O Último Número
Celso Japiassu
Este livro é dedicado à memória do
poeta Luiz Carlos Guimarães.
Orelha
No seu sexto livro de poemas, Celso
Japiassu prossegue no itinerário delineado desde O
Texto e a Palha: o de uma poesia substantiva, enxuta, que
em nenhum momento faz concessão a uma visão
prosaica da vida ou do fazer poético. Cada vez mais,
sua visão é voltada para o homem com suas culpas
e perplexidades, sua náusea e seu tédio, onde
às vezes cabe o pensamento de que "Deus é
invenção soturna".
Paralelamente a um embate existencial,
o poeta trava uma luta com as palavras. A cada livro, o comedimento
dos versos de Celso Japiassu mais se acentua. E uma autocrítica,
que também é existencial, vai reduzindo o número
de poemas liberados à publicação.
Mas, a despeito do que já disse
Drummond, aquela luta não terá sido "a
mais vã". Este O Último Número,
que reflete o combate do poeta em duas frentes, resulta num
livro primoroso. Amadurecimento a cada verso, que pressupõe
anos de contenção e aprimoramento verbais/existenciais
Nei Leandro de Castro
O Último Número: palavra
de paixão
Eis um poeta que desde o primeiro livro
se revelou senhor dos instrumentos de seu trabalho poético,
impôs uma sensibilidade e dicção próprias,
manuseou com destreza a palavra, aliando a individualidade
à maturidade - a essencialidade da poesia. E só
fez crescer nos volumes subseqüentes, num paciente exercício
de elaboração e revelação poéticas.
Dono de virtualidades que assinalam
a essência do poeta, um patrimônio de poesia,
depois de O Texto e a Palha, Processo Penal, A Legião
dos Suicidas, A Região dos Mitos e o Itinerário
dos Imigrantes, no enfoque dos temas e pela sua escritura,
neste seu sexto livro - O Último Número - Celso
Japiassu não se afastou da linha inicial e confirma
o percurso traçado até agora.
Em Celso Japiassu, o homem e a condição
humana têm sido o tema central de sua poesia. Em particular,
no O Último Número, o mesmo tema é visto
numa angularidade urbana e tão pessoal que o poeta
é o próprio protagonista de sua poesia. Este,
o livro mais bem realizado de Celso Japiassu, do equilíbrio
e madureza, no qual a única concessão que faz
a si mesmo é a do rigor. Nada é epidérmico
porque o corte é profundo, até as entranhas
dos temas que se propõe fotografar/analisar. Acumulação
exigente de quem põe à prova sua sensibilidade
numa experimentação de laboratório -
doída, constante, atenta aos mínimos detalhes.
Exatidão e precisão a que não falta a
emoção que, excluída, pela frieza e dessensibilizaria
e dessangraria sua poesia: enxuta, contida em todos os seus
estágios, talvez seca em alguns momentos, mas nunca
descarnada.
Sua poesia não recorre a ousadias
experimentais: assume a clausura do soneto (Recife e Réquiem)
e exercita com desenvoltura o verso longo de acentos bíblicos
(Salmo) e o verso curto (Natal). Apesar do desnudamento da
linguagem sóbria, de rara precisão vocabular,
talvez por isso mesmo é uma poesia eloqüente no
papel de dizer, sem o apelo a qualquer pretensão retórica.
Depuração em que a linguagem é escolhida,
palavra a palavra, ganhando tão somente a poesia pela
sua intensidade de significação.
Antes, ao afirmar que o poeta personifica
seu próprio papel, quis dizer que ele se inclui no
mundo numa participação consciente e sofrida
da realidade, vivenciando e questionando "o caos e a
discórdia emoldurando/ o traço interior de uma
pergunta/ sobre a dor de viver e existir", segundo suas
próprias palavras. E mais: a angústia, a solidão
dos vivos, a perecida esperança - a sua dura verdade
numa "tarde alimentada de insalubres ventos."
Ao contrário do poeta que se
distancia do poema, que se desliga da poesia como se fosse
apenas um espectador, no tratamento dado aos temas, Celso
Japiassu se projeta em quase todos eles na primeira pessoa,
revelando seu envolvimento como protagonista. Integra o poema
com uma participação total, e tão completo
é o seu envolvimento que protagoniza o tempo, o espaço,
a ação, a narrativa e a memória do poema.
Um breve mapeamento dos poemas do livro, demonstra essa situação:
1. Salmo - "Estou sentindo"...
"Não reconheço"... "Tenho permanecido"...
"Penso que Deus é invenção soturna...
2. Réquiem - "O soneto de
Augusto me arrepia e enternece".
