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Jorge Vismara
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Autobiografia da minha morte
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© 1985 Jorge Vismara
Eu bati três vezes. Me lembro bem do
numero três. Não me lembro bem se foi a campainha,
ou se bati na porta diretamente, ou se puxei um cordão do
tipo que fica pendurado do lado de fora da porta, como antigamente.
Eu sentia uma sensação estranha,
até esquisita. Uma sensação nova, diferente,
de leveza e de uma certa temperatura. Um calor que me envolvia por
fora e por dentro. Não era muito quente e sim muito aconchegante.
Era minha nova dimensão, meu novo "corpo", ou o
corpo da minha alma, quer dizer: meu novo estado real. Eu tinha
morrido há algumas horas lá na Terra.
Concentrado-distraido como eu estava neste
meu sentir, não tive tempo ou não me apercebi da porta
se abrindo ... No ar um silêncio de igreja, com aquele ecoar
zumbindo e quebrando o silêncio absoluto. Um ecoar de vozes
murmurando mistérios, murmurando segredos.
Ele abriu a porta, e logo me reconheceu.
- O que tu fazes por aqui meu filho?
- Oi ! (respondi surpreso)
Mesmo sabendo que ia me encontrar com ele
logo logo, não deixou de me surpreender este nosso primeiro
contato.
O mais divertido é que eu fiquei surpreso
ante a surpresa dele de me ver aparecer por ali.
Eu pensava que este pessoal tinha um contrôle
das coisas, uma visão, um domínio dos acontecimentos
muito maior do que depois eu vim saber que era na verdade.
Tudo era novo para mim. Sua voz, seu visual,
o ar que vinha de dentro do Paraíso, perfumado e frio.
- Como veio a acontecer que teu anjo-guia
errou o caminho? Onde é que ele esta?
- Bem, São Pedro ... O anjo-guia, me
indicou qual era o meu caminho, mas ele teve que voltar ... sei
lá, deu um problema na fantasia dele ... na roupa, e eu aproveitei
para passar por aqui. O Senhor vai compreender que eu não
podia deixar de dar uma olhadinha, pelo menos. Eu sempre gostei
de conhecer lugares novos ... o Senhor sabe disso, né?
Me soava estranho trata-lo de 'o Senhor',
eu que muito raramente tratei alguém assim. Mas a atmosfera
toda era de uma certa cerimônia, de um certo formalismo ...
enfim. Afinal de contas eu tinha fugido a regra (como para continuar
com meus costumes terrestres nesta vida etérea), e São
Pedro tinha todo o poder para me dar uma puta bronca, mesmo com
toda a mansidão e todo o carinho de suas palavras.
*** *** ***
A triagem que se faz depois que a pessoa morre,
foi feita com uma lentidão típica de quem tem todo
o tempo do mundo nas mãos. Na fila tinha almas de outras
galáxias. Eu já tinha visto algumas se aproximarem.
Eram almas de cores diferentes, e eu supus que seriam de seres de
outras regiões do espaço, como vim a confirmar depois.
Num determinado ponto íamos nos congregando
as almas, e a gente passava por uns espaços estreitos como
se fossem guiches ou roletas de ônibus. Era ali que se fazia
a identificação. Se os dados estavam certos, e confirmavam
a identidade da alma que estava chegando, ia logo indicada através
de um anjo-guia, para o Paraíso ou para o Inferno.
Curioso, ali nada se falava do Purgatório.
Eu acho que era um departamento lá no Paraíso, mas
disso não posso ter certeza.
Não sei o que aconteceu comigo, mas
eles falharam, porque o anjo-guia não podia ter me deixado
sozinho no meio do caminho. Assim, eu não tive ninguém
para me controlar, ou para continuar me indicando o meu destino
(leia-se Inferno).
*** *** ***
O Inferno ficava num canto mais afastado de
um Universo, que nós enquanto vivos não conhecemos.
Este Grande Universo esta composto não
só daquele que é o real para a gente enquanto estamos
vivos, como de mais dois Universos, ou super Universos. Um, o das
almas, e o outro dos ... como chama-lo ... da administração
de Deus.
Como estava dizendo, o Inferno ficava num
canto bastante isolado, um lugar típico de segunda classe.
Eu já tinha visto uma alma coberta
de brilhos (como se fosse purpurina), rodeada de uma áurea
com pontos também muito brilhantes, de um ton verde que as
almas da terra não tinham. Essa alma pegou um caminho diferente,
e pelo que eu entendi era o caminho do Paraíso. Quando o
anjo-guia me deixou ali no meio, eu dei um pulo até a trilha
dela.
As almas quando trafegam assim no espaço,
vão deixando uma esteira luminosa, que fica acesa por um
tempo. Dali que era muito fácil seguir o rumo delas.
*** *** ***
Mas eu estava contando meu encontro com São
Pedro...
Meu querido leitor, para quem ainda vive,
ou para quem ainda não morreu, tudo isto pode aparecer fantasioso,
cômico, pura invenção ... mas não é
não ! Estou tentando fazer o relato o mais objetivo possível,
o mais desfantasioso, e pouco exagerado. Mas sei que é difícil
de acreditar.
