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Retratista
Bill Falcão
"Hoje é Domingo. Termina
comigo na Segunda!" Esta frase me tirou de onde eu estava,
nem sei bem onde eu estava, com meus pensamentos. Fisicamente, estava
ali, numa pequena mesa de um grande restaurante, de dois andares,
numa cidade que eu adorava, mas não era a minha. Fui lá
em busca de recordações, rever lugares onde, por alguns
instantes, eu fui feliz.
Escolhi uma mesa pequena, perto do caixa
e do balcão. Era Dia das Mães e eu achei melhor deixar
as mesas maiores para as famílias, que deveriam chegar logo.
Aquela data em especial, Dia das Mães, nunca me chamou a
atenção, como aliás acontece com qualquer data
que vira anúncio de televisão. Carnaval, Natal, Ano
Novo, Páscoa, nada disso nunca me interessou.
Mas, naquele dia, eu tinha dormido mal
novamente. Acordei e fui dar uma olhada pela janela. "Não
vou ficar só aqui", pensei. Sai do hotel e fiquei andando
sem rumo, numa direção escolhida ao acaso. Foi quando
vi o restaurante, com algumas faixas penduradas na entrada, fazendo
promoções para o Dia das Mães. Eu fiquei pensando
se deveria entrar e tomar uma cerveja naquela casa tão bonita,
e, ao mesmo tempo, me lembrei de uma esquina próxima dali,
onde costumava me encontrar com meus amigos, há mais de 30
anos.
"Bem", pensei, "posso
entrar um pouco, pode ser até que a cerveja abra meu apetite
e eu acabe almoçando por aqui mesmo." Mas, não
era meu hábito entrar em locais assim, em dia de comemoração.
Logo iria ficar cheio de mães com suas famílias, crianças
gritando, garçons inquietos, pra lá e pra cá.
A curiosidade falou mais alto e eu resolvi dar uma olhada, só
uma olhada, pra ver o que sentiria.
Lá dentro, era bonito mesmo.
E tinha uma mesa ao fundo, pequena, com dois lugares, vazia. Pensei
que poderia, então, pela primeira vez na vida, fazer um brinde
à minha mãe, que tinha morrido há alguns meses.
A esquina dos meus amigos de adolescência poderia me esperar
um pouco mais. Em nossa família, não tínhamos
o hábito de comemorar essas datas, nem de aniversários
eu lembro. Não, lembro só de um, quando eu fiz nove
anos, mas detestei, fiquei feliz quando aqueles vizinhos chatos
foram logo embora.
Resolvi ver como era uma comemoração
de Dia das Mães. Entrei e fui pra mesa pequena. Ainda não
havia fregueses, os garçons arrumavam as mesas e o pessoal
da cozinha trabalhava concentrado, pude ver pela janelinha da porta.
Mulheres e homens mexiam em panelas e separavam talheres. Sentei
e pedi a cerveja.
Depois de dois ou três goles,
parei de observar o ambiente e me deixei levar pelos pensamentos,
pelas lembranças que aquela cidade me trazia. Lembrei que
tinha passado ali uma vez com uma namorada, naquela rua, e eu pensava
que seria feliz pelo resto de meus dias. Eu tinha 18, 19 anos, e
acreditava em contos de fadas. E lá íamos nós,
de mãos dadas, passeando pela rua.
Foi quando ouvi a frase: "Hoje é Domingo. Termina comigo
na Segunda!". Ao meu lado, encostados no balcão, uma
mulher, certamente com menos de 30 anos, dizia a frase a um homem
que não pude ver direito, estava de costas pra mim. Ela,
não. Estava de frente. Pude ver bem o seu semblante. Estava
triste, parecia suplicar pela presença dele, sua voz ficou
ecoando na minha cabeça: "Termina comigo na Segunda!"
Eu ouvi a resposta dele: "Então, tá! Vou pra
casa." Ela nem olhou pra trás quando ele saiu. Ficou
ali, olhando por cima de mim, olhando o mar do outro lado da rua.
Ela sabia que tinha apenas mais um dia,
menos de um dia, pra ficar com aquele que era seu marido ou namorado.
Eu pude olhar bem, ela olhava por cima de mim, não me via
ali. Provavelmente, pensava naquelas últimas horas que teria
com ele, e no que seria de sua vida a partir do dia seguinte, a
segunda. Mas, por que ela não foi com ele? O que ficou fazendo
ali? Por que não foi aproveitar aquelas últimas horas
com aquele que ela deveria, certamente, amar?
