Os mistérios da comunicação. Por Claudio José Lopes Rodrigues.

Odylo, uma poesia. Por Celso Japiassu.

Discurso de Vargas Llosa no Prêmio Nobel. de Literatura.

Novos poemas de Carlos Alberto Jales.

Poemas de Sylvia Beirute.

A tarde, no futuro. De Celso Japiassu.

5 poemas de Carlos Alberto Jales.

A silhueta. De Celso Japiassu.

Réquiem sem música. De Edna St. Vincent Millay.

Retorno. De Celso Japiassu.

Um traço desenhado pelo vento. De Celso Japiassu.

O morto. Por Carlos Alberto Jales.

Sonha, de Celso Japiassu.

A crônica nossa de cada dia. Por Maria das Graças Targino.

Vidas, de Celso Japiassu.

Copacabana: poemas reunidos. De Celso Japiassu.

A menina que roubava livos. Por Maria das Graças Targino.

Dezessete Poemas Noturnos. Celso Japiassu

20 contos curtos de Paulo Maldonado.

O Itinerário dos Emigrantes, de CelsoJapiassu.

4 Poemas de Carlos Alberto Jales.

O Último Número, de Celso Japiassu.

Um poema de Rodrigo Souza Leão: Clarice Chopin.

Infância. De Paulo Mendes Campos.

Talento não é direito divino. Por Aline Santos.

Quatro novos poemas de Carlos Alberto Jales.

A morte de um pensador. Por Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu: entrevista sobre o novo livro.

Quem será o tal Nonô? Crônica do novo livro de Moacir Japiassu.

As Pelejas de Ojuara, entrevista com Nei Leandro de Castro.

Os Horrores do Mundo. Por Clemente Rosas Ribeiro.

Alguns poemas de Carlos Alberto Jales.

Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro: Quando Alegre Partiste.

O Evangelho segundo Jesus Cristo. Por Maria das Graças Targino.

Beócio, mentecapto e troglodita. Por Cláudio José Lopes Rodrigues.

Memórias do nosso tempo: De poetas, estrelas e flores. Por Clemente Rosas.

Dois contos do carnaval. Ângela Belmiro.

Obrigado, Quintanilha. Conto de Paulo Maldonado.

Um poema de Antonio Cisneros.

Cristo diante de Pilatos. Por Eça de Queiroz.

Poemas traduzidos: poetas de todos os tempos e lugares.

O Silêncio do Delator, de José Nêumanne.

As Dunas Vermelhas, de Nei Leandro de Castro. Resenha de Moacy Cirne.

Três poetas, o amor e o tempo.

Equívocos literários: poemas falsos de Brecht, Borges e Garcia Marquez.

Seis novos poemas de Nei Leandro de Castro.

Especial para Uma Coisa e Outra:Borges e seus mistérios, ensaio de José Nêumanne Pinto.

Como uivar para a lua sem a menor possibilidade de estrelas. Antonio Torres.

Alguns poemas de Fabricio Carpinejar.

Cinco céus. Franklin Alves.

Franklin Alves. Novos poemas.

As supresas do novo romance de Moacir Japiassu, por Nei Duclós.

Ode ao Fígado, de Pablo Neruda.

Entrevista: Moacir Japiassu fala sobre seu novo livro.

A biblioteca da literatura mundial.

O Parque, de Carlos Tavares.

Corpo. Conto de Rui Alão.

Notas de um antropólogo cansado, por Rui Alão.

Voltas em volta dos contratos de amor, de Pedro Galvão.

Corpo invisível, poema de Carlos Tavares.

Quando a cidade faz esquina com a escrita. Antonio Torres.

Dois contos de Paulo Maldonado.

Prelúdio a Conessa. Conto inédito de Carlos Tavares

Outros poemas de Marilda Soares.

O Farol e a Ilha, conto inédito de Carlos Tavares.

Poemas inéditos de Marilda Soares.

Adagio Negro, um conto de Carlos Tavares.

Marcos de Castro e A Santa do Cabaré.

Almandrade: um poema visual e quatro poemas escritos.

Literatura polonesa: um classico de Boleslaw Prus, numa tradução de Ruy Bello.

Em tradução de Sebastião Uchoa Leite, um velho (novo) poema de François Villon.

O que fazer diante de tantos livros que teríamos de ler. Gabriel Zaid.

