
Crítica epistolar sobre "A Santa
do Cabaré", de Moacir
Japiassu.
Marcos de Castro (*)
"Meu bom amigo Japi, fiquei muito comovido,
mas de verdade mesmo, por Você, aí da roça--que
desejo opima nas messes como tem sido na inspiração
literária--, lembrar-se do velho amigo e me enviar seu
saborosíssimo A Santa do Cabaré. Creia, Japi, não
falo de maneira alguma para agradar ao amigo, mas achei o livro
simplesmente um primor. Devorei-o em duas noites, num fim de semana.
Li três ou quatro capítulos e, sentindo que teria
uma deliciosa companhia no sossego da pachorrenta Pati do Alferes,
fechei-o e o levei, ansioso, para minha casinha de silêncio
monacal.Ah, prezadíssimo Japi, que belo livro! Já
não falo do lado espirituoso, que deixa a gente com um
esboço de permanente sorriso nos lábios--e às
vezes nos leva ao riso franco, destrambelhado--,mas de sua rara
arte de construir um enredo, de criar situações
admiráveis (que dão vida, sem dúvida, a pequenos
contos apaixonantes no conjunto do romance, sem lhe quebrar a
espinha dorsal). E a linguagem, amigo, ah, a linguagem perfeitamente
adequada, que faz harmonioso o conjunto, e expõe seu inacreditável
domínio da fala e do mundo sertanejo nordestino! Inacreditável
se se levar em conta que cedo Você se tornou um homem urbano
e partiu para centros onde o Nordeste é puro folclore,
não vida, na batata, como no seu texto. Carlos Lacerda
(não o Dr. Carlos Frederico Werneck de Lacerda Meira) dizia
que uma das graças dos escritores portugueses é
que eles sabem o nome das coisas, a tudo nomeiam com naturalidade
e sabedoria. Pois Você nomeia tudo, de modo a nos lançar
no meio daquele mundo assim totalmente real. Algumas vezes me
fez ir ao dicionário e aprender mais um bocadinho.Essa
linguagem castiça nordestina (sim, castiça nordestina)
não o afastou da linguagem castiça clássica,
até porque as duas se encontram nos arcaísmos que
o serjanejo guarda. E aqui e ali esbarramos-nunca surpresos, por
conhecermos o amigo que lê-em construções
de sabor eciano, e até em ressonâncias camonianas,
como naquele "tanta tormenta e tanto dano". Nada deslocado,
tudo funcionando como uma orquestra.Bem, é isso que eu
queria dizer, que senti necessidade de dizer ao ler o livro do
amigo. Não é mole ter um livro com orelha de Fábio
Lucas, que põe os pingos nos ii direitinho. Um livro "engenhoso".
Nem lhe faltam pequenas crueldades, a divertir os que conhecemos
o outro lado. O "inexpressivo Alberico Cruz", sem ter
o destaque de um Lenildo Tabosa (imagine, Lenildo Tabosa comunista
impenitente deve ter feito o primitivo tremer na cova), não
é crueldade das mais pequenas, se a expressão é
legítima - e creio que é.Resumo tudo: regalei-me
com o livro. Na expressão da palavra. É coisa bem
feita. Só tenho de botar reparo no "flamenguista e
corno". Isso lá é coisa que se faça,
considerado? Flamenguista não é homem de se passar
pr'essas coisas!Beijos em Márcia e nas crianças
(são "as crianças" ou "a criança"?
Só me lembro daquele menino vascaíno que deve estar
a lhes dar netos. Ele mora aí na roça com Vocês?).
Para Você, o abraço ainda comovido do amigo, sempre,
Marcos."
(*) Jornalista, professor de português,
escritor e tradutor.A responsabilidade pela divulgação
desta "crítica epistolar" se deve exclusivamente
ao destinatário, cuja vaidade não permitiu que dormisse
arquivado um texto tão bonito. Aproveito para informar
que os interessados no romance A Santa do Cabaré vão
gramar para encontrá-lo; a distribuição da
Editora Globo, lamento dizer, beira a espurcícia. Moacir
Japiassu."A Santa do Cabaré", de Moacir JapiassuEditora
Globo251 páginasPreço: R$ 28,00.
*Matéria
transcrita de http://www.comuniquese.com.br
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