
Delatando o silêncio
de uma geração
Aos 53 anos, o escritor, poeta, jornalista, radialista e comentarista
de política na televisão José Nêumanne, paraibano
de Uiraúna, radicado em São Paulo, casado, três
filhos, um neto, está lançando seu nono livro e segundo
romance, O silêncio do delator (A Girafa Editora, 544 pp.,
R$ 59).* O livro narra, em sete vozes, o velório do líder
de uma turma (a patota dos sovacões solidários do recruta
Pepé) e de sua geração, que viveu plenamente as
revoluções política e dos costumes dos anos 60
do século 20.
O corifeu desse coro de narradores (intitulados com versos do samba
A voz do morto, de Caetano Veloso) é o morto, um professor universitário
de carreira profissional lograda, libido exacerbada e ideologia incerta.
Desbocado, franco, rude, sem limites, este comenta, direto do caixão,
as visitas que recebe, tendo seus comentários interrompidos por
narrativas em terceira pessoa do próprio velório, de encontros
da turma no passado em torno de dois álbuns clássicos
da música pop - Sergeant Pepper´s lonely hearts club
band, dos Beatles (1967), e Bringing it all back home, de
Bob Dylan (1965) - e da trajetória de êxito e fiasco dos
velhos amigos, um por um. Cada capítulo do romance se refere
a uma das faixas desses dois discos e termina com uma estrofe do poema
Inventário, de Pedro Paulo de Sena Madureira, do qual foi tirado
o título da obra.
Pelo velório passam a viúva historiadora, a mãe
possessiva, a filha pragmática, o filho orientalista e os velhos
amigos da patota: Paulo, o publicitário bem-sucedido que não
consegue se firmar como escritor da moda; Marlon, o guerrilheiro-galã
que se torna rico corretor do mercado financeiro; Ricardo, militante
comunista que vira ministro de Estado; Jorge Carlos, astro do rock;
Helena, amiga de adolescência com quem o morto viveu um caso fugaz;
e Pepé, artista plástico que termina mendigando. Além
de Elsa, a Zuca, paixão frustrada da vida do protagonista, e
sua adorável filha Esmé, paródia da personagem
do conto Para Esmé, com amor e sordidez, de J. D. Salinger.
O leit motiv do romance é o conflito entre o morto e a viúva:
ele, adepto de Heráclito de Éfeso, orgulha-se da contribuição
que sua geração deu ao gênero humano; e ela, hegeliana,
acredita que a história só se repete em ciclos.
O romance é um projeto de 20 anos do escritor, que se tornou
conhecido pela crítica implacável aos costumes políticos
nacionais nos editoriais do Jornal da Tarde, nos artigos para o Estado
de S. Paulo e nos comentários que apresenta em sua coluna diária
- Direto ao assunto - na Rádio Jovem Pan e nas duas edições
do Jornal do SBT. Seus oito livros anteriores são: de poesia
(As tábuas do sol, Barcelona, Borborema e Solos do silêncio),
ficção (Veneno na veia), reportagem (Atrás
do palanque e A República na lama), ensaios políticos
(Reféns do passado) e perfil biográfico (Erundina,
a mulher que veio com a chuva). Também gravou poemas no CD
As fugas do sol e organizou a antologia Os cem melhores poetas
brasileiros do século.
* No Rio de Janeiro, o lançamento de O
Silêncio do delator será no dia 8 de novembro, depois
das 8 horas da noite na Livraria Grande Travessa, Rua Visconde do Pirajá,
572, Ipanema.
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