Poemas de Moacy Cirne, poeta e cangaceiro.

Dois contos do poeta R. Leontino Filho.

Leontino Filho: Cinco Poemas.

Erotismo e paixão: Cinco Sentidos, conto de Helena Barreto.

A Retratista, conto de Bill Falcão.

Poemas de Silvana Guimarães.

A orelha de A Santa do Cabaré, por Fábio Lucas.

Fotopoemas de Niterói. Luís Sérgio dos Santos.

O Olhar de Borges, Livro dos Amores. Poemas de Jaime Vaz Brasil.

Poemas de Eric Ponty.

Poemas de Ana Merij.

A Absolvição das Formigas. Eduardo Ramos, à moda de José Saramago .

Quanta confusão fazem em teu nome, poesia. Paulo Maldonado.

Na espera do amanhã, por Affonso Romano de Sant'Anna

O pior livro de todos os tempos, por Sergio Jedi

Três poetas de língua espanhola. Traduções e notas de Anibal Beça.

Anibal Beça, poeta amazônico: apresentação e a Suíte para os Habitantes da Noite.

Autobiografia da minha morte, por Jorge Vismara.

Os homens amam a guerra. Belíssimo poema de Affonso Romano
de Sant'Anna com traduções de
Fred Ellison e Nahuel Santana.

.

Aqui estão alguns poemas traduzidos. Pequena amostra de diferentes poetas, diferentes países e diferentes épocas. Um deles não está sequer traduzido - um pequeno poema de Luiz Cernuda, tão intenso em sua língua original, o castelhano que, traduzido para o português, certamente perderia muito de sua expressão e intensidade. São, portanto 13 poemas traduzidos, menos um.
(Celso Japiassu)

 

Os Portadores de Sonhos


Gioconda Belli


Em todas as profecias

está prevista a destruição do mundo.

Todas as  profecias dizem

que o homem criará sua própria destruição.

Porem os séculos e a vida que sempre se renovam

criariam também uma geração de amantes

e sonhadores;

homens e mulheres que não sonharam com a

destruição do mundo,

e sim com a construção do mundo das mariposas

e dos rouxinóis.

Desde pequeninos vinham marcados pelo amor.

Por trás de sua aparência cotidiana

guardavam a ternura e o sol da meia-noite.

Suas mães os encontraram chorando

por um pássaro morto

e mais tarde muitos foram encontrados

mortos como pássaros.

Estes seres coabitaram com mulheres translúcidas

e elas ficaram prenhes de mel e de filhos reverdecidos

por um inverno de carícias.

Foi assim que proliferaram no mundo os portadores

de sonhos,

atacados ferozmente pelos portadores de profecias

que falavam

de catástrofes.

Foram chamados iludidos, românticos, pensadores de

utopias,

disseram que suas palavras eram velhas

-e de fato eram porque a memória do paraíso

é antiga

no coração do homem -

os acumuladores de riquezas os temiam

e lançavam seus exércitos contra eles,

mas os portadores de sonhos faziam amor

todas as noites

e do seu ventre brotava a semente

que não somente portava sonhos mas que os

multiplicavam

e os fazia correr e falar.

E assim o mundo criou de novo a sua vida

da mesma forma que havia criado os que inventaram

a maneira

de apagar o sol.

Os portadores de sonhos sobreviveram aos

 climas  gélidos

e nos climas quentes pareciam brotar por

geração espontânea.

Quem sabe as palmeiras, os céus azuis, as chuvas

torrenciais

tiveram a ver com isso,

a verdade é que, como formiguinhas operárias

estes espécimes não deixavam de sonhar e construir

mundos formosos,

mundo de irmãos, de homens e mulheres que se

chamavam companheiros,

que se ensinavam a ler uns aos outros, consolavam-se

diante da morte,

se curavam e se cuidavam entre si,

se ajudavam

na arte de querer e na defesa da felicidade.

Eram felizes em seu mundo de açúcar e de vento

e de todas as partes vinha gente impregnar-se de alento

e de suas claras percepções

e de lá partiam os que os haviam

conhecido

portando sonhos,

sonhando com novas profecias

que falavam de tempos de mariposas e rouxinóis,

onde o mundo não haveria de findar na

hecatombe

mas onde os cientistas desenhariam

fontes, jardins, brinquedos surpreendentes

para fazer mais gostosa a felicidade do homem.