3. Ruídos - "Guardei no
pensamento uma palavra".
4. Recife - "Lembrança que
a memória digeria". A memória do poeta,
evidentemente, que o poema é uma evocação
do Recife.
5. Ezra, louco - Foge um pouco à
regra, mas se vincula à sua visão pessoal de
um momento trágico e pungente do grande poeta norte-americano.
6. Escrita - "Escrevo"...
7. Tempo - "...aqui me deito, me
alimento, me comovo"...
8. Sonho - Embora não use a primeira
pessoa, o sonho é do poeta.
9. Natal 1 e 2 - Da mesma forma que
o poema anterior, aparentemente desligado do ego do poeta,
ressalta a projeção do Natal numa interpretação
muito particular e pessoal.
Em Natal 2, a referência à data, o ano de 1985,
representa uma alusão de evidência ao autor do
poema declarada no verso: "Entenderemos o pranto do recém-nascido".
10. Um Número - O tom de constante
evocação recua à infância do poeta.
11. Visita - Apesar da construção,
em que o visitante está oculto, em que o poema busca
a neutralidade, basta que se acrescente, na primeira pessoa,
o verbo que corresponda ao sentido dos versos, que se esclarecerá
o protagonista do poema.
12. Dezembro - Este é o poema
mais pessoal do livro, pois localizado e datado, até.
13. Cântico - Poema de amor e
amizade. Oferenda na qual falta apenas a dedicatória.
14. Vana Verba e Visita 2, que concluem
o livro, na mesma linha do poema anterior.
Na poesia de Celso Japiassu nada é
acessório; na construção do verso todo
vocábulo empenha-se numa atuação principal
pela carga de exatidão, de significado não só
no verso, como no todo, no corpo do poema. Não quer
dizer pesquisa de linguagem no sentido de contribuição
formal, mas uma escolha vocabular para alcançar precisão
no que pretende expressar o poema - em benefício, obviamente,
de sua clareza e objetividade, ou seja, a integração
da linguagem aos temas.
Talvez aquilo que o índio colombiano
entende ser a poesia: "o lugar em que as palavras se
encontram pela primeira vez", citado pelo poeta Octavio
Paz. No sentido de que a palavra, como instrumento da poesia,
está inserida no poema como se estivesse sendo dita
pela primeira vez, com a força de expressão
original.
Este é um livro de paixão
contida, em que o sentimento não se exacerba, não
transborda as margens do poema, circunscritas ao essencial.
Poesia personalizante, portanto, que não se dispersa
em acentos poucos individuais. Sua marca é a individualidade,
que não tem entretons e se afirma áspera e secamente.
Luiz Carlos Guimarães
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Leia resenha de Rodrigo
Souza Leão .
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" Bradei: que fazes
ainda no meu crânio?
E o Último Número, atro e subterrâneo,
parecia dizer-me: é tarde amigo.
Pois que a minha ontogênica
Grandeza
nunca vibrou na tua língua presa,
não te abandono mais. Morro contigo. "
(A. dos Anjos)
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Salmo
Estou sentado numa praça à
espera do Senhor.
Ele está atrasado e dos bancos em que se sentam os
ricos
caem migalhas de pão que é o seu corpo.
Falta vinho, que é o seu sangue,
mas o vinho não falta em suas ceias.
É longa a espera, como longos
têm sido os dias
em que tento me mover no trançados dos espinhos
ou na cruz que me tem pregado.
Não há fuga quando as amarras se misturam
aos braços, às pernas e no pensamento.
Não reconheço este sítio
onde espero
e observo a fartura em outros bancos
eu faminto, insone, o corpo exibindo suas chagas,
a alma em busca de algo extinto
nas escadarias dos templos visitados.
Tenho permanecido na vizinhança
das árvores
porém longe das sombras ocupadas.
Divido água e comida com os bichos.
À noite, penso que Deus é invenção
soturna,
como os pássaros que cercam este lugar.
Um Número
I
Um poema sem metáforas agudas,
com náusea e tédio, indefinido,
capaz de enxergar nos próprios versos
o mistério existente nas palavras.
Perseguição de formas anacrônicas,
soneto estéril, mutações de ritmo
cuspindo imagens, nexos opacos
ferindo inutilmente a folha branca.
Dilacerados sons. Ecos de outros
sons plantados na memória
estiolada de aflições antigas.
Marcado a indecisão, pleno
de vocábulos criados nos escombros
de palavras mudas.
II
Um número cercado
pelos lados, na fronteira
existente nestas cercanias
de tempo e de lugar, de desejos
para sempre reprimidos.
Existirá neste momento,
na exata procura dos limites
onde se encontra a febre
das sezões enfurecidas,
quando as almas das crianças
são habitações do medo.