Eu fiquei fascinado com seu olhar. Sua
tristeza acabou me contagiando, senti que meus olhos ficavam molhados,
como os dela estavam molhados. Ela não poderia mais ver o
mar, e eu a perdia de foco também. Peguei o guardanapo e
fingi que tirava um cisco do olho. Dei uma rápida olhada
pra ver se alguém desconfiava que eu chorava, mas ali só
estava ela, ainda parada, não havia mexido um músculo
desde que disse: "Hoje é Domingo. Termina comigo na
segunda!"
Por que esperar? Que esperança
a alimentava? O que ela teria vivido, o que ela queria com apenas
mais algumas horas de uma felicidade que sabia ter chegado ao fim?
Eu pensava assim, quando o homem do caixa a chamou. Não ouvi
direito o nome, mas ouvi o que ele disse: "Prepare sua máquina,
os fregueses estão começando a chegar." Por um
momento, ela pareceu não ouvir o que ele dizia, continuava
ali, com os olhos molhados, olhando em direção ao
mar, mas eu sabia que ela não via o mar. Via suas lembranças,
buscava uma felicidade perdida, mais um motivo para viver que escapava
às suas mãos. E o que restaria agora? O que ela procuraria
agora?
Foi quando entendi o que ela fazia ali.
Era fotógrafa, tinha sido contratada pelo restaurante para
tirar fotos de lembranças do Dia das Mães. E percebi
que, apesar de jovem, era bem profissional. Também, como
eu, puxou um guardanapo que estava no balcão e enxugou os
olhos. Pegou a máquina e se virou em direção
aos primeiros fregueses. Duas mesas já estavam ocupadas,
com aquelas famílias enormes, mãe, pai, filhos, netos...
Outras pessoas começavam a chegar e se dirigiam ao andar
de cima.
Ela usava uma polaroid. Entregava a
foto na hora. Notei que ela não demonstrava tristeza quando
abordava as pessoas na mesa. Era como se não tivesse passado
por uma grande dor, minutos atrás. À medida que o
tempo passava, e mais gente entrava, até todas as mesas estarem
ocupadas, ela se transformou completamente. Sorria para todos, inventava
posições para as fotos, aceitava as maluquices de
alguns clientes que queriam fotos "surrealistas", fingindo
que jogavam espaguete nos cabelos bem cuidados das mães,
ou enfiando um garfo na nuca de um parente. Quanto às crianças,
ela tirava a foto e depois pedia que elas soprassem e batessem três
vezes na máquina, "pra acontecer a mágica".
As crianças vibravam e ela parecia feliz.
Só eu sabia que ela não
estava feliz. Quer dizer, ali, naquele momento, ela estava feliz,
sim. Mas, ela não se lembrava, ou não queria lembrar,
que aquilo ia acabar, as famílias iriam embora, e ela ficaria
com sua polaroid e sua solidão.
Não quis perder um minuto daquela
transformação. A cerveja descia e me lembrava de ir
ao banheiro, mas eu só fui uma vez, quando ela foi para o
andar de cima e eu a perdi de vista. Voltei pra mesa, mas o retorno
dela ao meu campo de visão me pareceu uma eternidade. Finalmente,
ela desceu. Já era fim de tarde, os fregueses começavam
a ir embora, bem alimentados e com suas fotos.
Ela voltou ao balcão. Novamente
estava de frente pra mim, mas agora olhava um cartaz. Também
olhei, mas só conseguia ver a palavra "música".
Uma ajudante de cozinha passou por ela, com um rosto triste, parecia
ter chorado. A fotógrafa a pegou pelo ombro e disse: "Ânimo,
mulher! Que cara é essa? Veja (e apontou pro cartaz), vai
ter um festival de música na semana que vem. Tô aqui
pensando em levar alguém comigo. Você quer ir?"
A mulher olhou o cartaz e respondeu: "Música instrumental?
Eu não, eu gosto é de pagode!"
Foi quando chegou um garçon e
pediu: "Bate uma foto minha!" Ela ficou surpresa por um
momento, certamente pensava que abria um precedente. Se topasse
a oferta, ia ter que tirar fotos de todos os funcionários
do restaurante. Mas topou. Começou a criar posições,
orientava como cada um devia ficar, foi tirando fotos, uma, duas,
dez, quinze... Sobrou uma chapa até para o homem do caixa,
que ela fez posar mostrando muitas notas nas mãos.
