Três poetas, o amor e o tempo
Pour Hélène
Quand vous serez bien vieille, au soir
à la chandelle,
Assise auprès du feu, devidant e filant,
Direz chantant mês vers, em vous esmerveillant:
"Ronsard me celebroit du temps que j'estois belle."
Lors vous n'auray servant oyant telle
nouvelle,
Desja sous le labeur à demy sommeillant,
Qui au bruit de mon nom ne s'aille resveillant,
Benissant vostre nom de louange immortelle.
Je seray sous la terre, et fantôme
sans os
Par lês ombres myrteux je prendray mon repôs;
Vous serez au foyer une vielle accroupie,
Regrettant mon amour et vostre fier desdain,
Vivez, si m'en croyez, n'attendez à demain:
Cueillez dês aujourdhuy lês roses de la vie
Pierre de Ronsard
Soneto a Helena
Quando fores bem velha, à noite, á
luz da vela
Junto ao fogo do lar, dobando o fio e fiando,
Dirás, ao recitar meus versos e pasmando:
Ronsard me celebrou no tempo em que fui bela.
E entre as servas então não ha de haver aquela
Que, já sob o labor do dia dormitando,
Se o meu nome escutar não vá logo acordando
E abençoando o esplendor que o teu nome revela.
Sob a terra eu irei, fantasma silencioso,
Entre as sombras sem fim procurando repouso:
E em tua casa irás, velhinha combalida,
Chorando o meu amor e o teu cruel desdém.
Vive sem esperar pelo dia que vem;
Colhe hoje, desde já, colhe as rosas da vida.
(Ronsard,
tradução de Guilherme de Almeida).
When You are Old
When you are old and grey and full of sleep,
Ad nodding by the fire, take down this book,
And slowly read, and dream of the soft look
Your eyes had once, and of their shadows deep
How many loved your moments of glad grace,
And loved your beauty with love false or true,
But one man loved the pilgrim soul in you,
And loved the sorrows of your changing face;
And bending down beside the glowing bars,
Murmur, a little sadly, how Love fled
And paced upon the mountains overhead
And hid his face amid a crowd of stars.
William
Butler Yeats
Quando Fores Velha
Quando já fores velha, e grisalha, e com
sono,
Pega este livro: junto ao fogo, a cabecear,
Lê com calma; e com os olhos de profundas sombras
Sonha, sonha com o teu antigo e suave olhar.
Muitos amaram-te horas de alegria e graça,
Com amor sincero ou falso amaram-te a beleza;
Só um, amando-te a alma peregrina em ti,
De teu rosto a mudar amou cada tristeza.
E curvando-te junto à grade incandescente,
Murmura com amargura como o amor fugiu
E caminhou montanha acima, a subir sempre,
E o rosto em multidão de estrelas encobriu.
(W.
B. Yeats, tradução de Péricles Eugênio
da Silva Ramos).
Paulo
Maldonado
quando velha
Paulo
Maldonado
quando velha, dia e noite diante da tv,
indiferente à matéria das coisas reais
(tudo era e não é mais) e às 1001 fêmeas
encantadoras, como você foi para tantos
mas à vera só eu fruí, recorda: em vigília
ou sono sonha o nosso imenso amor e sexo
e maldiga a lei da gravidade, cedo e tarde
a todos ela atrai e abate; caduque e nunca
afague, dedos bambos, a juventude esfuziante
lembra cada um de nós dois em minudências:
o que somos, fomos e perdemos; com raiva
até a ira - única seiva renovada na velhice
(voltar ao topo)