Fotopoemas de Niteroi
Luís Sérgio dos Santos

Luís Sérgio
(Azevedo) dos Santos é médico, escritor e letrista
de música popular.
Desde os anos setenta, colabora em jornais e revistas, publicando
artigos, traduções de poemas, tendo sido co-fundador
do Grupo Uni-Verso, entidade reconhecida como de utilidade pública,
que publicou livros e promoveu diversos encontros entre intelectuais.
Aos 23 anos, foi diretor do Departamento de Difusão Científica
e Cultural do diretório acadêmico de sua faculdade.
No dia 18 de outubro de 1991, recebeu da Clínica Nossa Senhora
das Vitórias, (São Gonçalo/ RJ), a homenagem
de Médico do Ano.
Em literatura, publicou em 1976, pelo grupo Uni-Verso, Carta aberta,
livro que foi solicitado à prefeitura de sua cidade (Campos-RJ)
pelo consulado norte-americano para envio à Biblioteca do
Congresso de Washington, quando tinha 26 anos.Recebeu o 2o. e o
3o. prêmio Fernando Chinaglia da União Brasileira de
Escritores em 1977 e 1978 respectivamente pelos livros Alvo Vivo
e Pele de Sombra. Em 1984, publicou Deus não joga dados,
pela editora Civilização Brasileira, pelo qual recebeu
o prêmio Itanhangá, da União Brasileira de Escritores.
Letrista de música popular, foi gravado pela primeira vez
em disco em 1980, no LP Caso de Amor, da cantora Terezinha de Jesus,
com a canção Dança, em parceria com Renato
Alt, lançamento CBS. Sua mais recente participação
em gravações foi no CD Mata Atlântica,do cantor
e compositor Paulo Ciranda.
É o Editor
Geral da revista literária eletrônica Palavrarte.

A árvore e o mar.
Daria sementes para os peixes
se o vento as levasse ao mar.
Daria pouso aos pássaros
se um dia fossem sobre as águas o vôo rabiscar.
Daria a todos a idéia de infinito
e calma, para se imaginar o que existe
além da linha traçada no encontro do céu com
o mar.
Daria um tempo de paz, e de sombra
para quem se hospedasse no vento frente ao mar.

A pedra.
Nasce o musgo nesta pedra
e o verde esmeralda não é.
Os mariscos não se mobilizam,
os mariscos assistem a eterna briga
da pedra com o mar.
Estar imobilizado é a perfeita
maneira do marisco a luta ganhar

Mais alto.
Mais alto que o sol
pode o homem às vezes estar.
O sol também vai no mar mergulhar.
Se não se vê é devido
a isto só ocorrer
do outro lado do mar.
Também mais alto que o sol
foi um dia difícil mesmo ao homem
que tudo escalava se imaginar.
O que ainda não existe no real, existir
existe, e se basta existindo bem melhor no imaginar.

Os vencedores.
Os vencedores são todos
que retornam do mar.
Uns trazem escrito, outros
nada comentam.Uns vencem
no perto , e outros ainda vencem distantes
e ainda boiam sobre as águas.
Então reconhecemos
não existem os últimos e nem os primeiros.
Os vencedores são também todos
que foram para o mar.
Há os que já chegaram,
e os que já chegarão no mais tardar.

Água e pedra.
Deve o coração ser às
vezes
frio e rígido como a pedra,
e deve ser dobrável e fluir
como a água.
Bate a água na pedra,
e o mar se aquece na luz
da superfície.
Depende o coração das marés
qual um barco.
Absurdo e real, bate e treme
o coração com seu casco a se arranhar
na pedra, e outra vez, e quase sempre
qual um barco segue o coração
boiando entre o fluxo das ondas,
e a possível travessia a ser ferida aberta nas pedras.

Sentido e direção.
Voam numa só direção,
voam num só sentido.
Sabem um único destino.
Eis que algo que é pleno
e é plano,
as aves
em comum acordo
também entre si combinam.

Velas brancas.
Não pega fogo o mar.
Na distância velas brancas
parecem chamas a navegar.
Chamam se podemos
de chamas chamar,
chamam a paz
velas brancas sobre o mar.

Treinos
Voar frente ao mar
é fazer o treino
de nadar no vento.
Voar é quase
fazer do vento água,
e nadar pode ser
fazer da água vento.

Relógio-de-sol.
Houve um tempo
em que o sol
marcava as horas,
e sobre as horas
marcadas pela lua
quase nada se sabia.
Museu de Arte Contemporânea.
Flor que n(ave) és
plantada frente ao mar
em folhas que n(ave) és.
Ave que n(ave) és
folhas de um vidro quase a voar.
Flutuas que n(ave) és.
N(ave):
( )
)(
e cálice.
E se voas, agora estás
apenas pousada,
e se não te perceberam a voar
é que ainda não chegou a hora
de muito mais se enxergar.
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