
A artilharia bombardeia o terreno e o prepara para a ocupação
da infantaria. Uma imagem bélica que antecipava as futuras concepções
do marketing visto como uma operação de guerra.
As agências de propaganda desenvolveram-se
e prosperaram nesse cenário de produção em massa
e competição entre as marcas dos novos produtos que esrtreavam
no mercado. Época em que despontaram os homens que lançaram
idéias sobre como deveria ser a publicidade no tempo em que eles
viveram. Rosser Reeves, Ted Bates, James Young, Ogilvy, Bernbach, este
último o mais significativo, pois até hoje influencia pequena
mas importante parte da publicidade americana e toda uma geração
de publicitários brasileiros brilhantes ainda em atividade.
A publicidade é uma arte e uma técnica
que, na sua concepção profissional e moderna, surgiu nos
Estados Unidos e, porisso, tem sofrido a influência dos grandes
fluxos e refluxos da economia americana. Consolidou-se na virada do século,
desapareceu nos anos de depressão e surgiu vitoriosa no período
posterior à Segunda Guerra Mundial, quando gerou fortunas, sofisticou
sua atuação, passou a ser a principal fonte de renda dos
jornais, rádios e televisão.
Adaptadas ao seu tempo, as agências aos poucos
foram substituindo os conceitos de publicidade ou propaganda pelo de comunicação
comercial e, posteriormente, pelas atuais ações de comunicação
integrada. Os atuais níveis de prosperidade da economia americana,
neste período pós Guerra Fria, que foi finalmente vencida
pelos Estados Unidos, determinam novas formas de atuar, novas técnicas
de comunicação e de competição entre os produtos
e novas abordagens para a conquista de mercados.
Isto veio a significar o fim da agência de
propaganda, no seu sentido e na sua forma de organização
tradicional.
A maneira de se comunicar com a sociedade, ou seja,
com o mercado, está sempre de acordo com as características
do momento econômico, histórico e social. O homem, destinatário
final de toda mensagem, publicitária ou não, evolúi
de acordo com o ambiente em que vive. O homem dos dias atuais apresenta
caráter distinto do tipo que o antecedeu na sociedade de massa
da produção massificada. É um consumidor seletivo,
que dá valor às marcas, individualista e desconfiado.
A agência de propaganda tradicional, que fazia
comunicação de massa, é obrigada agora a se comunicar
com este tipo de consumidor que compõe o mercado posterior à
Revolução Industrial e à Guerra Fria.
O mercado divide-se hoje em dezenas de segmentos
com desejos e expectativas diferentes uns dos outros. Um único
argumento de vendas, que era a pedra de toque da propaganda fundamentada
na Unique Selling Proposition, é impotente para mover
segmentos de mercado que reagem de forma distinta a um mesmo produto.
Ao mesmo tempo, surgem mais produtos globalizados,
sustentados por conceitos emocionais e arquiteturas de marca equilibradas
em valores que lhe são agregados por campanhas de comunicação
internacionalizadas.
A agência tradicional está sendo substituida
pelos seus filhotes, um grupo muldisciplinar formado por uma constelação
de empresas voltadas para o objetivo comum. A agência especializada
em mídia, como a de comunicação direta, da mesma
forma que a de promoção, a de eventos ou de consultoria
de marketing são suas sucessoras mas pouco ou nada têm a
ver com a agência de propaganda tal como foi concebida ou com a
forma como trabalhou até agora.