
5 poemas de Carlos Alberto Jales
Poema do amigo
(Para Dino Preti, no seu aniversário)
A linha do
tempo não te
alcança e
vês o horizonte
com os mesmos
olhos de fogo.
Praticas a arte
do viver
e os obstáculos
morrem em tuas mãos
de semeador.
Navegas nas cavernas
do mito?
Imploras perdão
por tuas virtudes?
Mergulhas nas palavras
além dos ventos?
Em que casas deixaste
tua alma?
Ouves as mesmas vozes
de Bandeira na noite
de São João?
Silencias como Pessoa
para um tempo em
que ninguém estava morto?
Teus pés têm marcas de
oásis e desertos e diriges
teu veleiro tardo e silencioso
em busca de
portos ignotos.
Tempo
Na vaga memória
do tempo, a noite
flutua.
Escuto passos, mas
não distingo os sons.
Imagino cansados
Viajantes chegando,
mas não sei de onde,
nem que caminhos
seguem com seus
crestados pés.
Os mortos, discretos
como sempre, inventam
canções que ferem
o sigilo das águas.
Na vaga memória do
tempo, a insônia
caminha com a solidão,
traçando o latejar
dos dias.
Morada
Vivo na morada
das palavras
Alimento-me dos
mitos de barro ao
anoitecer.
Construo de ventos
minha caverna ancestral.
Há sonhos, há histórias,
há ruídos e há encantos
saídos das pedras.
Mas das palavras me
sacio e me escondo.
E das palavras escrevo
o tempo rendilhado
de solidão.
E das palavras persigo
os sítios , os lugares
interditados, as vagas
sombras que escurecem
meus dias
E sonho. E as palavras
surgem como escravos
libertos pelo fogo.
Breve poema marítimo
No remanso de teus
olhos navego
meu poema.
Na mansidão da tua
voz recrio memórias
de marés.
Na avidez de tuas
mãos recomeçotodas
as travessias.
Mar e promontório,
barco e ancoradouro,
água marinha,neblina
e ventos,
armadilha de ondas em
aspereza de espumas,
teu corpo é calmaria
e tempestade neste
absurdo oceano
em que me afogo.
Partida
(Para minha tia Plá, com muitas saudades)
Por que te foste,
transfigurado pássaro,
se já não consigo com-
preender tuas rotas?
Em que nuvem
deixaste teu canto,
se o frêmito de tuas
asas já não transforma
o mundo?
Há ventos, há chuvas, há
sorrisos de zombarias, há
sofrimento transverso que
não consegues afastar,há
uma coluna de fogo cres-
tando tuas mãos.
Mas partiste, transfigurado
pássaro em busca de um
horizonte que agoniza em
teus olhos.
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