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Poemas de Jaime Vaz Brasil

Jaime Vaz Brasil nasceu em Bagé,
ao sul do sul, com um pé na fronteira Uruguaia, em 30 de
dezembro de 1962. Quase foi goleiro, gosta de música e poesia.
Trabalha em Porto Alegre, é Psiquiatra e Escritor. Dirige
o Instituto Fernando Pessoa.

De Homero a Borges
I
A paralela dos olhos
Amarra o fio
Do poema.
Desliga o tempo
E costura
As paredes do silêncio.
(Quando, a um toque, a palavra
sai do estado de coisa?)
II
De Homero a Borges, a verve
Arma pontes e assombros
Na alma líquida e pétrea
Dos livros, lidos ou não.
(Margem de rio ou de página
dorme na foz do poema?)
III
Densa,
A queda ao sol do silêncio
Dissolve em sangue a corrente
(Por que a folha não chora
a sua alvura perdida?)
IV
Cada idéia que se move
É uma ave abatida
Que vai ao chão dos retângulos
Na funda espera das folhas.
(Como cantá-la ao dia
que teima em olhos abertos?)
V
Os dois, a seu modo e hora
Escancaram suas vistas
Enquanto a boca del viento
Morde as pálpebras da noite.
(Quem disse que dentro deles
as manhãs não amanhecem?)
VI
De Homero a Borges, a verve
Por si desinventa a morte
E, a termo, sopra outro corpo
Às cavidades do sono.
(Onde o parto dos escritos
não nascidos pelos olhos?)
VII
Preso ao cofre das amêndoas
O poema pede um corpo
Que enflore o estado de planta
Ou ganhe alturas de pássaro.
(Por que uma chave apenas
pode abrir tantos viveiros?)
VIII
Semicerrados, os olhos
Plasmam o verso, en su casa.
O poema é um tropeço
Nos móveis da sala escura.
(Em que degrau se revezam
as escadas do ciclone?)
IX
Os dois, a seu modo e hora
Beijam a insônia do mundo
Feridos de luz y espanto
Nas latitudes da sombra.
(Onde os porões anoitecem
ao temporal das metáforas?)
X
De Homero a Borges, a verve
Põe febre en la mano aflita
Que escava o ar e em seguida
Abre a caixa dos relâmpagos.
Milonga Borgeana
Dentro do livro de areia
A ampulheta do tempo
Virou do avesso.
Quase sangrando nos becos
A fome de um tigre
Em mim.
E farejei as palavras no ar
A mão do vento se abriu
E pôs em folha suspensa
A Milonga Borgeana.
Mil criaturas da noite
Transpassam inquietas
Os vidros de um bar.
Monstro Aqueronte passeia
Na ponta dos pés
Em nós.
Deu-me um espelho esquisito e falou
Da forma que a vida tem
De pôr no rosto uma cara
Que a alma desdenha.
Milonga Borgeana
Milonga de sombra.
Um tigre de quatro cores
Perdeu-se em teu labirinto.
Milonga Borgeana
Espada de vento
Nas calles de Buenos Aires
Nas calles de mis entrañas.
El viejo tiempo se espraia
Circula a doutrina
E suspende o punhal.
No corredor
Os rangidos do piso
São tão iguais....
Gume afiado, o destino que fez
A mão do escuro fechar
E pôr em muro de sombra
A milonga Borgeana.
Abre-se a fresta del sueño
E se adentra um mistério
Um segredo e o frio.
Entro com eles
No espanto da casa
Del Asterion.
Ah, quem me dera eu pudesse tocar
Um solo de bandonéon
Ao olho atento que mira
O futuro e o mundo...
Espelho de Cronos
Cada manhã é um beijo
Do abutre vagaroso
Que dorme
Ao ninho de cada espelho.
Sabê-lo ali
Com seu bico
De fome e de longa espera
É refugiar-se em um corpo
Que nos foge
Aos pés de Cronos.
Até que um dia:
O espelho
Derrete a vida
O corpo
Sai em retiro
E o abutre
Nos lambe os olhos.
Minuano Azulado
Encaro os olhos agudos
do Minuano azulado.
(Quem lhe desenha o semblante
cravado aos ombros curvados?)
Leio rigores de um verso
erguido em sua defesa.
(Mas quem exorta esse vento
de incontida aspereza?)
Encaro os olhos agudos
do Minuano azulado.
(Onde a pele nos recolhe
cada poro tresmalhado?)
Enquanto a sombra projeta
o perfil dos encolhidos
quem autoriza a dor plena
ao frio assim permitido?
Encaro os olhos agudos
do Minuano azulado.
(O vento verde de Lorca
seria assim tão gelado?)
Mas o que pode essa gente,
esse pueblo tiritante,
se o sol, opaco de medo,
foi quedar-se tão distante?
Quem descreve a trajetória
horizontal desse vento?
Se nasce à casa dos Andes,
quem promulga o movimento?
Encaro os olhos agudos
do Minuano azulado.
Dança mi poncho en sus manos
e duelamos calados.
Duelo de Cuchilleros
Uma faca é mais que aço
caso a mão de quem a porte
carregue, a pulsar nos gumes,
o cerne rubro da morte.
O pouco é mais que motivo
no mundo desses viventes:
para sacar-se el cuchillo,
basta um olhar diferente.
(Duelo de cuchilleros,
los golpes más que certeros).
A fronte desse duelo
sempre em sangue se apresenta
e revela seu destino
de morte, em câmera lenta.
É ela que a todo instante
se mostra e quer o seu posto
no ferro que fere o vento,
no vento que tange o rosto.
(Duelo de cuchilleros,
los cortes llegan ligeros).
Os braços terceando golpes
a cada novo momento
descrevem arcos e a morte
ensaia seus movimentos.
Quase uma dança, em tom grave
com gestos duros e exatos
que nos passos prenuncia
a morte com seus mandatos.
(Duelo de cuchilleros,
Don Rojo es siempre parcero).
Os Quatro Espelhos
Quantas nuvens
passarão ligeiras
no olhar das aves?
No olhar das aves há um espelho.
Quanta estrela
dormirá sem brilho
no olhar da lua?
No olhar da lua há um espelho.
Quantos verdes
correrão exatos
no olhar dos tigres?
No olhar dos tigres há um espelho.
Quantas cores
pulsarão mais vivas
no olhar dos cegos?
No olhar dos cegos
o espelho vai no centro
da alma, vista por dentro.
O Amor em Pouso de Ave
Eis que eu te queria plena,
mas não com ares de entrega.
(Antes, o olho invasivo
da paixão aguda e cega).
Eis que eu te queria inteira
mas não assim, repentina.
(Antes, o corpo que aos poucos
é entregue a quem se destina).
Eu te queria fechada
sem janelas e postigos.
(Mas chave pronta em segredo
ao que não penso ou não digo).
Eu te queria nos ventos:
só por ver-te, me consolo.
Tu, o meu pássaro doido.
Eu, tua sombra no solo
Eis que eu te queria calma
mas não constante e tão quieta
.
(Antes, o denso imprevisto
de uma tela incompleta).
Eis que eu te queria louca
mas não assim, em conflito.
(Antes, linha que me solta
preso ao timbre do teu grito).
Eu não queria um amor
quee sangra em beijo partido.
(Mas alma em pouso de ave
ao colo dos meus sentidos).
Eu aprendi que o teu nome
me liberta e me vigia.
Por isso te quero minha.
Para sempre. Ou por um dia.