São Pedro, não queria saber
nada de me deixar dar uma olhada lá dentro. Nesse sentido
ele era igualzinho aos burocratas da Terra. Lógico que com
uns lances diferentes, na substancia, e um comportamento 'celestial'
... mas em nada diferente de um empregado publico ligeiramente refinado.
São Pedro acabou transando minha visita
ao Paraíso, mais provavelmente pelo 'approach pessoal', que
seguramente ele não estava acostumado nem preparado para
receber. Ele aceitou a visita também na base da novidade.
Seus regulamentos o impediam de sequer pensar
nesta chance, nesta alternativa. Curiosamente não estava
nem prevista a possibilidade que aparecesse alguém enganado,
e menos ainda alguém que quisesse 'dar uma olhada' no Paraíso.
Concretamente ele não estava transgredindo
nenhum regulamento, só que se supunha que isto não
podia acontecer.
Devo dizer que isto é um caso comun,
das organizações montadas na base da pirâmide,
na qual você tem que prever todas as possibilidades e todos
os erros. Qualquer alternativa diferente que não esteja nas
previsões do sistema, vai dar num "General Error Trap"
(ou seja um erro não identificado). E por conseguinte não
será catalogada dentro dos erros possíveis, e não
será tratada nem solucionada dentro dos parâmetros,
e/ou de acordo com as características do sistema. Terá
que ser resolvida, como bem entenda o Operador local do sistema,
neste caso: São Pedro.
São Pedro abriu a porta como ainda
duvidando se devia o não permitir que a minha curiosidade
fosse saciada.
Se não foi esse o motivo da lentidão
em abrir a porta, deve ter sido só um pouco de suspenso que
ele quis dar ao momento.
*** *** ***
Tive que passar por uns jardins pequenos 'a
la française', para depois chegar num vale de uma luz tênue,
muito suave, ladeado por nuvens impressionantemente brancas (que
nem propaganda de televisão). A cor predominante no ar era
a cor de rosa.
Meu Deus, quanta gente ... digo quantas almas,
que tinha ali ! ! O mais incrível foi a presença de
almas tão diferentes das que eu tinha visto no caminho. Acho
que teria almas de muitos trilhões de anos atras. Muitas
eram compriiiiiiiidas, e fininhas como minhocas ou como linhas de
costura. É isso ai, alguns cantos se pareciam mais com o
costureiro da minha avó, do que com o Paraíso!
A quantidade de almas de crianças era
também enorme.
As almas de adultos mesmo sendo tão
diferentes as imaginadas, dava para 'sacar' a massa com que estavam
feitas: muitos padres, monjas, muita gente de origem pobre e despreparada
até para fazer um pequeno mal, e todo o restante do pessoal
eram CDF de primeira linha.
A maioria andava por baixo. Por cima só
tinha algumas poucas almas espalhadas entre nuvens e céus
bonitos.
Algumas almas eram chatinhas, finas e largas
como uma poça de agua, quase transparentes e com um brilho
elétrico cintilante.
Em geral todo o lugar transmitia uma sensação
de tranquilidade.
Eu não sei quanto tempo fiquei assim,
olhando ... quando de repente estava passando bem perto de mim,
uma alma azul clara com umas pontas que caiam do corpo principal,
como dedos, e com olhos nas pontas deles.
- Ei! (gritei, tentando alcança-la,
e com um nó na garganta de vontade de falar com alguém).
- Sssssssssshhhhhhhhhhhhhhhhh ! ! ! ! (me
diz uma outra alma pequenininha), temos uma hora para falar tudo
o que a gente quer. Depois durante o resto do dia, temos que manter
silêncio, para não alterar a paz do Paraíso
... (neste momento ela me fez um gesto me mostrando uns arbustos,
como querendo que a acompanhasse até ali).
Depois que estivemos bem atras do matinho,
ela me falou naquele mesmo tom de voz de seminário religioso.
- Não falaram isso com V.S. quando
chegou? Ou está chegando agora?
Eu achei impossível explicar a esta
pobre alma todo meu Curriculum, e menos ainda de como eu tinha chegado
até este lugar.
- Olha (ela continuou dizendo sem esperar
minha resposta), é melhor V.S. ir sabendo que aqui é
um lugar de amor, paz, tranquilidade, compreensão, e que
não está permitida nenhuma atividade que altere este
clima. V.S. tem para isso uns quartos, lá embaixo da nuvem
dos perdoados, para você cantar ou gritar, fumar, ver televisão,
etc.
- E tem muitas almas lá? (perguntei
já mais curioso-interessado ...)
- Bom isso eu não sei, os quartos só
dão para uma alma por vez, e eu nunca fui lá. Eu prefiro
dar uma escapada até o Inferno quando São Pedro vai
levar os relatórios, e fica batendo papo com Deus no último
andar do Super Universo.
- Mas aqui o pessoal não fica cantando,
dançando, fazendo amor o tempo todo? (perguntei já
sabendo a resposta ...)
Ela me olhou com uns olhos enormes que davam
a volta pelo seu corpo inteiro ... e como se seu corpo fosse feito
de líquido, entrou por um buraquinho no chão e desapareceu.
E assim fiquei eu, com minhas idéias
borbulhando de perguntas curiosas, pensando no Paraíso que
tinha imaginado, porém vendo o real ...
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