Celso Japiassu
Copacabana: poemas reunidos
Luar sobre Copacabana

Névoa e gás envolvem a lua,
paredes e muros de Copacabana.
Reflexos imitam a lua, deságuam
nas línguas negras,
são estranhos animais.
Invisível-indivisível, o corpo
anda : corpos velhos sob a lua.
Os velhos passam, não são vistos.
São peixes transparentes contra a água
de outros corpos na rua.
Entre o mar e os edifícios
o areal rompe as ondas,
suja os olhos e a boca,
constrói no ar seu roteiro.
Deixa traços no caminho.
Uma noite sem mistério
ou sonho. Um homem senta-se ao bar,
aspira o hálito do tempo,
bebe ao futuro. As horas,
uma a uma, desperdiçam seus sinais.
O movimento dos vultos,
cães silenciosos, homens apagados
misturados ao trânsito da noite.
O tempo espelha sua lâmina
no refluxo das águas.
O sereno, as sombras e o silêncio
juntam-se nas esquinas das ruas
e avenidas do Leme ao Posto Seis.
Transitam além dos olhos, na alma
que não consegue adormecer.
Há um território do sono
explorado pelo mar e seus ruídos ,
habitação do medo , onde fantasmas
balbuciam sortilégios e os mortos
são aves recolhidas pelo vento .
Noturno de Copacabana
Telus era um vento que à noite
açoitava os últimos mendigos.
Errava na madrugada, levantava folhas,
o zinco e a poeira dos telhados.
Desenhava em chuva o próprio rastro.
O mês de maio e a memória que vivia
cercavam o pensamento . Essa lembrança
construía um refúgio para as almas ,
a faca da chuva afiava o próprio corte
e o frio e a fome perpassavam nossa rua .
Um retrato mirava nossos olhos ,
indagava sobre a noite e pressentia.
Milhões de vezes repetia a história
em que o mar e seus segredos
espalhavam sonhos pela praia .
No fim , Copacabana estertorava.
e dormia inquieta no silêncio .
As igrejas e os bordéis esmaeciam,
lembranças apagadas na memória
dos meninos deitados sobre a areia .
O murmúrio dos bares , sexta à noite ,
informava uma viagem em que a morte
conduz serenamente os passageiros
e aproxima seu hálito noturno
das sombras disfarçadas nas esquinas .
O vento era esse ator posto de lado
nas frias estações , no sol a pino ,
por entre os movimentos da manhã
em que tudo se movia e um só instante
era capaz de revelar perdas antigas.
Soprava entre os corpos nas calçadas ,
entre crianças doentias e as mulheres
com seus ventres inchados. A dor ,
elas carregavam consigo como nada ,
nem mesmo como o som de uma palavra .
A chuva era este vento transformado
em lâminas , poças d’ água , inundações
e o medo nas favelas da cidade .
Telus, em desatino , perseguia
os minutos , construindo aquele tempo .
Os fantasmas chegavam com o vento .
Invadiam o sono , mostravam suas caras ,
acenavam da distância , perguntavam
por que sonhávamos com eles
e ficavam mirando nossos olhos .
A primeira visão era serena ,
de olhos verdes conduzindo algum perigo
que só ela pressentia e admirava.
A boca insinuava a despedida
e as mãos faziam gestos de partida .
Depois era a lembrança dos antigos
ocupando a memória enquanto o vento
passava pelas frestas da janela .
Eram ruídos surdos e assobios ,
revelações em pesadelo e sono .
A noite erguia suas casas , os lugares
onde acoitava o medo dos ausentes .
A revelação dos fantasmas perseguia
o sono e tudo o que no sonho repetia
o que a vida na morte revelara.
A criança , só , ouvira o som : Copacabana.
E a noite tornava-se vermelha , dolorida
como os crepúsculos sangrentos
que emolduravam as tardes em Recife ,
a dizer como é triste a vida humana .
II
Noite . Noite sombria de presságios
com suas revelações contraditórias,
sonhos de incerteza , olhos parados
no escuro de um quarto sem mobília ,
nos traços que se apagam no silêncio .
Noite entre os desejos , onde suspiros
refletem entrelaçados nos amantes
as reticências viventes nas palavras ,
onde a memória vai se dissolvendo
no passo que aproxima a madrugada .
Um tempo antes da aurora desse dia
marcado pelo som da tempestade .
Em todas as esquinas deste bairro
onde vicejam árvores sem nome
e os objetos noturnos se separam.
O tempo é a forma e a moldura
sobre a praia , a cor dos elementos .
Nele viverão não só seus habitantes
mas também a dor , ressentimentos
e todas as instâncias dos sentidos .
Há calma e assombro nos sussurros
cuja lentidão percorre o mês de maio
e faz desenhos soprando nas areias .
As gárgulas em sombrias esculturas
rasgam a boca em riso e desafio .
Uma forma de mulher também sombria ,
com o rosto entorpecido de silêncio ,
configuração da morte , ameaça
presente em todo sentimento
em que a vida nela mesma se revela.
Sentou-se a meu lado no metrô ,
senti seu odor triste , a permanência ,
a aura de extermínio envolta com a vida
e com o destino de todos os viventes .
