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Aldemir Martins
O Itinerário dos Emigrantes
Celso Japiassu
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Dedicado à memória
de
Severino Lins Falcão,
que marcou com sua generosidade
os caminhos por onde andou.
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Prefácio
Itinerância em Celso Japiassu
Fabio Lucas
O mito do homo viator aparece sob muitas formas
na literatura. Se de um lado temos a pura deambulação,
errância aventureira, de outro se põe a via crucis
da tragédia, em que o protagonista, tangido por forças
superiores, caminha inexoravelmente para a catástrofe.
O novo livro/poema de Celso Japiassu tem muito
da circunstância trágica, todo ele tematizado em torno
do emigrante. A impulsão telúrica, que põe
o homem a caminho, muitas vezes gravada na descrição
do exterior nordestino, torna-se força interior, retrato
de vivência.
As condições sócio-ecológicas
são tão determinantes que formam o estrato mais profundo
da expressão do poeta. Assim, na presente obra de Celso Japiassu,
o que é condição genérica do homem nordestino
vira posição singular, particulariza-se no poeta,
torna-se biografia.
Daí io fluxo verbal impregnado de vivência.
Alguns signos recorrentes constelam a coletânea de poemas:
ódio, desejo, esperança, memória. Mas o leitor
assiste permanentemente à transformação do
ódio em desejo e da memória em esperança.
Ao retirar-se, o homem narrado por Celso Japiassu
não se liberta da memória, pois carrega o passado
como problema insolúvel. Mesmo vitorioso na cidade, o retirante
será sempre acossado pelos reflexos do in illo tempore.
O mito da passagem (travessia) encontra-se
superiormente transcrito no poema "Um Rio", tema universal
para evocar o caráter transitório do destino humano.
Só que, em Celso Japiassu, conforme assinalamos, a paisagem
e a vida interior tendem a uma fusão.
Em plena luz do dia
entrevê-se o rio que deságua
lixo sobre as almas.
Ademais, o homo viator no livro/poema
apresenta-se como fugitivo, como se lê em "As Sombras".
E a esperança como estímulo
para prosseguir a viagem é celebrada com a sobriedade e precisão
com que Celso Japiassu tece o seu verbo:
Confuso sentimento, este
que vai parindo fantasias,
revolvendo o silêncio
e que é menos que promessa
e mais que esquecimento
A jornada é tão humilde, que
o retirante haverá de esbarrar no problema da identidade.
Daí poema tão feliz quanto "Um Nome", que
se abre com um simulacro de arte poética:
Quase não falo. Trago presos
o peso das palavras e a mudez
diante do que é transitório.
O livro/poema encerra-se, como é natural,
dentro da historicidade brasileira, dentro da busca insofrida da
libertação, encerra-se em "A cidade", já
que a formação urbana constitui o termo final de uma
transição. E na poesia de Celso Japiassu, assim como
na tragédia , o epílogo se denuncia na catástrofe.
A cidade não é o ponto final da penúria, mas
da viagem.
Sério, sóbrio, contido, o livro
traz uma cortante mensagem acerca da realidade brasileira, que se
transmuda em experiência individual e límpida manifestação
poética.
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"Por que se concede luz
ao homem,
cujo caminho é oculto
e a quem Deus cercou de todos os lados?"
(do Livro de Job)
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I - De Profundis
Poeira e fumaça no horizonte
onde existiram sol e nuvens,
um poente cromático, duas aves,
a presença da brisa refrescante.
Estamos numa ilha, em nossa volta
a maré de gritos, fome,
estamos amarrados, as cordas mostram
que seremos enforcados.
Tantos mortos aqui nos precederam
e outros tantos irão nos suceder
porque nos mantivemos na fronteira
do Ser, do Nada, do doloroso amanhecer.
Que é de mensagem de fé
ou caridade?
Que é da cínica visão das coisas e das
almas?
Que é da esperança de tudo, que é dos risos
abrindo a noite, varando as madrugadas?
II - As Sombras
Eram bandos derrotados que voltavam
de batalhas nunca conhecidas
porque foram travadas em segredo
no âmbito de campos escondidos.
Doía-nos ver os ferimentos
e o sangue na boca dos meninos,
porque eram meninos que voltavam
cansados como velhos aleijados.
Passaram por nós, ainda hoje estão
passando
como sombras ou fantasmas de crianças.
Em nós há de ficar sua lembrança,
a de seus rostos que nunca esqueceremos.
Estes bandos que passaram e passam
tão perto de nós que nos impregnam
com seu cheiro, seu hálito e seu cuspe,
para sempre cercarão nossa memória.