São perigosos - imprimiam as grandes rotativas

São perigosos - diziam os presidentes em seus discursos

São perigosos - murmuravam os artífices da guerra

Devem ser destruídos - imprimiam as grandes rotativas

 Devem ser destruídos - diziam os presidentes em seus discursos

Devem ser destruídos - murmuravam os artífices da guerra.

Os portadores de sonhos conheciam seu poder

e porisso nada achavam de estranho

E sabiam também que a vida os havia criado

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam

E por isso defendiam sua vida até a morte

E por isso cultivavam os jardins de sonhos

e os exportavam com grandes laços coloridos

e os profetas obscuros passavam noites

e dias inteiros

vigiando as passagens e os caminhos

procurando essas cargas perigosas

que nunca conseguiram encontrar

porque quem não tem olhos para sonhar

não enxerga os sonhos nem de dia, nem de noite.

 

E no mundo sucedeu um grande tráfico

de sonhos

que os traficantes da morte não podiam estancar;

em todas as partes há pacotes com laços de fita

que só esta nova raça de homens pode ver

e a semente destes sonhos não se pode detectar

porque está envolta em corações vermelhos

ou em amplos vestidos de maternidade

onde pezinhos sonhadores sapateiam nos ventres

que os carregam.

Dizem que a terra depois de os haver parido

desencadeou um céu de arco-íris

e soprou de fecundidade as raízes das árvores.

Nós sabemos que os vimos

Sabemos que a vida os criou

para proteger-se da morte que as profecias

anunciam.

(trad. Celso Japiassu)

 

 

Pablo Neruda

Traduções de Ari Roitman e Paulina Wacht

POEMA 15

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente,

e me ouves de longe, e minha voz não te toca.

Parece que teus olhos houvessem saltado

e parece que um beijo fechara a tua boca.

Como todas as coisas estão cheias de minh'alma

emerges das coisas cheia de alma, a minha.

Borboleta de sonho, tu pareces com minh'alma,

como pareces com a palavra melancolia.

Gosto de ti quando calas e estás como distante.

E estás como a queixar-te, borboleta em arrulho.

E me ouves de longe, e minha voz não te alcança:

permite que eu me cale com teu silêncio agudo.

Permite que eu te fale também com o teu silêncio

claro como uma lâmpada e simples como um elo.

Tu és como a noite, calada e constelada.

Teu silêncio é de estrela, afastado e singelo.

Gosto de ti quando calas porque estás como ausente.

Distante e dolorosa como se estivesses morta.

Uma palavra, então, um sorriso são o bastante.

E fico alegre, alegre porque a verdade é outra.

POEMA 20

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Escrever por exemplo: "A noite está estrelada,

E tiritam, azuis, os astros à distância."

O vento da noite circula no céu e canta.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Eu a amei, e ela às vezes também a mim.

Em noites como esta eu a tive entre meus braços.

Tantas vezes a beijei sob o céu infinito.

Ela me amou, e eu às vezes também a amava.

Como não amar aqueles grandes olhos fixos.

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.

Pensar que não a tenho. Sentir que está perdida.

Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.

E o verso cai na alma como orvalho no capim.

Não importa que meu amor não pudesse mantê-la.

A noite é estrelada e ela não está comigo.

Isso é tudo. Ao longe alguém canta. Lá ao longe.

Minh'alma não se conforma com tê-la perdido.

Tentando trazê-la meu olhar a procura.

Meu coração a procura e ela não está comigo.

A mesma noite faz branquear as mesmas árvores.

Já não somos os mesmos de antes, admito.

Eu já não a amo, certo, mas quanto a amei.

Minha voz buscava o vento para atingir seu ouvido.

De outro. Será de outro. Como antes dos meus beijos.

Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.

Já não a amo, certo, mas talvez a ame.

É tão curto o amor, e é tão longo o olvido.

Porque em noites como esta eu a tive entre meus braços,

minh'alma não se conforma com tê-la perdido.

Ainda que esta seja a última dor que ela me causa,

e estes sejam os últimos versos que lhe dedico.


Esperando os bárbaros
(Konstantinos Kaváfis)

O que esperamos na ágora reunidos?

É' que os bárbaros chegam hoje.

Por que tanta apatia no senado?

Os senadores não legislam mais?

É que os bárbaros chegam hoje.

Que leis hão de fazer os senadores?

