Novos poemas de Marilda Soares
Passagem
passar assim como um fluir de água
o murmurar tranqüilo de um regato plácido
bailando doce ao sabor do vento
a espelhar na superfície calma
a paisagem que desfila efêmera
e a refletir o sol que resplandece ao longe
e ser tão só esse momento
vago
sem deixar mais nada além do aroma
úmido
e sem levar não mais que umas leves
flores
que aqui e ali vicejam em suas verdes margens
e que afoitas buscam se mirar nas águas

Teares 1
como aranhas enredadas
nós também traçamos absurdas tramas
essas linhas rotas dessa vida ausente
essas tantas vestes desmistificadas
acolhendo tantos impossíveis sonhos
restaurando em vão enredos fugidios
refazendo traços pálidos regaços
ilusórios laços vínculos suspensos
e buscamos ávidos nesse breve espaço
nossa tênue luz nosso breve dia
nosso parco pasto.
a aranha tece suas malhas todas
suas sedas fáceis
seus infindos fios
eu os meus enredos ocos
esses labirintos de palavras rotas
nessa busca ávida de purezas fartas
de tocar imagens de vagueza fátua
de louvar a vida que se ausenta louca
sempre fugidia fora de alcance
que não se arremata nem no fim da linha
nem no fio da vida que se rompe antes
um leve movimento
apenas
só o ir e vir
dentro desse espaço
mínimo
dessa frágil teia
dessa frágil vida
que se move pouco
que tão pouco dura...
o destino de aranha
fiando fiandeira
a sonhar outros destinos
a aspirar outros fiares
outras lidas
outros ares
e pisar
territórios intocados
tessituras de musgos
úmidas sombras
com suas fontes cálidas
suas preciosas águas
luares novos novos sóis
folhas aveludadas
fantásticos lugares
de farta luz emoções viveres
não esse apenas trilhar
de galho a galho
repisando a cada passo
os mesmos traços
os mesmos curtos passos
pena não compor asas
o destino da aranha.
a aranha urde sua fina seda
sua flor sublime que se abre lenta
que se abre flor como um abrir de rosa
que se expõe translúcida
à carícia doce
e aos beijos loucos
dos perdidos ventos...
ah, destino triste esse de pisar
cuidadosamente os estreitos trilhos
dessa tênue linha
dessa frágil lâmina
desse medo eterno de cair no chão
de esboroar-se como fruta podre
dessa vida breve que se vive sempre
sempre sobre a teia
a correr sem freios todos esses riscos
dessa vida feita de malabarismos.
a aranha extrai as impurezas todas
dessa vida torta desses frutos podres
e as depura ágil em seu frágil ninho
de sinais de linhas sedas transparências
de fiares fartos desses labirintos
desses fios de nada amplos de vazios.
os longos movimentos da aranha frágil
a alongar-se débil
a oscilar tão fácil
como folha seca
a retrair-se inteira
em seu curto regaço
a estender de novo
seus lânguidos braços
a bordar estrelas com seus dedos tão finos
a compor seus círculos
conjeturar espaços
contornos
brilhos
e enrolar-se toda
e deslizar no espaço
um nada quase
um leve traço
apenas uma sombra a confundir o olho.
a aranha sonha
novas aderências
novas untaduras
melífluas substâncias
úmidos sentidos
renascidos brilhos
cálidos contornos
e refaz aos poucos
todas essas linhas
todos esses traços
tortos quebradiços
e compõe estrelas
trilhas
flores geométricas
restaurando o dia
dessa lida lenta
restaurando a face
desse sonho triste
refazendo o tempo
de permanecer.
nesse leito frágil
exposto ao sol ao vento
a aranha
planta um fio translúcido
como se instaurasse deusa
o cristal dos dias...
ao longe o azul se espraia
tão inatingível
e a aranha sonha enveredar-se
nesse céu tão lindo
mas se queda muda
sempre conformada
sempre se ausentando
dessa ansiedade
e mesmo calada
vai tecendo um canto
de tristezas feito
e de encantamento
pelo azul que espraia
céu no seu momento
...e a aranha presa
nessa teia tênue
nessa triste casa
nesse desdobrar-se
de rotinas lentas
a aranha sente
que só quer perder-se
que só quer jogar-se
nesse ar que passa
revolvendo aromas
de perdidas bocas
de sorrisos largos
de viagens loucas
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