Mesmo que o tempo apague a sua trilha,
eles permanecerão como se fossem estátuas
de pedra, banhadas pelo pranto,
recortadas sobre um céu de chumbo.
III - A partida
Na terra onde cactos, palmas
e malacacheta brotaram seus espinhos,
foi construído um muro de silêncio
cercado pelo medo e o arrepio
das noites cheias de pressentimento.
Foram anos que formaram décadas,
vertigem de tempo e do refluxo
do ódio derramado pelas ruas,
nas cidades visitadas pela sombra
anunciando a dor dos torturados.
Visitamos com fome estas cidades,
vadeamos com sede os seus rios,
ouvimos o gemido e a gritaria
pelas suas largas avenidas,
vimos o sangue sobre a alvenaria.
Além das cercas de arame, o querosene
usado nas feridas do rebanho
provocava o ar e o cheiro
de um tempo tecido em pesadelo
e na humilhação dos oprimidos.
Um tempo descrito nos contornos
da escuridão dos cegos,
na contemplação dos velhos,
no andar dos aleijados
e no murmurar dos condenados.
Havia um sinal marcando o rumo
da nossa leva de emigrantes,
que não sabia para onde ir.
O orgasmo doía nas entranhas
e também o ato de existir.
IV - Os emigrantes
1.
A região de mãos atrofiadas,
de pés curvados de paralisia,
de vermes inchando os intestinos
de homens, mulheres e meninos.
A terra dos cardeiros,
do trançado de espinhos
e de cães na madrugada
que se espojam nos gemidos.
São longos estes caminhos,
esta rota de emigrantes
sentindo o cortar do vento
pela noite e todo o dia.
2.
Deponho aqui com palavras
o pensamento assim cristalizado
entre colunas de ódio, de amor
e sentimentos tortos de abandono.
Sobre ilhas, sobre a multidão
de retirantes que há cem anos
passam em frente a esta casa
e trazem marcas do sertão.
O sertão da Paraiba: fuga
e cansaço entre os arbustos,
areia fina, cactos sangrentos
e sede e fome nauseada.
A cara amarelada dos defuntos,
o deformado corpo das crianças,
o riso desdentado dos doentes,
o opaco olhar de cegos e aleijados.
A vida insistindo longe dos tapetes,
da decorada sala de escritório,
da mesa posta para a ceia
de tâmaras e nozes e maçã assada.
São estes rostos sem boca, olho
e nem toque remoto de esperança
a dizer que as tardes são manhãs
de noites penetradas de agonia.
São ecos impotentes entre o som
das caixas eletrônicas, do ritmo
batido dos surdos, das guitarras
e da voz dos amplificadores.
A encardida, grossa pele
das prostitutas de catorze anos
no trotoir das ruas do Recife,
as suas pernas cobertas de feridas.
Está aqui, no ar das avenidas,
o que restou da dor destas meninas:
o seu sorriso de gengivas podres
pelas calçadas do Capibaribe.
3.
O país em que as ladainhas
mostram rostos de searas
nunca vistas, mas sentidas
porque Deus é nosso pai.
O coro de tantas rimas,
suas vozes femininas,
os hinos pairam nos círios
porque Deus é nosso pai.
A fé vem com seu martírio
pelo dia que chegará
abrindo a boca dos homens
porque Deus é nosso pai.
4.
A retirada é fuga, abandonar
das carcassas da memória
que acompanham quem parte
no talhe de sua sombra.
O vazio no fundo das cabaças,
o pó nos restos do saco de farinha
e a monocórdia voz dos cantadores
penetrando a máquina das almas.
V - Uma sombra
Entre a folhagem e a galharia
seca desta terra, onde memória
e tempo se confundem, tua vida
se mascara e se encerra nos limites
de sua última fronteira.
No clarão do sol à tua frente,
na imensidão desolada
de tanto espaço visto e assinalado,
com todos os sinais da encruzilhada
que procuraste entender e nada mais.
É grande esta paisagem de números,
a sua multidão de flagelados
na derradeira sombra dessas árvores,
na fonte que aos poucos transformou-se
no suor de homens e animais.
Permanecem ainda os sinais de vida
naquelas cercanias do lugar
onde se estende um corpo
e uma mão acenou na direção
das almas condenadas.
Mas é só réstia de
vida,
porque a vida é mais do que deitar,
aceitar o sonho e avistar
a chegada da sombra a um lugar.
Vida é mais do que lutar.
É mais que revolver o tempo
ou a imagem das plantas,
insetos perseguindo gotas d'água
nos meses carregados de lembrança.