Os bárbaros que chegam as farão.

Por que o imperador se ergueu tão cedo

e de coroa solene se assentou

em seu trono, à porta magna da cidade?

É   que os bárbaros chegam hoje.

O nosso imperador conta saudar

o chefe deles. Tem pronto para dar-lhe

um pergaminho no qual estão escritos

muitos nomes e títulos.

Por que hoje os dois cônsules e os pretores

usam togas de púrpura, bordadas,

e pulseiras com grandes ametistas

e anéis com tais brilhantes e esmeraldas?

Por que hoje empunham bastões tão preciosos

de ouro e prata finamente cravejados?

É que os bárbaros chegam hoje,

tais coisas os deslumbram.

Por que não vêm os dignos oradores

derramar o seu verbo como sempre?

É que os bárbaros chegam hoje

e os aborrecem arengas, eloqüências.

Por que subitamente esta inquietude?

(Que seriedade nas fisionomias!)

Por que tão rápido as ruas se esvaziam

e todos voltam para casa preocupados?

Porque é já noite, os bárbaros não vêm

e gente recém-chegada das fronteiras

diz que não ha mais bárbaros.

Sem bárbaros o que será de nós?

Ah! eles eram uma solução.


(trad. José PauloPaes)

 

BALADA DO CONCURSO DE BLOIS

 

François Villon


Morro de sede quase ao pé da fonte,
Quente qual fogo, mas batendo os dentes;
Em meu país vivo além do Horizonte;
Junto a um braseiro tremo e fico ardente;
Nu como um verme. O traje: um presidente;
Rio no pranto e espero sem esperança;
Conforto acho na desesperança,
E alegro-me sem ter prazer algum;
tenho o poder sem força ou segurança;
E sou bem vindo a todos e a nenhum.

Só me é certo algo com que eu não conte;
nada é obscuro, exceto o que é evidente;
E sem dúvidas, fora as que defronte,
Tomo a ciência por mero acidente;
Conquisto tudo e fico dependente
Digo "Boa noite" se a aurora avança;
Deito-me sem controle em confiança;
Tenho alguns bens, mas sem vintém algum;
Sou um herdeiro mas serm ter herança,
E sou bem-vindo a todos e a nenhum

Descuido-me de tudo e suo a fronte
Para ter bens, sem ter um pretendente;
Com quem mais me afague, me confronte,
Quem mais me é veraz é quem mais mente;
É meu amigo que diz procedente
De um cisne alvo e um corvo a semelhança;
Em quem me nega enxergo uma aliança;
A patranha e a verdade acho comum;
recordo tudo sem a menor lembrança
E sou bem-vindo a todos e a nenhum.

Príncipe brando: se isso não vos cansa,
De tudo eu sei, e a mente não alcança;
Sou faccioso e sigo a lei comum.
Que faço? o Quê? dos meus bens a cobrança,
E sou bem-vindo a todos e a nenhum.


(trad. Sebastião Uchoa Leite)

 



De Ernesto Cardinal

Ao perder a ti, tu e eu perdemos.
Eu, porque tu eras o que eu mais amava
E tu, porque eu era o que te amava mais
Contudo, de nós dois, tu perdeste mais do que eu
Porque eu poderia amar a outra como amava a ti
Mas a ti não te amarão como te amava eu.
(trad. Celso Japiassu)




Soneto de Arvers

Tenho na alma um segredo e um mistério na vida:
Um amor que nasceu, eterno, num momento.
É sem remédio a dor; trago-a pois escondida,
E aquela que a causou nem sabe o meu tormento.

 
Por ela hei de passar, sombra inapercebida,
Sempre a seu lado mas num triste isolamento,
E chegarei ao fim da existência esquecida
Sem nada ousar pedir e sem um só lamento

 
E ela, que entanto Deus fez terna e complacente,
Há de, por seu caminho, ir surda e indiferente
Ao murmúrio de amor que sempre a seguirá.

 
A um austero dever piedosamente presa,
Ela dirá lendo estes versos, com certeza:
"Que mulher será esta?" - e não compreenderá.
(trad. Guilherme de Almeida)



(De Luiz Cernuda)

Gracias, compañero, gracias
Por el ejemplo. Gracias porque me dices
Que el hombre es noble.
Nada importa que tan pocos lo sean:
Uno, uno tan solo basta
Como testigo irrefutable

De toda la nobleza humana.

