
A Morte de um Pensador
Carlos Alberto Jales
Gerardo Mello Mourão morreu. No começo deste ano, foi estudar a geologia dos campos santos, na delicada expressão do velho Machado de Assis. Em torno de sua morte o silêncio, este silêncio que se faz quando parte um pensador vigoroso, uma voz altíssima da prosa e da poesia. Uma voz como a de Gerardo, pairando acima das pequenas querelas provincianas, das pequenas vaidades de grupos e facções literárias. Ao mercado não interessa noticiar a morte de um filósofo e poeta.
Nascido no Ceará, temperado no seminário dos padres lassalistas de Minas Gerais, cultor da língua e da linguagem, como expressões maiores de nossa presença sobre a terra, artesão desta palavra que é a morada do ser, como afirmava Heidegger, Mourão era um pensador universal, um homem que cantava o mundo a partir de seu jardim, um autor que se movimentava em culturas e países diversos: colaborador em jornais brasileiros, professor no Chile, correspondente da Folha de São Paulo, que da China nos ensinou muito sobre a terra de Confúcio.
Acusado de integralista e traidor da Pátria, foi como o poeta que ele tanto admirava Ezra Pound, encarcerado injustamente, ele pela ditadura do Estado Novo e Pound pelo governo americano por ter se oposto à entrada de seu país na 2ª Guerra Mundial. Em ambos a coragem da resistência, lutando com a única arma de que dispunham: a palavra.
Filósofo, poeta, ensaísta, romancista, jornalista, Mello Mourão tem uma obra de rara densidade, e no campo da poesia é autor de “ O País dos Mourões”, saudado com emoção por Carlos Drumond de Andrade como um livro de raros recursos estilísticos, como a criação de um artista para quem a palavra não é um mero exercício retórico, mas um instrumento de recriação do mundo.
Gerardo Mello Mourão partiu e deixou um vazio difícil de preencher na atual fase do pensamento nacional, especialmente no campo político. Polemista vigoroso, homem da verdade inteira, fez de um mandato de Deputado Federal um momento de debate de nossos grandes problemas. Foi uma sorte ter morrido sem ver o Senado brasileiro destruído pela ação de usurpadores do poder, pela omissão da sociedade civil, pela inércia e pela covardia. Sua morte o livrou de ver o país que tanto amou e pelo qual tanto lutou entregue a um processo de anti-Iluminismo deletério, anestesiado e conformado a um cotidiano de omissões e traições. Melhor assim!
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