É mais do que o gesto ou emoção.
É acidente interrompendo
o fluxo das forças, energia que dorme
no íntimo das pedras, na nuvens
carregadas de eletricidade,
pelos mares e florestas densas.
É o fundo do conflito, porque paz
não há de residir nos seres vivos.
É o exato momento em que a vida
se completa e nela própria
se confunde o ato de existir.
Pois ela se transmite como germe,
vírus de doença que se cura
quando o ciclo se fecha e se completa,
o contágio se funde, antecipando vida
para seguir mais uma vez a mesma trilha.
VI - Um rio
Em plena luz do dia
entrevê-se o rio que deságua
lixo sobre as almas.
Reverberações. No seu ruído
antecipa a gênese do nada
em palavras guturais
de homem ou animal.
Retira suas roupas,
mistura-se às multidões
transformando ódios em desejos.
Desejos humanos
e de bichos: comer, amar e procriar
como procriam conchas, caracóis.
Nesta ausência de ruídos,
a ti mesmo te descobres
em infinita dor de estar vivendo.
VII - Permanência
Os músicos repousam neste campo
ao lado dos cantores, dos poetas
e dos bêbados de fim de feira.
Em alguns anos estarão mortos
os músicos, cantores, poetas
e os videntes e anunciadores.
Mas continuarão existindo
o campo, suas fronteiras
e o clima que o fez molhado.
Permanecerão como há milênios
a inutilidade da poesia e o ruído
dos sons no ar se dissolvendo.
Hão de persistir os bêbados
e mais os toxicômanos agitados
mirando as fronteiras do campo.
Devem sumir a solidão das nossas
almas,
a sede dos desejos e permanecer
a escuridão do olhar dos cegos.
VIII - Memória
Restam poucos e eram tantos
os que partiram tentando prosseguir,
mesmo com os caminhos fechados
um a um durante a trajetória.
Não se dirá que não
lutamos
porque foi tanto o desejo e tanto o sangue,
tantas vidas enfim sacrificadas
na busca de horizontes intocados.
Tivemos sensações nunca
vividas
e que nunca poderão ser transmitidas.
Desaparecerão conosco, há de ficar
apenas a memória ressentida.
Nunca irá se apagar da nossa mente
a nítida lembrança do guerreiro.
Falou-nos de vitória e liberdade,
apresentou-nos à dor que era nós mesmos.
Ele encostou a fronte nos espinhos
quando não teve mãos para apoiar.
Bebeu a própria urina, sentiu o fogo
arder na pele, furar suas entranhas.
Quando enterramos seu corpo,
não havia o que chorar
porque vivêramos um momento
que mil anos não iriam consolar.
IX - Esperança
A esperança é um fruto
que apodrece em nossas mãos.
Longe da boca e da fome,
tão distante da contemplação
como o horizonte de sombras.
É como se fosse a flor
sugada por abelhas e formigas
e lagartas enroladas
no caule de sua planta,
na folhagem devastada.
Jamais cercou nossas vidas
nem a nossa caminhada,
apenas suas pegadas
foram vistas e anotadas
em um canto da memória.
Não nasceu, foi construída
por almas desamparadas
precisando acreditar.
Existiu como um sonho
prestes ao acordar.
Plantou suas raizes
no peito dos escravizados,
na garganta dos prisioneiros,
nos olhos dos exilados,
como uma erva daninha.
Iludiu-nos. Prometeu
realizar quimeras,
devolver coisas perdidas.
Falou estranha palavra,
bela e emudecida.
Interrompeu o choro
e o lamento das velhas
e nos fez acreditar no tempo
e em manhãs
que haviam de chegar.
Confuso sentimento, este
que vai parindo fantasias,
revolvendo o silêncio
e que é menos que promessa
e mais que esquecimento.
X - Os meninos
Eram crianças solitárias,
sujas,
o olhar parado em nós,
que passeávamos o nosso ódio.
As feridas inflamadas
cobriam nossas almas.
Eram meninos doentes
pois se via pelos dentes
podres, amarelos,
as gengivas encarnadas
como flores de cardeiro.
Dificilmente os esqueremos.
XI - O Mensageiro
À noite,
percorre o espaço em nossa volta
e se mistura aos nossos sentimentos
de revolta,
de dor pelos filhos que morreram
e pelos nossos pais prisioneiros.
Vem,
como uma névoa cobre
o ar que respiramos,
ocupa os caminhos que iríamos percorrer,
as árvores secas onde buscaríamos
não a sombra,
mas encosto
para o corpo exangue.