 



Poema de Amor número 20


(Pablo Neruda)

Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Escrever, por exemplo: “A noite está estrelada”,
e tiritam, azuis, os astros, à distância".
O vento da noite gira no céu e canta.
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Eu a quis e às vezes ela também me quis.
Nas noites como esta a tive entre meus braços.
Beijei-a tantas vezes sob este céu infinito.
Ela me quis, às vezes eu também a queria.
Como deixar de amar seus grandes olhos fixos?
Posso escrever os versos mais tristes esta noite.
Pensar que não a tenho. Sentir que a perdi.
Ouvir a noite imensa, mais imensa sem ela.
E o verso cai na alma como no pasto o rocio.
Que importa que meu amor não pudesse guardá-la.
A noite está estrelada e ela não está comigo.
Isso é tudo. À distância, alguém canta. À distância.
Minha alma não se conforma com havê-la perdido.
Como para encontrá-la meu olhar a procura.
Meu coração a procura e ela não está comigo.
A mesma noite que faz brancas as mesmas árvores.
E nós, os de então, já não somos os mesmos.
Já não a quero, é certo, porém quanto a quis.
Minha voz buscava o vento para tocar seu ouvido.
De outro. Será de outro. Como antes de meus beijos.
Sua voz, seu corpo claro. Seus olhos infinitos.
Já não a quero, é certo, porém talvez a queira.
É tão curto o amor e tão grande o esquecimento.
Porque em noites como esta a tive entre meus braços,
minha alma não se conforma com havê-la perdido.
Ainda que seja esta a última dor que ela me causa
e estes os últimos versos que lhe tenha escrito.


(trad. Domingos Carvalho da Silva)





Oração para Marilyn Monroe

(Ernesto Cardenal)

Senhor

recebe esta moça conhecida em toda a terra pelo nome

de Marilyn Monroe

ainda que este não seja o seu nome verdadeiro

(mas Tu conheces o seu nome verdadeiro, o da pequena orfã).

violentada aos 9 anos,

a empregadinha de loja que quis se matar aos 16

e agora se apresenta diante de Ti sem nenhuma maquilagem

Sem seu Agente de Imprensa

Sem fotógrafos e sem assinar autógrafos

sozinha como um astronauta diante da noite espacial.

Ela sonhou quando menina que estava nua em uma igreja

(de acordo com a Time)

diante de uma multidão prostrada, com as cabeças no chão

e tinha que caminhar na ponta dos pés para não pisar nas cabeças.

Tu conheces nossos sonhos melhor que os psiquiatras.

Igreja, casa, cova, são a segurança do seio materno

mas também é mais que isso.

As cabeças são os admiradores, é claro

(a massa de cabeças na escuridão debaixo de um jorro de luz).

Porém o templo não são os estúdios da 20th Century Fox

que fizeram de Tua casa de oração um covil de ladrões.

Senhor

neste mundo contaminado de pecados e radioatividade

Tu não culparás apenas uma empregadinha de loja.

Que como toda empregadinha de loja sonhou ser estrela de cinema.

E o sonho foi realidade (mas como a realidade do technicolor).

Ela apenas representou de acordo com o script que lhe demos

--O de nossas próprias vidas-- E era um script absurdo.

Perdoa-lhe Senhor e nos perdoa

por nossa 20th Century

por esta Colossal Super Produção em que todos trabalhamos

Ela tinha fome de amor e oferecemos tranqüilizantes.

Pela tristeza de não sermos santos

recomendamos a Psicanálise.

Lembra-Te Senhor do seu crescente pavor da câmara

E seu ódio à maquilagem – insistindo em maquilar-se a cada cena –

e como se foi fazendo maior o horror

e maior a impontualidade nos estúdios.

Como toda empregadinha de loja

sonhou ser estrela de cinema.

E sua vida foi irreal quanto um sonho que um psiquiatra interpreta e arquiva.

Seus romances foram um beijo com os olhos fechados

que quando se abrem os olhos

descobrem-se embaixo de refletores

e os refletores se apagam.

E as duas paredes do quarto se desmontam  (eram um set de cinema)

enquanto o Diretor se afasta com suas anotações

porque a cena já foi rodada.

Ou como uma viagem de iate, um beijo em Singapura, um baile no Rio

a recepção na mansão do Duque e da Duquesa de Windsor

vistas da sala do apartamento miserável.

