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Quatro poemas de José Nêumanne Pinto.
A SEARA DE SARAMAGO
Esta língua é minha semente,
machado de mulato do morro,
pátria de poeta lisboeta.
Esta língua é minha visão,
o sol do soldado caolho,
a mão do soldado maneta.
Esta língua é minha música,
na palavra do padre pregador,
no pássaro do padre voador.
Esta língua é minha mulher
tem cuidados de mãe
no leito da amante.
Esta língua é minha rosa,
tem perfume dos sertões gerais,
tem sabor de vinhos do Porto.
Esta língua é meu cavalo
para subir cidades e serras,
que a brisa do Brasil beija e balança.
Esta língua é fel com mel,
cantigas a palo seco
de ninar o futuro.
Esta língua é meu coração,
na tortura, na paixão
e no sal amargo da purificação.
Esta língua é jóia africana,
ela caça a onça caetana,
ela cruza a légua tirana.
Esta língua é fruto de meu ventre,
mata sede de amizade,
me arma nos bons combates.
Esta língua não é de viver,
língua de navegar e de lamber
e de dançar o tango argentino.
Esta língua é meu berço,
esta língua me conhece,
esta língua é meu caixão.
NA CASA AVOENGA
A nuca cansada apoiada
na palma aberta da mão,
os olhos míopes
do velho Chico Ferreira
escutavam o choro do sertão
no céu sem estrelas
da mais escura vastidão.
um sapo
um grilo
um rês
uma rã
Assim era o serão
na Fazenda Rio do Peixe,
de onde fui vindo.
Todo som que me vier
do bojo da rabeca de Bié,
como chuva na telha
e sabor de leite coalhado
com rapadura rapada
eta emoção!
GARATUJAS DE BAR
A verdade verdadeira,
a verdade profunda,
aquela que espreita
na falha de San Andres
e vive na Gruta do Maquiné;
a verdade dos peixes
que nadam no atol de Mururoa,
não se encontra em antologias,
nos romances de amor,
nos tratados de filosofia,
nos livros de poemas
nem nos jornais,
nas revistas
ou nos noticiários
do rádio e da TV.
A verdade nua
- o romantismo tardio
do Adagetto de Mahler -;
a verdade fria do iceberg
que afundou o Titanic;
a verdade crua da pedra ume
que afiava o cinzel do Aleijadinho,
esculpindo profetas;
a verdade úmida e rósea
da mucosa que se perdia
entre os pelos e as pernas de Salomé
e da língua entre os dentes alvos
de Salomé;
a verdade cruel
do bigodinho de Hitler
e a verdade alegre
do bigodinho de Chaplin;
esta verdade adolescente,
sadia e doente,
esta verdade febril,
ela não está nas canções
de Rodgers e Hart
nem nos cocos de Dona Selma
ou nos sambas de Cartola.
Ela não sente dor de cotovelo
nem veste cuecas samba-canção
ou calcinhas de renda do Ceará.
Esta verdade só se acha
na poesia
dos guardanapos de papel
de algum boteco da Lapa,
manchada de sangue e sêmen,
suor e cerveja.
STABAT MATER
Stat mater dolorosa, dum pendet filius (João, 19;25)
Stabat mater dolorosa juxta crucem lacrimosa dum pendebat filius
(texto atribuído a frei Jacopone Benedetti da Todi)
Quando eu nascer,
mamãe vai sorrir
aquele sorriso beato
que só as mães sabem dar:
um pouco por se ver,
um pouco por ternura;
um tanto por me ter
e outro por tontura.
Quando eu me criar
(bezerro desmamado),
vou beber e tragar
seu leite morno
- um pouco de proteína,
um pouco de gordura;
um tanto de escassez
e outro de fartura.
Quando eu crescer,
seu coração vai pulsar
ao ritmo de bater
de versos ditos de cor,
um brilho de som
na noite escura:
palavras de candura
rompendo a pausa
da infância vaga.
Enquanto eu viver
(ser despido de lembranças),
ela vai gargalhar
de cada travessura
e vai me punir
por cada travessura.
Terei sua bênção,
sendo sua graça
ou sua tortura.
Se terei!
Quando eu morrer,
esteja ela onde estiver,
aqui no planeta
como no jardim do céu,
minha mãe vai padecer
e vai gemer,
minha mãe vai verter
seu pranto adocicado
e o leite derramado
do peito esfomeado,
sobre o leito esparramado.
E, aí, minha mãe vai renascer
nos filhos que eu tiver,
e vai crescer de novo
nos netos que eu lhe der,
e vai viver pra sempre
nos versos que eu fizer:
cantigas de amor
na terra bruta,
na grama dura,
o infinito grão.
(Em 8 de janeiro de 2001, um dia após o batizado de Vinicius)
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