Olhei o rosto , não pude ver seus olhos .
Transfiguração de toda uma existência ,
uma velha mirando o fim do dia .
Olhava o entardecer e a escuridão ,
o andar da multidão resignada
e sem destino em fila nas calçadas .
Nas esquinas oblíquas restam flores .
Na moldura das pétalas fechadas
antigos sentimentos se misturam
e se multiplicam como insetos
escurecendo as cores da paisagem .
Esta mulher de fala doce acaricia
com sua voz sem cor ou timbre
e com palavras repetidas, ao tempo
em que uma criança insone
escutava o som do vento e adormecia.
III
Deserto sem dunas habitado pelos corpos ,
pelas águas salgadas, pelo sol que de manhã
atravessa o suor e a sede do verão .
Agora sob a chuva sente o frio , estrangeira
estação nesta praia desnudada e calma .
O mar cresce entre as espumas de sargaços
em frente à Prado Junior, estende até o Leme
a cordilheira branca salpicada nas estrias
de nuvens baixas , próximas das pedras
onde a água espelha a forma de um peixe .
Mas é próximo dos morros que o recorte
deste bairro estende um cobertor
e nele abriga crianças , bêbados , famintos ,
a solidão que a vida retira dos seus restos
e oferece como a ceia dos aflitos .
Copacabana fecha-se noturna ,
as prostitutas abandonam a praia .
A força deste vento repetindo
uma vez mais e eternamente
o ódio reprimido pelas ondas : Telus.
Leo
Este é um poema sobre o tempo quando Leo estava vivo.
É sobre despedidas , acenos de afogados
no horizonte das águas.
Cansáramos de amar as coisas simples.
O interesse da vida refletia apenas
indiferença em face do destino.
As lembranças haviam-se perdido no silvo
das locomotivas dos trens da Great Western.
Enredaram-se nas cercas,
apagaram-se no corpo adolescente.
Em noite construída pelo vento,
um rosto nos olhava da janela.
A chuva espraiava tédio e náusea,
o pensamento envolto na memória.
O mundo conduzia seus atores
- dupla face de comédia e drama-
em palcos instalados sobre a vida
em busca da palavra.
Rente aos aveloses,
aveludado pelo vento ao fim da tarde,
o mesmo rosto ainda olhava
e se entregava a seu tormento.
A tarde, revolvida pela noite,
construía formas de esperança.
O inconsciente resvalava a eternidade
e o breve instante da vida
se enlaçava em seu momento.
A tarde e um novo dia
I
O menino investigava a tarde
e o silvo das locomotivas avisava:
o pai chegava, ia escutá-lo,
ouvir a sua voz e seu silêncio.
Os míticos lugares, as distâncias,
tudo emoldurava um por-de-sol chuvoso,
cortado de andorinhas,
acentuando o desmaiar do dia.
A terra, parto de segredos,
despertava com as nuvens carregadas,
com os sapos, os insetos, plantas
e o verde em brilho dos canaviais.
A voz dos violeiros, o cantar dos carros
e o odor dos últimos engenhos
misturavam cheiro e música, chuva e vento,
aos olhos do menino que esperava.
II
O poema nascia como um sopro
em direção à chama de uma vela.
O sopro a extinguia
e a chama uma vez mais
reacendia.
Existe algo distante nas palavras,
nas metáforas da infância,
nas imagens perseguindo um canto
e nas transformações de um dia
alucinando o sol antes da aurora.
Memória e palavra se completam
uma na outra, perseguindo sons,
dissecando as cores e o traçado
de rotas em que nos perdemos,
para sempre, na busca de um retorno.
Que tal redesenhar imagens,
o formato dos rios, as marés
de um tempo ausente e acalentado?
Um tempo de espectros e chuva,
inundação sem ritmo das almas.
III
O passado marca em nossas vidas
o rosto da espera.
Nos lugares visitados, descobertas prometiam
a esperança de outros dias.
Novas palavras foram ditas,
vocábulos noturnos
das horas inventadas.
Perseguimos a dor para feri-la:
condição de ser, forma inconsútil
no vazio dos espaços
que a memória constrói
para ter vida.
A arte das pontes, das igrejas,
o riso das velhas prostitutas e dos cegos
compuseram a partitura
de um cântico esquecido.
Marcamos encontro nas esquinas
que imaginávamos existir.
Chovia, era noite, o frio repetia
que o país era outro e outra a festa,
éramos estranhos entre nós
e a música nada nos dizia.
Sem que nada percebêssemos,
estávamos velhos e a lembrança nos trazia
algo sobre o tempo e a sua gosma fugidia.
IV
Era o instante da memória que vivia
o tempo das mudanças
e das sombras refletidas nos estios.
O tigre da memória e a sua sombra.
No lugar dos jardins, bosques sombrios
e onde foram caminhos, retinas assombradas.
Vou retirar da fonte o alívio das pegadas
e o esmorecer das tardes encobertas
pelo jorrar do pó das semelhanças.
Ali se deitarão nossos delírios
junto ao sereno, ao clamor e às despedidas,
vigília das noites espelhando seu cansaço.
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