Ela guardou a máquina. Enquanto esperava seu pagamento, voltou
a olhar pra fora, pro mundo que a esperava lá fora. Uma cozinheira
passou por ela, parece que adivinhando sua tristeza, e perguntou:
"O que foi?" Ela respondeu: "Nada. Sou durona e teimosa!"
Não sei o quanto de verdade tinha naquela resposta, talvez
fosse só uma força que ela queria criar dentro dela.
Durona? Teimosa? Ela estava ali, parada à minha frente, mas
eu só via uma pequena criatura que precisava de um abraço,
de um afago. Por um momento, pensei em me levantar e ir até
ela. Poderia pedir para tirar uma foto minha também, mas
preferi respeitar sua tristeza.
O homem do caixa entregou um cheque
pra ela. "Gostou da experiência?", ele perguntou.
"Claro", ela disse. "Principalmente quando uma mãe
me chamou de retratista. Fiquei envaidecida. Numa mesa, eu fiquei
meio sem saber o que fazer, pensei que o rapaz ao lado da mulher
fosse namorado dela. Mas, ela podia ser mãe de alguém,
né? Depois que bati a foto, descobri que era mãe mesmo,
e ainda me elogiou, dizendo que eu a fiz parecer mais jovem e bonita.
Posso usar o telefone?"
Ela discou um número. "Prima?"
E começou a contar suas aventuras no restaurante. Disse que
tinha ouvido um garçon falar pra uma ajudante de cozinha:
"Fulana, você tá chata que nem cliente! Então
é isso que eles pensam de nós, quando estão
em nossa frente, impassíveis?", perguntou à prima.
Depois, mudou de assunto: "Eu sonhei com meus mortos essa noite.
Eram muitos, mas estavam enterrados num cemiteriozinho deste tamaninho,
num lugar lindo."
Eu imaginava que o sonho pudesse ser
um reflexo do difícil momento que ela passava. Pedi uma água,
já tinha almoçado, bem devagar, e resolvi ficar mais
um pouco. A verdade é que tudo que vinha daquela "retratista",
como ela disse gostar de ser chamada, me interessava, me encantava
e me seduzia. Eu a ouvi falar que tinha conhecido uma mulher mais
velha, "com uma cabeça incrível. E perguntei
a ela um zilhão de coisas, virei adolescente de novo, com
a curiosidade à flor da pele. Tudo foi tão adolescente
e tão bom de sentir."
É como eu me sentia também:
um adolescente. Eu tinha ido àquela cidade em busca de momentos
felizes do passado. Por algumas horas, fui feliz naquele restaurante.
Participei da vida daquela retratista, senti sua dor e sua alegria,
chorei e sorri com ela. Ela desligou o telefone e, por um instante,
pensei ter me visto, olhado pra mim. Nos meus pensamentos, onde
realidade e imaginação se misturavam, não sei
ao certo se ela me viu ali, por um segundo que seja. Mas eu olhei
para o que via e sorri naquela direção, tentei passar
algum sopro de vida para quem eu via, ou imaginava ver. Ela pegou
sua bolsinha, mandou um adeus para todos e saiu, num passo lento,
pela avenida.
Olhei pela janela. Ela ia devagar, eu
sabia que ela não queria chegar. E me deparei de novo com
o que me parecia ser a eterna dança da alegria e da tristeza.
Pensei então que, se fosse eu aquele a quem ela disse "hoje
é domingo. Termina comigo na segunda", eu teria respondido:
"Eu tava brincando, sua boba. Não vou terminar com você,
nem hoje, nem segunda, nem nunca!!!"
Como recusar um pedido daquele? Como não dizer que tudo não
passava de uma brincadeira? Eu a vi seguindo pela avenida, ao encontro
de seu destino. Talvez , e isto é o que mais me doía,
eu nunca mais a visse, talvez ela fosse pra Europa, pra Inglaterra,
um lugar bem longe de mim! Mas, naquele dia, naquele restaurante,
ela deixou em mim um poderoso milionésimo de átomo
de seus sentimentos, que sairam de seus poros diretamente pra algum
lugar dentro do meu coração, e ali ficará escondido
para sempre, imune a qualquer bisturi, a qualquer bala, ou ao fogo.
Mesmo virando cinzas, aquele átomo ainda estará ali,
vivo, como se esperasse o despertar de um novo mundo.
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