Absolvição das Formigas (à
maneira de Saramago)
Eduardo Ramos
Por sugestão de um amigo, Alexandre, não o Grande, que
decerto teria outras preocupações, mas o Marques, que
também é guerreiro, grande praticante de Quake que é,
decidi, digo que decidi mais por maneira de dizer do que por acreditar
que efectivamente decidamos nosso destino, nem mesmo nossos próprios
actos, exterminar com as formigas da minha casa. Munido de inseticida
sem cheiro, que noutra prosa poderiam apontar uns como prova da Teoria
da Relatividade, pesquisei por todas as frinchas e cantos, desabotoei
tomadas e interruptores, desactivei armários, que vazios quase
já estavam pois minha dieta impede-me de preenchê-los,
aplicando por fim o líquido inolor, sem poupar-lhe.
Pude ver, após o acto infame, que dezenas, talvez centenas
dos formicídeos jaziam, tombando de tal forma e em tal quantidade
que se, pessoas fossem, uma simples fotografia me condenaria em um tribunal
de Haia, à forca, quem sabe à cruz ou à fogueira,
dependendo da época. O genocídio fora científico,
Todo formigueiro
tem pelo menos duas ou três entradas e uma saída, disse-me
o colega, em quem o peso daquelas mortes jamais recairá, pensava
eu, ao deitar-me naquela noite. Sonho com os insectos, revigorados,
que clamam por justiça, eu sinto a culpa, transbordando em traumas
das quase duas décadas de
educação religiosa, Como um homem pôde trair seus
ideais, seus ditos valores, por tão pouco. Acordo, levanto, não
sei se sonho, mas como atravessaram os judeus o mar vermelho, de sangue,
milhares de formigas agora fazem uma travessia milagrosa, formando,
de tão cingidas que estavam, uma linha contínua que
ia dos armários da cozinha para o banheiro, passando pela sala,
fosse eu tentar medi-la, precisaria de pelo menos uma dúzia de
frade de fitas métricas, das de um metro e meio, talvez mais,
já que elas subiam e desciam pelas paredes, indo até o
tecto em alguns momentos, se concentrando como que em assembléias
noutros.
Orgulho, vaidade, não sei a resposta, mas o facto é que
peguei o frasco da morte e disparei novamente o aerossol, ou será
líquido, incansavelmente, até que nenhuma operária,
nem um macho ou fêmea, nem mesmo as férteis, patenteassem
qualquer sinal
de vida. O acto foi tão abjecto que, não fossem os insectos
apenas
insectos, com vida mas sem alma, mesmo que estivesse eu sonhando, a
condenação seria imediata, irrevogável, não
haveria deus, santa ou santo que emitisse perdão, nem homem que
me absolvesse, ou talvez, quem sabe, somente homens poderiam
relevar-me a culpa, que todos nós sabemos, já por experiência
vivida, que os tais valores, de intangível e inabalável
só têm a forma, intocável como o céu.
(voltar ao topo)