
O farol e a ilha
Carlos
Tavares
Para Marilda, eterno amor
"(...) Tudo dorme. Eu, no entanto,
olho o espaço sombrio,
Pensando em ti, ó doce imagem adorada!...(...)"
Manuel Bandeira, In Madrugada
tanger as palavras para o regaço
do poema...
Marilda Soares
Noto dez noites depois da temporária
paralisia que a mão que antes tremia ao iniciar um trecho
de carta, poema ou conto agora desliza firme sobre as folhas em
branco, ilude os papéis dos primeiros personagens, captura
o vôo das gaivotas, a fúria das ondas dessa travessia
com o infatigável porejar do presente. Mas o passado em
garras torce a fibra do meu olhar, endurece-me o coração,
turva o alívio das lembranças, impede-me que no
mar eu reveja a terra, o quintal, os jardins, terraços
que a brita do tempo soterrou, vozes e passos triturados pelo
silêncio.
Parece ser de aço esse olhar duro, transfixante, tristonho,
nublado; feitas de ferro retorcido essas pálpebras semifechadas;
essa concha de ganchos endurecidos, essa rede de dedos travados
sobre a mesa - tudo em mim cheira a ferrugem, escombros, decadência,
sobretudo essa mão de câimbras sobre as lâminas
do devaneio, que há poucos dias estava imprestável,
dormente, inválida. Mas agora, estranhamente, as mãos
despertam, os dedos se erguem como defuntos ressuscitados pela
carícia da brisa, reproduzem o movimento alegre dos pássaros
que pousam no convés à procura de alimento, se abrem
e se fecham, as mãos despertam, sim, evoluem, bailam na
manhã na sede do primeiro lápis, meus olhos se fecham
de contentamento, algo tremula, vibra com força lá
dentro da minha carcaça, talvez meu coração
que também desperta, que ainda palpita, pulsa um desejo,
mas mal escuto suas batidas, no entanto estou vivo, além
das mãos e dos olhos agora abertos, o coração
parece saltar do peito de tanta emoção, talvez seja
o sol que arde acima de tudo a sua fornalha de astro em direção
à vida, talvez o cheiro do mar, o perfume do sargaço,
o aroma azedo dos peixes mortos, tudo, enfim, parece reviver nesse
tombadilho com ares de mausoléu. Recolho os dedos, fecho
e abro as mãos, sorrio debilmente, sem perceber que sou
observado por Ninguém, um dos poucos marinheiros que ainda
conversam comigo sem se importar com o hálito fétido
provocado pelo escorbuto, sem se incomodar com a minha forma esquálida,
o rosto macerado, pálido, cavado e que nos últimos
dias assumiu ainda o aspecto terrificante de uma pequena caverna
de carne e osso às vésperas da morte.
"Está melhor?" - Perguntou sorrindo.
"Sim, sim. Mas me diga uma coisa, por que esse nome?".
"Ora, não sei de onde eu vim, não conheço
meus pais, fui achado numa lixeira e afinal, por que, para que
serve um nome? Acho que Ninguém está bom demais,
se o Sr. não se importa, é claro" - respondeu
com um ar irônico, brincalhão.
"Não, não, você tem razão, os
nomes às vezes só atrapalham, ficam na gente como
uma cicatriz, uma lembrança aberta para o resto da vida,
uma marca, e isso é triste, não é?".
"É que não penso nessas coisas, não
tenho ninguém, apenas eu, com quem me preocupar, além
do mar, dessa viagem, uma viagem que nunca acaba para mim"
- respondeu Ninguém observando um casal de mergulhões
que acabara de pousar na murada do tombadilho. Depois se despediu,
de longe gritou: "Quer que eu traga mais papel? Penas, tinta,
lápis, água?" - Sorri, balançando a
cabeça, mas depois me arrependi, poucos suportam o sorriso
de alguém com escorbuto. Os dentes amolecem, caem, as gengivas
ficam cavadas, invadem às vezes a arcada dentária,
é uma cena de terror, algo imundo, repulsivo. Mas Ninguém
é talvez o único que consegue ser indiferente a
essa máscara, ele também deve ter suas mazelas,
carregar suas chagas invisíveis.
O mar se estende à minha frente, derrama-se imenso sob
o tombadilho desse barco, exibe-se em seu ritmo terral, de calmaria
azulada, cheia de estrelas invisíveis, polvos, animais
desconhecidos, habitantes dos paredões ancestrais da natureza,
tão pródiga em profundezas, mistério, dor.
O pânico
Nada posso fazer, tenho de ficar calmo - pensava quando despertei
com as mãos entrevadas no primeiro dia da viagem - e se
a mão, inútil, amplia o medo de um iminente desastre
físico, a imobilidade total, por exemplo, ou a cegueira
que costuma atacar os moribundos, apenas observarei a dança
das ilhas a distância, o fim da calma quente e parada do
mar que se arrasta há quatro dias, verei a chegada de uma
nova tempestade; é isso, tenho de ficar tranqüilo,
mas o corpo todo está ficando imóvel, agora são
as pernas que não se flexionam mais, os músculos
do ventre não reagem sequer ao espasmo da tosse, sinto-me
flutuando, levitando, completamente insensível, uma pena,
uma folha, um fiapo seco, vida sem forças, tábua
sobre tábua, uma carcaça, um tronco sem seiva, uma
imensa carcaça, é isso, o termo é este, uma
enorme carcaça de dois metros de altura devastada, estirada,
largada sobre o leito e o pior é que não posso gritar,
não posso nem pedir ajuda pelo sininho que o comandante
Barreiros emprestara-me.