Procura-nos de tarde,
nas manhãs repletas de pressentimentos,
como uma sombra nos persegue,
marca e obscurece
qualquer luz
e a mais ínfima
nesga de memória.
XII - Um nome
Quase não falo. Trago presos
o peso das palavras e a mudez
diante do que é transitório.
A vida vale pelos precipícios,
pela morte, por seus labirintos,
pelos seus formatos perecíveis.
Dor é a dor dos oprimidos
e não a dor dos corações partidos
e não a dor do soco do inimigo.
É mais a dor do fundo das feridas,
a cicatriz das almas humilhadas,
o olhar para trás dos fugitivos.
O silêncio em que se debruçam
as marcas da nossa fome
e o seu desejo calado.
As suas assombrações,
o seu delírio, a febre
enlouquecida das sezões.
Tudo junto na memória
das coisas construídas
à margem do pensamento.
E sei que esta melodia,
estes sons desencontrados,
repetem o mesmo tema:
homem, lembra o teu nome,
não esqueças o teu nome
não te esqueças do teu nome.
Pois a lembrança se parte
quebrando-se nas muralhas
de ódio e de esquecimento.
Escreve-se no teu rosto,
na palma de tuas mãos,
por toda a tua lembrança.
Por que não se nasce sem nome?
Não se morre sem ter nome?
É esta a vida do homem.
XIII - Uma sombra
Estes são os dias que passam
e se transformam na sombra
de outros que antevemos.
Dias substantivos,
nominais por entre verbos
que se ligam, se propagam.
Há quem neste tempo viva
e com algas se misture
no seu tom crepuscular.
Ao lado das marés
e das dunas que emigraram
no decorrer desses anos.
Todas próximas de nós
e do translúcido das águas,
como o som de uma cavidade:
a escura mancha alada
cobrindo esta claridade.
XIV - Outubro
Há névoa sobre todos os
caminhos
que buscas percorrer, nestes umbrais
de fogo, nesta morada que habitaste
ao tempo de inúmeras jornadas.
Procuraste, atento ao som
de batuques, ao toque de metais,
configurar tais dias com palavras
que nasciam e logo emudeciam.
Estuário dos anos, dos semestres
e semanas que a teu lado decorriam,
aos poucos, aos poucos esboçaste
o ser partido que em ti mesmo havia.
No sobressalto desses tempos,
no carrear de rodas, no medo
que nos paralisa,
procuras contemplar tuas retinas
e imaginar em que paragens
encontram-se os corpos mutilados,
sob esta sombra que a todos silencia
marcando o rítmo desses dias.
XV - São Miguel
Sob a copa das acácias
que infestaram essa região,
aquí, neste exato círculo
dos tais acontecimentos:
o que resta de formigas,
ou de rastro de besouros,
além destas plantas secas,
é o que ficou de vida.
que vem com tanto calor,
com tão insalubre cheiro,
que estes caroços ressecam
e se confundem no pó.
Mesmo as plantas, as acácias,
as avencas desbotadas,
são objetos distantes, são paisagem
desolada, absurda criação
de algum deus enfraquecido.
São raizes que se cruzam
e se ferem, ressequidas
como o próprio chão que habitam.
A brisa, esta brisa da manhã
que sopra a sua doença
sobre as dunas amarelas.
Traz uma vaga de sentidos
sem qualquer compreensão
que abrange o gesto e a fala
e faz escuros sinais
a nosso pressentimento.
As pinguelas, estes caminhos
que se cruzam em labirinto,
como se fossem rendas
de sementes poluídas.
Conduzem para destinos
e são pontos de chegada
e pontos de partida
em sucessão infinita.
Tantas ervas e carcassas
aqui abandonadas
fundem o que existia
de animal e vegetal
nos limites avistados.
Nestas paragens vazias
onde a solidão dos muros
constrói o sinal dos dias.
O chão, suas avencas,
marcação de estacas,
outrora pastos e currais.
Onde o ciscar de galos
penetrava a terra e vermes
mexiam-se na língua de animais
cuja pele acinzentada era marcada
de fogo, sangue e carrapatos.
Aqui onde ecoaram cânticos,
o coaxar de cururus noturnos
e o apitar do bacurau nos trilhos.
Ouviu-se o choro de fome
e as vozes dos meninos,
o pranto emudecido das velhas
que choravam pelos filhos.
O penetrar de corpos, o vagido,
o acariciar de mãos, o pegajoso
tecer de dedos na vagina,
o latejar do pênis e a boca
a sugar da boca o macio
das línguas enroladas,
o sabor das salivas
antecipando o gozo dos orgasmos.
