A poesia segundo Marilda
Soares
Vou tentar dizer o
que penso - seria melhor dizer o que sinto - da poesia,
humildemente, quem
sou eu para afirmar-me poeta? Ao mesmo tempo hoje refletindo,
além daquela
profissão de fé de ser simples na minha poesia -
seguindo a lição
de Oswald,
lembra, do Ditirambo, me descobri querendo
nada mais que fazer música com as
palavras, tal como uma Cecília.
A poesia é minha casa, meu refúgio, minha remissão.
Sou uma
pessoa inviável,
por isso me fecho em mim e me alimento desse fluir da palavra,
numa
tentativa de busca do sentido da vida, de purificação,
de
sublimação.
Escrevo poemas, não ouso dizer que sou poeta embora deseje
ardentemente
alcançar o privilégio de fazer música com
as palavras. Sou
apenas
inteiramente devota à poesia. A poesia me toca, me enternece,
é
como se
estivesse continuando uma jornada ancestral, a sina de tecer o
meu pequeno,
imperceptível trecho desse longo fio de vida que a humanidade
foi
engendrando com lágrimas, angústias, amores, tristezas,
medo, o desabrochar
e o fenecer de flores, sangue, luares, estrelas, morte, ponto
a
ponto, vida
a vida. O dever da poesia é para mim, desde a adolescência,
totalmente
inevitável e irrecusável, faz parte do meu corpo,
do meu olhar.
Talvez seja
feito de poesia o meu olhar para o breve espaço da existência.
Eterno
Foste, talvez, em busca da paz que
almejavas
Da paz abissal que perseguias
Muito abaixo da mais funda e esboroada mina
Mais aérea que a mais alta montanha de Minas
Mas se não mais seguimos de mãos dadas, se já
não falas,
És, agora e para sempre, Carlos, por inteiro, Poesia
E o teu preciosíssimo veio
Do mais puro ouro das palavras
Que tornaste muito mais belas
Rola num rio eterno
Com teus enigmas tuas meditações tuas cismas
Teu Sentimento do Mundo
Iluminando os caminhos da vida presente
Dos homens presentes
E os do futuro.
PÁSSAROS
sim, havia em mim
um bando de pássaros ávidos por voar
ficaram entretanto aprisionados
nunca conseguiram romper meu coração
e se libertarem
hoje eu sou uma gaiola de angústias sem asas.
DELEITE
só o sem sentido me comove
a corroída palavra
o vesgo olhar
a podridão das ervas mortas
e em mim
o que definha e o que é disforme
o que não brota
o que me abisma e me faz torta.
Poema 1
Moldaram-se em mim elementos de naturezas-mortas:
Pela extensão do corpo alonga-se um rio seco
A contorcer-se em dor
Incrustam-se por toda parte
múltiplos círculos
De amargas pedras
Povoam a paisagem estátuas hesitantes
Rilhando puídos dentes
(Seus olhares opacos olhando sempre para dentro)
Nuvens estáticas emanam mágoas
Seguidamente
Pingando às vezes furtivas lágrimas
(tão fugidias...)
Cancros desesperados se precipitam
de suas feridas jamais ausentes
Desoladas aves semimortas
Aqui e ali se estendem
Perdidas de seus desejos de um vôo flácido
Ao fundo à frente e pelos lados
Muros superpostos
Engendram contínuas camadas de clausura
Dentro
Nada circula
Nem mesmo a brisa mínima do silêncio.
Poema 2
Quanto de mim carrego nesse corpo
Quanto de mim arrasto nessa viagem
Nessa jornada onde tudo se move
Sempre de volta ao devastado início?
Quanto de pedras trevas memórias
Quanto ainda do sentir que tudo é tarde
Quantas vidas murchas nessas diásporas
se encerram nesse corpo sem janelas ?
Quanto ainda desse absurdo ofício
De carpir continuamente o verdor dos dias ?
Poema 3
O universo das palavras a que me entrego
Não é menos pantanoso desconcertante
Do que este do qual fujo
Sinto às vezes que é inalcancável
Jamais me dará abrigo
Na ânsia de preencher o contorno dos signos
De dar-lhes significância
Me perco
Os significados mutáveis fluidos nubilosos
Também vivem fugindo...
Poema 4
Enquanto me diziam enfaticamente que eu
tinha o domínio das palavras as palavras fervilhavam em
mim incontidas incontáveis roíam os cantos da razão
os confins do cérebro desalinhavam os fios da memória
as linhas da vida confundiam as veias as vias do corpo esgarçavam
as vontades devastavam as catedrais da alma invadiam os limites
da des-razão paralisavam movimentos mutilavam dedos turvavam
olhos irrompiam ervas vozes risos máscaras delírios
desvarios me atiravam imprestável trapo presa caça
puro estupor nos infindáveis labirintos da linguagem.
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