 O filme acabou sem o beijo final.

Acharam-na morta em sua cama com a mão ao telefone

E os detetives não souberam a quem ia chamar.

Foi

como alguém que discou o número da única voz amiga

e ouve apenas a voz de uma gravação dizendo: WRONG NUMBER

Ou como alguém que ferido pelos gangsters

estende a mão para um telefone desligado.

Senhor

quem quer que tenha sido a quem ela chamava

e não chamou (talvez ninguém

ou era Alguém cujo número não se encontra na Lista de Los Angeles)

atende Tu ao telefone.



(trad. Celso Japiassu)


O que se deve saber para ser poeta

(Gary Snyder)

tudo o que se puder sobre os animais e as pessoas.

nomes de arvores, flores e ervas daninhas.

nomes de estrelas, o movimento dos planetas

e da lua.

os próprios seis sentidos, com mente atilada e elegante.

pelo menos uma das velhas magias:

adivinhaço, astrologia, o livro das mutações, o tarô;

sonhos.

os demonios falsos e os imponentes deuses ilusórios;

humilhar-se diante do demônio e comer merda;

foder com o pau duro e escalavrado,

foder a megera,

todos os anjos celestes

e as douradas e perfumadas virgens-

& entÁo amar o que é humano: mulheres   maridos   e amigos

brincadeiras de criança, gibis, chicletes-de-bola

o absurdo da propaganda e da televisão.

trabalho, longas horas estéreis de trabalho chato engolido e

digerido

e vivido e finalmente amado.       cansaço.

fome, repouso.

a louca liberdade da dança, êxtase

iluminação silente e solitária, enstase

real perigo.     riscos.    e a iminência da morte.

(trad. Celso Japiassu)

Paráfrase

(Pierre de Ronsard)

Foi para vós que ontem colhi, senhora,

Este ramo de flores que ora envio.

Não o houvesse colhido e o vento e o frio

Tê-las-iam crestado antes da aurora.


Meditai nesse exemplo, que se agora

Não sei mais do que o vosso outro macio

Rosto nem boca de melhor feitio,

A tudo a idade enfeia sem demora.


Senhora, o tempo foge ... o tempo foge ...

Com pouco morreremos e amanhã

Já  não seremos o que somos hoje ...


Porque é que o vosso coração hesita?

O tempo foge ... A vida é breve e é vã ...

Por isso, amai-me ... enquanto sois bonita.


(Trad. Manuel Bandeira)


What Then?

W.B. Yeats

His chosen comrades thougth at school

He must grow a famous man;

He thought the same and lived by rule,

All his twenties crammed with toil;

'What then?', sang Plato's ghost, ''what then?'

Everything he wrote was read,

After certain years he won

Sufficient money for his need,

Friends that have been friends indeed;

'What then?', sang Plato's ghost, 'What then?'

All his happier dreams came true -

A small old house, wife, daughter, son,

Grounds where plum and cabbage grew,

Poets and Wits about him drew;

'What then?' sang Plato's ghost, 'what then?'

'The work is done,' grown old he thought,

'According to my boyish plan;

Let the fools rage, I swerved in nought,

Something to perfection brought;'

But louder sang that ghost 'What then?'



E daí?

Seus melhores amigos na escola

Achavam que ele iria ser famoso;

Ele também achava e assim se preparou,

Dedicou seus vinte anos ao labor;

"E daí?" cantou o fantasma de Platão, "e daí?"

Tudo o que escreveu, tudo foi lido,

Depois de algum tempo tinha ganho

Dinheiro para o que pudesse precisar,

Amigos que foram na verdade amigos;

"E daí?", cantou o fantasma de Platão,"e daí?"

Realizou seus mais felizes sonhos:

Uma antiga casinha, esposa e um casal de filhos,

Canteiros de ameixeira e couve,

Sábios e poetas em sua volta;

"E daí?", cantou o fantasma de Platão, "e daí?"

"Tudo está feito", disse ele quando velho,

“De acordo com meus sonhos de menino”;

Deixa os tolos com seu ódio, não me desviei,

Alguma coisa eu trouxe à perfeição";

"E daí?" - cantou mais alto a sombra de Platão.


(trad. Celso Japiassu)

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[1] Poeta, Nicaragua, nascida em 1948. Publicou Sobre la Grama
e De la Costilla de Eva (1986)


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