O Amor aos Gumes da Distância
Pelos gumes da distância
pode um talho estar presente
como um golpe transitório
que se mostra, renitente:
quando partes, ele chega;
sangrando se realiza.
Quando voltas, ele foge
e em seguida cicatriza.
Pelos gumes da distância
eu guardo cortes profundos
que dia a dia se infiltram
ou se fecham num segundo.
Os gumes frios da distância
se somem por teu contato:
nas tuas mãos se dissolvem,
perdem tamanho e formato.
A lâmina que me habita
tem um corpo fugidio:
gume cego nas chegadas,
num adeus retoma o fio.
O Amor às Portas do Medo
Nas portas de minha alma
outra vez estão batendo.
Tenho as portas laceradas,
minha alma tem remendos.
Abri-las, sei que não devo.
Mas trancá-las não consigo.
A quem bate minhas portas,
entreabro meu postigo.
Nas portas de minha alma
quero instalar um cadeado.
Quero grades e barreiras
e meus caminhos fechados.
Minha alma quer silêncios,
teve tormentos recentes.
Imponho esponjas e espumas
contra essas mãos estridentes.
Nas portas de minha alma
outra vez estão batendo.
Contra a insônia desses punhos,
às vezes quase me rendo:
em seu dorso ensandescido
tenho a alma fraca e tonta.
Se minhas portas se abrem,
ela entra. E toma conta.
O Amor Nas Mãos de Pandora
E se nas mãos de Pandora
dormissem os conteúdos
que da caixa se soltaram
e nos prenderam a tudo tudo
o que possa ser visto,
sentido ou imaginado
na cor dos males do mundo,
na corrente dos pecados?
O que seria de todos
nós, pecadores, agora
e na hora da colheita
das flores do ir embora
se no colo de outra virgem
nascesse um novo messias
pregando em nome do Pai
perversões e rebeldias
e que do céu derramasse
um girassol, um sinal
e nos fizesse viver
sem ter juízo, afinal?
O que seria de todos
nós, livres de culpa e dolo
sem confissões nem martírios,
seitas, ritos e consolos?
No coração dos humanos
eu em verdade, vos digo
só um problema haveria,
qual um supremo castigo:
se o próprio Deus nos mandasse
alguém falar em seu nome
autorizando o pecado,
o amor morria de fome.
Coração de Milonga
Enquanto o tempo desenhava
teu rosto dentro do meu corpo,
saudade em dó menor cantei mil vezes.
Falei de nós, um tanto triste
e um bandoneón chorou comigo:
amor, quando é amor, não morre nunca.
(E pra fugir de cada sombra
da solidão, que erguia os olhos,
me disfarçei na dor de um sustenido).
Amor, quem sabe um dia desses
no espelho da milonga eu veja
teu beijo renascido num segundo.
Por ti, amor, cantei o mundo
em noites longas que aprendia
a amar em sol maior
e tempestades..
Amar nas ruas, bares, campos
amar em solos de guitarra
Amar com toda voz
e em silêncio.
Amar como só poderia
meu coração de milonga.
Quem sabe ler paixões humanas
na vida, sempre tão estranha,
se o amor as vezes fecha toda casa?
Andei por mares, vales, luas
andei em pedras, muros, portos,
amor, varei coxilhas do avesso.
(E andei no rastro do teu nome
no meu cavalo de brinquedo
colhendo a flor azul que me pedias).
Amor, quem sabe um dia desses
na alma da milonga eu veja
a face calma e breve das respostas...
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