
Odylo, uma poesia
Celso Japiassu *
Testemunha do seu tempo interior, o poeta quando escreve reinventa o próprio sofrimento e o transforma na matéria prima do mais puro verso. Manuel Bandeira identificou a transcendência na poesia de Odylo Costa , filho, quando, citando Mallarmé, disse que ele fazia música com a sua dor.
A inspiração nas tragédias da vida percorre, de forma constante – como leitmotiv - a obra desse extraordinário poeta, cuja Poesia Completa acaba de vir a público pela Aeroplano Editora, numa cuidadosa edição organizada por Virgílio Costa, que também escreve um bem elaborado prefácio. Mas não é só do trágico que se alimenta a poesia de Odylo, pois nela estão presentes também outros momentos em que despontam os versos de amizade e amor, de solidariedade e paixão e da contemplação lírica das coisas do mundo.
Os oito livros que publicou em vida e que foram agora reunidos num único volume traduzem toda a trajetória poética de Odylo. Representam também o contraponto existencial de uma intensa atividade que exerceu como jornalista, cronista, ensaista, novelista e intelectual engajado que viveu e participou dos maiores acontecimentos da sua época.
Seus poemas não são marcados por uma temática predominante, como costuma acontecer na poesia brasileira. Inspiram-se com a mesma força tanto no cotidiano quanto no sublime, revestidos de uma forma cuidadosamente trabalhada e burilada para atingir a simplicidade.
Como poucos poetas, ele sabe manejar a técnica do soneto como um mestre e em diversos momentos atinge a perfeição nessa difícil forma poética, da qual todos os grandes poetas fizeram uso, independentemente das escolas literárias a que pertenceram. A dificuldade do soneto atrái os poetas, como se esta fosse uma maneira de testar suas habilidades.
Quando se preparam para escrever, os poetas se defrontam também com o desafio da folha em branco, que a João Cabral de Mello Neto se assemelha ao deserto. A faina com as palavras, a busca da palavra exata, aquela que nenhuma outra poderá substituir é a luta constante do poeta na busca da expressão. Talvez por esta razão os melhores não são exatamente os mais prolixos. Bandeira chegou a classificar Odylo como bissexto e o incluiu na sua Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos, na companhia, entre outros, de Paulo Mendes Campos, Joaquim Cardoso, Pedro Nava e Vinícius de Moraes. Na verdade, Odylo publicou poucos poemas na primeira fase da sua vida, até que acontecimentos trágicos o conduziram ao mergulho interior do qual emergiu para transformar o sofrimento em poemas que se encontram, ainda segundo Manuel Bandeira, entre “os mais belos da poesia em língua portuguesa”.
A morte precoce, em 1979, impediu que Odylo Costa, filho, desse continuidade a sua obra. A literatura brasileira tinha necessidade do resgate agora realizado dos seus poemas, ao mesmo tempo tão sofridos e tão belos, para ocupar o lugar de destaque merecido entre os maiores da nossa poesia.
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