Picasso.Violino e Guitarra
QUATRO POEMAS DE CARLOS ALBERTO JALES
Espera
Na fenda das palavras
a poesia espera.
Pássaro em pleno vôo
surpreende o fonema,
presa inicial.
Ávido animal, se
estorce e se rebela,
e do seu ventre
nascem esses versos
arredios.
Pergunta
Que fizemos destas manhãs
primevas desenhadas
pelas fábulas?
E do mar vertical
que nos transformava
em estátuas?
E das palavras que
não ousamos dizer,
fantasmas a assombrar
nossas noites agonizantes?
Por quê não vencemos
o sono das longínquas
pálpebras?
Em que obscuro mundo
escondemos nossa implacável
nudez?
Para quem guardamos a
ira dos dias?
Por quem choramos neste
horizonte de ausências?
O galo cantou?
A rosa feneceu?
Que música comoveu
a pedra?
Esforço
Eu nunca recebi um
prêmio de poesia.
Sou um poeta esconso,
um desses anjos de
Drummond que vive nas
sombras.
Nunca me premiaram.
Meu prêmio é meu silêncio,
essa agonia das horas,
esse lento desfilar de
barcos esquálidos pelos
remansos da memória.
Eu nunca recebi um prêmio
de poesia. Se recebesse,
não saberia o que fazer
com ele.Talvez ficasse,
rosto ao vento, escutando
os mapas do coração,
lendo o som de vagas
ondas do crepúsculo,só
e altaneiro à espera dos improváveis
regressos.
APELO
Seja o poeta duro
e seu poema leve.
Seja o barco veloz
e seus mares suaves
Seja o mundo efêmero
e sua paz duradoura.
Seja a guerra feroz
e suas armas lentas.
Seja o rio senhor
e suas margens servas.
Seja o vento andarilho
e seus caminhos esquecidos.
Seja o grito litania
e seu eco frágil apelo.
Seja o dia dócil rebanho
e sua tarde rês apascentada
Seja o pranto oceânico
e suas lágrimas raros búzios.
Sejam as praias seios fartos
e seus náufragos signos de sal.
Seja o homem estranha geometria
e seus ângulos decifrados hieróglifos .
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