Neste círculo
dos tais acontecimentos:
restam casas de abelhas,
construções de formigueiros,
carvão de lenha, seixos,
gravetos de marmeleiro
e as espalhadas colônias
de estranhas ervas daninhas.
XVI - A rua
Cheia de presságios,
esta rua que avança
em direção a outra rua.
Murmura seu silêncio
na chuva de granizo,
poças, marcação serena.
Nas horas da manhã,
descobrirás a franja
que emoldura suas telhas.
Nestas horas,
mascaradas horas,
em torno de ti te ausentas.
Gotejar de tempo,
emaranhado agudo
que aqui neste chão deságua.
Constrói o teu sobressalto
em cima destas calçadas
de construção paralela.
A rede de esgotos
fede, vês os excrementos
que boiam sonolentos.
Em minutos se desenha
o esboço da alegoria
junto a postes, frontispícios.
A claridade é breve
como a palavra vazia
dos habitantes da rua.
XVII - Verão
Chega o verão, com ele os alagados,
a marca do calor e sobre os ombros
o peso dos inúmeros desvios.
Organizas o canto, a embalagem
de pedras que te laçam,
tiras o pulso do silêncio em volta.
Neste verão, nas passagens que
ele aponta,
percebes a lassidão dos corpos
no encontro das marés.
O vislumbre do sol
que se lança à escuridão da núvem
e erige esta paisagem.
Ele traz o vento e o seu ofício:
sacrificar a marcação do tempo
e misturar-se ao sangue das feridas.
XVIII - Reveillon
Refletem-se os espelhos
do tempo na morada
destes anos.
Eles chegam ritmados
no toque de instrumentos duros
agredindo a concha dos ouvidos.
Verberações de som
que ampliam sua mancha
no asfalto das esquinas.
Neste desenho de esgares,
abraçamos
a idéia dos abraços.
Escuta.
Percebe que no fim
há um mergulho
na distância pressentida.
XIX - A visita
Na cadeira escura da ante-sala,
assenta-se na sombra,
o debulhar da fala se transforma
e traz à nossa presença
o rasto das feridas.
O rebentar de rios, a corrente
que une os filamentos
e no linguajar da chuva
deságua o pesadelo
e carrega a marca do sereno.
Ao lado do choro das crianças,
do grotesco pio dos canários.
De mulheres grávidas, cujas dores
enrolam-se nos gravetos
e ao ruminar das correntezas.
Este choro de fome, de uma dor
que atravessa o ventre dos sentidos
e que permanece presa a seus limites:
a esta casa, este quintal de areia,
aos olhos tintos de vermelho.
Tentando nos dizer que esta ferida,
aberta e inflamada em sua vida,
aproximou-se de nós. Está pedindo,
mais do que um olhar contemplativo
e o sopro do ódio reprimido.
XX - Vertigem
Trouxeste as mãos,
a argamassa dura.
E mais o ar que circulava
em volta aos edifícios.
Trouxeste o vácuo da vertigem,
a tonteira da visão perdida
e o espremer da náusea
revelando vísceras sangrentas.
Dos pulsos, gota a gota
incandescendo o gesto
de esperar, atento, a placidez
que antecede os gritos.
E percebeste ausente,
para sempre, o disfarce dos olhos,
da cor de certas algas
que há muito tempo
alimentaram peixes.
XXI - Estio
Em poucos metros de pano,
vejo-te quase vestido.
Uma mortalha sem cor
pela metade vestindo.
Tua pele clara e limpa
transformada em cor suave,
suavizando o estio
da tarde de dezembro.
Parece como se o vento,
este vento de dezembro,
enrolado em teus cabelos
nele fizesse ninhos.
Ninhos de pássaro, onde ovos
anunciando oito vidas
transformaram-se na casca
quebradiça ao toque.
Os pés se juntam nos dedos,
nos calcanhares agudos,
apontam como se fossem
dedos de duas mãos.
Sobre esta tarde,
neste calor de dezembro,
a buzina dos navios e os motores
vão apagando o teu rosto.
XXII - A cidade
Alguém cuspiu do alto do edifício
e respingou em nós sua saliva.
Lembramo-nos dos outros, que partiram
conosco e se perderam nos abismos.
Havia restos de comida arremessados
contra nós como se fossem pedras,
como se fosse cuspe, escarro de ódio
contra a sombria face da doença.
Era impossível esconder nossa esperança
( e tentávamos comer nossa vergonha)
porque nosso silêncio aparecia
como se fosse um grito, uma dor ou agonia.
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