Réquiem
Madrugada de 13 de janeiro.
O soneto de Augusto me arrepia
e me enternece como se escrever
fosse arte assim ausente e inesperada.
Despejo sentimentos. Sua forma
vai crescendo e crescendo e se acumula
no centro dos sentidos, na tensão
das coisas que são feitas em delírio.
Os mortos junto a nós existirão
como o pai que morreu, amigos mortos,
a solidão tão próxima dos vivos.
Existirão na ausência para
sempre,
na forma dos seus corpos, nos seus passos,
no enorme peso sobre as nossas almas.
Ruídos
A esperança perecera e nada havia
no horizonte
a não ser bruma e lodo, estilhaços perdidos
em paisagens espremidas entre os muros.
Alucinações decalcadas de frutos
perseguiam rastros de pardais,
pássaros urbanos sobrevoando os monturos.
Cedo nos despimos de nossa nostalgia
e o tédio de existir nos relembrava
a sede, mais que fome; o ódio mais que a espera.
Guardei no pensamento uma palavra
que nada nos dizia e sempre a repetia
como um carrossel girando em rolamentos.
As palavras são ruídos,
com pedras atiradas
que se chocam e sons que se propagam
no âmbito de quadros carentes de harmonia.
Misturam-se com as cores desenhadas
no caos de tons noturnos, na configuração
dos espaços violentamente limitados.
Recife
Não havia coral naquelas pedras
nem memória querendo aqueles tempos.
Persistia no entanto a brisa morna
redesenhando as praias do Recife.
E existia além disso o pensamento,
o caos e a discórdia emoldurando
o traço interior de uma pergunta
sobre a dor de viver e de existir.
Lembrança que a memória
digeria
próxima dos limites da agonia
que mergulha no sono os afogados.
Eram assim os gestos, as palavras
pronunciadas no Capibaribe,
pelas margens de lama enegrecidas.
Ezra, louco
Ezra, numa jaula como um bicho,
silencioso e com o olhar dos loucos,
não pôde exorcizar suas idéias.
Comeu fezes misturadas à urina,
balbuciou o som de uma poesia,
engoliu saliva e pensamento.
O próprio pensamento, uma comida.
Julgando-se lúcido como um deus
e perdido para sempre em desespero
como um homem se perde e se constrói.
A nos mostrar como é dúbia a natureza,
comol silêncio e grito se confundem.
Em sua cama, em seus chinelos,
no seu pijama sujo, nos ossos
sob a pele branca e machucada,
reflexões na bruma da loucura,
investigações no fundo das palavras
que permanecerão desconhecidas.
Vaiada, imunda, dilacerada alma
dos poetas fugitivos da poesia.
Não entendeu por que sangrava
nem de morte e solidão.
As palavras, sim, compreendia:
a sua força, tumulto, imensidão.
Escrita
Escrevo. O pensamento rompe seus limites,
o pensamento se transforma
em sua própria intensidade.
Um fio toca os dedos e ameaça
desfazer-se a cada instante
como simples gotas d'água.
Um gesto era sereno e de repente
dínamos girando enlouquecidos
provocam sons e energia
retirados da náusea, do sono,
da matéria dos ventos.
Cânticos recolhem seus triunfos
no triturar de cascos de animais.
Objetos ocultam sua música
na harmonia de sentidos
para sempre adormecidos.
Tempo
Há diversidade de pedras
que se juntam, se amalgamam
na criação de muros, montes
e cercaduras neste campo.
Não há plantas, apenas
frutos
que já foram verdes ou maduros
e que, podres, se misturam
ao pó levantado pelo vento.
E o vento é morno, salpicado
e estranhamente úmido no sopro
que apresenta e se avoluma
neste silêncio amplo e pegajoso.
As construções que existem
soltas, solitárias,
têm formato de túmulos,
pequenas catedrais de gesso.
Neste campo, cemitério ou plantação
crestada pelo tempo e pelas pragas,
aqui me deito, me alimento, me comovo,
compreendo seus sinais e a nossa sina.
Sonho
Esperada e tão ausente
esta obscura e abstrata forma.
Claridade esgrimindo a escuridão dos dias,
tarde alimentada de insalubres ventos.
Nestes cantos, tediosos prantos
de prostitutas cegas e o lamento
de crianças brancas como a fome
e o medo brotando em suas almas.
Visões de mortos esquecidos,
sua face e sua vida interminavelmente
crescem sobre as heras, hospitais,
na memória para sempre enlouquecida
Cidades, ruas, casas habitadas,
ridículos instantes de soluços
juntam-se todos numa gosma
imunda, amarela e entorpecida.
