silvana guimarães
Silvana Guimarães ( Belo Horizonte , MG). Foi pianista, socióloga, especialista em transporte público . Agora escreve. Pura vingança . Co-editora da Germina – Revista de Literatura e Arte e das Escritoras Suicidas .
miscigenação
Um bisavô
tinha parte
com o vento.
Durou pouco,
não chegou
aos quarenta.
A bisavó
era de pés
tão fincados
na terra,
que viveu cem.
Um outro
juntou ouro,
fama, poder.
A outra,
por pouco,
quase põe
tudo a perder.
Uma avó,
resignada,
fez filhos
e rezas.
A outra,
decidida,
filhos e
revolução.
Um avô era
poeta.
O outro era
padeiro.
O que no fim
dá no mesmo:
tudo pão.
tanto faz
Uma coisa amarela,
é isso o que eu quero.
Quem sabe a lua nova,
quem sabe um dia manso.
Talvez um galho de sol
sobre um rio cansado.
Uma coisa amarela,
eu quero, porque quero.
Talvez, cheiro de outono,
quem sabe, um pedaço
de vento, folha, areia,
coisa que vem de dentro.
Qualquer coisa, eu quero.
Da cor que regenera.
Qualquer tom de amarelo,
que não seja sorriso.
Pode ser até um beijo,
alguma coisa acesa.
Fogo, faca, afago
de tirar meu fôlego.
Quero, porque preciso,
alguma coisa qualquer.
Quem sabe uma palavra,
ainda que fosse suja.
Quem sabe só uma flor
chegando com urgência.
Uma coisa amarela,
talvez. Como um susto.
29 de setembro
não bastassem as nossas noites douradas
entreguei àquele que perdi todas as minhas manhãs
e junto a elas todas as razões da minha primavera.
desde então, outono.
outono e pedra, desde então.
a garganta seca, não chove
e o céu tão longe! tão longe!
esperando o menino
não bateram à porta abri
do lado de fora
três reis magros cansados
procuram uma estrela
perderam a viagem
eu também procuro uma estrela
e ainda não perdi a esperança
é ela que há de vir anunciar
a chegada do deus que vai
enfim ressuscitar o mundo
então
nunca mais nenhum deus nascerá como homem
nunca mais homem nenhum morrerá como deus
língua pária
1.
Em casa de poeta
a palavra espeta.
2.
Se o entendedor é mau,
qualquer ponto é final.
3.
Pra quem sabe ler,
nem todo pingo é letra.
Pode ser lágrima.
aufklärung
sua
luz
minha
luz
sina
p a i x ã o
Palavra sem fôlego:
somente duas sílabas,
uma sempre atônita.
de cabeça
A fé remove montanhas,
anda sobre as águas e voa.
Do chão não passa.
oh jardineira
Eu vou te contar um caso:
o vaso, mesmo ruim, quebrou,
mas sobrou eu, seja como flor.
deu bandeira
Febre, dor pelo corpo afora,
a estrela que eu podia ter sido e não fui.
Um tango à toa a vida inteira.
relevo
Atrás do morro,
morro.
E é de amor.
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