Natal
Noite. Em suas brumas
percorres tuas feridas,
o sal e o fel que se misturam
ao sangue em tua boca.
Tanges com os olhos
tanta luz e a mesa farta,
o reviver de abraços
em redor dos pratos.
Na vertente desta noite:
no reluzir dos dentes,
no crispar de dedos que se afundam
na pele do teu rosto;
na morada dos soluços,
na terceira queda
sobre as pedras da calçada,
nos esgotos.
Árvores de frutos podres
onde encostas a fronte
e sentes o suor
de um corpo em queda
mergulhando nesta noite.
Visita
Um silêncio de chumbo
pesando sobre um chão de vidro.
Uma gota de sêmen
inseminando a terra
interminavelmente. Um grito
que vem do fundo dos abismos.
Heras ressequidas
nas paredes de uma casa velha.
Paredes manchadas com impressões
de dedos de crianças mortas,
manchadas pelo mijo
de animais antigos.
Os cânticos também emudeceram
e seus ecos repercutem
na memória dos homens.
À noite, a carcaça dos bichos
reflete seus instintos,
o seu cheiro e a sua carne.
Há cegos tateando os muros
na busca de entender
por que dói a claridade
e as crianças choram.
Por que seu pranto
é tanto e tão convulso.
Tantos são os sons
na madrugada desta noite
escura, fria, atribulada.
Tantas as palavras nuas
com seu sentido estreito
escrito no vazio.
Natal
Um acesso de pranto cerca a vida
no momento em que a criança nasce
para o sacrifício dos dias.
O sono do qual acorda
leito de palha, pasto de animais -
despertará também neste Natal.
Não para a festa de guirlandas,
das vitrines de alabastro
e neve de algodão.
É uma criança de face
e expressão perdidas,
lembradas apenas nos escritos.
Na memória dos feridos,
no pesadelo dos mudos
e no olhar dos perseguidos.
Esperança. Palavra repetida,
proclamada nos ritos,
nas igrejas e comícios.
Pouco proferida no dezembro
do calendário dos anos: mil
novecentos e oitenta e cinco.
Uma vez ainda no Natal,
tão próximo da morte e da Paixão,
a memória e o tempo se confundem.
Mas encontram-se nas ruas,
no asfalto das cidades,
na chama das velas de eletricidade.
Entenderemos o pranto do recém-nascido,
perscrutaremos o olhar de espanto e medo
com esta palavra traduzindo tudo.
Dezembro
Quando nossos olhares se encontraram,
na ensolarada manhã de Copacabana,
raiavam os anos oitenta e estávamos os dois
na casa dos quarenta.
Íamos para o trabalho em nossos automóveis do
ano,
de janelas fechadas porque vivíamos numa cidade violenta.
Nossa maneira de olhar mostrava que há algum tempo
perdêramos a esperança.
O minuto foi breve, durou apenas o vermelho
do sinal de trânsito.
O sorriso que rasgou os nossos lábios
transformou-se de repente: viramos a cabeça
envergonhados - do sorriso, do olhar
e da manhã que nos surpreendia.
Cântico
Os cânticos vieram divididos
em graves e serenos. Tomaram seu lugar
em nossa mente, nos jardins,
na planície aberta à ventania.
Poucas revelações se acrescentaram
ao pouco que sabias.
À tua volta, em volta à tua vida,
uma semente germinada sangra.
Vana Verba
Nada se repete e quando o faz
o seu sentido
perde-se na bruma.
Haverá sempre uma palavra silente
sobre as coisas ditas,
uma palavra candente
sobre as coisas ditas,
sobre o silêncio repetido.
E nada é repetido. Nada é
visto
nas savanas, nos horizontes longínquos,
nas planícies que enchem o pensamento
do homem, seu desejo e sua sina.
Somente a carga de sentidos
camuflados em sentidos,
em sensações perversas
castigadas pela sombra de vogais
que se erguem escondidas.
Estes disfarces refletidos
destacam sua própria semelhança
com segredos nunca revelados.
Repousam no som dos nossos gritos,
no ritmo louco, atropelado, engasgando palavras
e palavras nunca ditas, mudas como um chão de vidro.
Visita
Homens e mulheres que foram meus amigos
penetram no meu sono.
Estão mais jovens do que eram
na hora de sua morte.
Têm o mesmo rosto de quando
havia futuro nos seus dias.
Esses mortos foram meus amigos.
Conheço-os pelo nome, conheci suas almas
e o ritmo dos seus passos.
Agora eles penetram silenciosamente
no meu sono.
Trazem algum mistério
que desperta e me convida
para um sono maior e mais profundo.
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