Mas a mão agora se move rápida, resoluta, busca
o fluir das imagens e às vezes mal espera que o arquivo
de lembranças se complete, despeje nos meus olhos a visão
exata do desejo de reter outra vez a perícia do delírio
e o encanto dos fados. Ela praticamente voa sobre as folhas brancas
de papel, comprime na pena o exíguo terreno do real, expande
o sonho, duvida do pesadelo, desenha na palavra o infinito rubro
do ocaso que reflete no espelho as marcas de agonia, a dor no
brilho das retinas, as bigornas da angústia que retinem
no peito o movimento dos ventos de um pardo entardecer; risca,
agora indefesa, essa mão que definhava - se move lépida,
ávida como a garça de um antigo lago em busca de
alimento, lustra os traços de um pólo distante,
a maciez vulcânica das valas de seda de uma certa galáxia,
voa, inflexível no propósito de encerrar o mundo,
a vida no verbo, na sede de varrer do convés a incerteza
do abismo que ronda a tripulação desde o segundo
dia de viagem. Eu era o único que não podia reclamar
da iminência de uma tragédia, meu destino estava
definido.
"Não há porque temer nada; tudo que acontece
é tarefa dos acasos", respondeu o experiente comandante
Anísio Barreiros aos marujos que o cercaram ontem à
noite, os olhos assustados, a maioria de calça e camiseta,
tisnados pelo contato com a cinza das caldeiras, a ferrugem dos
tambores de óleo; outros vestiam calção,
para enfrentar o terrível calor, carregavam cordas e arpões,
os peixes haviam sumido das águas.
"Mas a comida está acabando, a água também,
estamos há milha da costa, não temos porto à
vista!", bradou Ninguém, aflito, como se estivesse
incorporando os ares de líder dos desvalidos.
"Não vamos ficar para sempre, isso eu garanto",
reagiu o comandante.
"É, eu sei, podemos ser tragados pelo sol, pelo sopro
de um furacão, o bafo de Netuno, quem sabe! Estamos sem
máquina, sem vapor, sem força, está tudo
acabando!".
Barreiros ainda disse duas ou três coisas a Ninguém,
saiu apressado, enfurnou-se sorrateiramente no convés superior,
abriu a cabine, falou com o contramestre, homem de sua confiança,
pediu para tentar o rádio mais uma vez, um rádio
que também não funcionava. Parece que nada funcionava,
nada possuía vida naquele barco. "Meu Deus!",
murmurou como se já soubesse o fim dessa história.
De longe, eu observava a cena.
Ainda podia locomover-me sozinho na cadeira; pressionei o pino
que trava as rodas e a liberei em direção à
rampa que dá acesso ao convés onde ficam os camarotes
da tripulação mais graduada. Escutei um soluço,
depois um arfar, seguido de um novo sussurro "Meu Deus, está
tudo acabado!".
No dia seguinte o cenário era o mesmo, nenhum sinal de
vento. Os homens cada vez mais combalidos, irritados. Voltei ao
meu posto de observação, as gaivotas sobrevoaram
o tombadilho, pousaram nas muradas, os mergulhões disputavam
espaço com elas, e, do modo como agiam, olhos de abutres
concentrados nos marinheiros, asas alertas, fechadas, garras presas,
firmes e imóveis na sua vigília pareciam aguardar
o temível desfecho.
De repente, uma mancha escura no céu, um novelo imenso
de nuvem cor de chumbo. A impressão de uma suave ventania,
o barco ondula - sinal de esperança! Mas logo o ar pesado
e quente devolve o temor de mais um período de calmaria.
Nada se move ao redor, o mar continua silente, parado, acalentando
na profundidade de suas ondas suas muralhas de sirtes, seus faróis
à deriva, seu cesto anil de ilhas esverdeadas, seus lençóis
de terra molhada, suas lendas, seus castelos de prata, enseadas
e prantos de quem parte para não voltar.
A viagem
Sentado na cadeira de balanço que improvisaram para mim,
miro a vastidão azul do oceano infinito. Sim, mas eu era
também o próprio infinito. Em minha imobilidade
crônica podia ficar horas observando a linha azulada que
une o céu e o mar e me sentir embalado pelas redes celestiais
do sossego e do silêncio; podia dialogar com os peixes,
os pássaros, as estrelas marinhas, podia tocar a pele do
oceano e o chapéu esplendoroso dos astros ou o cinza pardo,
quase negro do crepúsculo da minha melancolia, da minha
branda, tácita revolta pela comédia do fim que se
aproximava.
Era tudo muito engraçado, refletia Carlos enquanto contemplava
as mãos voadoras que agora, nesse exato instante, desciam
seus cutelos de grafite escuros sobre as páginas em branco
e nas lâminas de luz que lançam nas palavras, compõem
uma frase e a deita em antigos leitos perfumados querendo pronunciar
talvez o nome sagrado de um certo pássaro que pousou em
suas varandas numa manhã de maio, há seis anos,
garça de plumas brancas e cheias, a abrir e fechar as asas
diante do espelho para depois pronunciar, ainda sonolenta, é
só um suspiro, Carlos, não se preocupe, estou aqui
diante de seu espelho e nada enxergo a não ser esse cacho
de nuvens que você carrega nas mãos, esse buquê
de fúcsias encantadas que daqui a pouco descerão
sobre meu corpo as pétalas avermelhadas da minha paixão,
eu te amo, Carlos, não fuja mais de mim, por favor, carregue-me
nas suas asas e me abrace, beije essas flores que são tuas,
mergulha logo o teu pássaro ávido na minha carne,
nos meus ninhos, ignore as garras da madrugada, sossegue no meu
peito, nas minhas pernas, nas minhas mãos, dance sobre
o éter da minha pele, pouse de vez nos meus flocos de luz,
a aurora não me assusta, os fantasmas da terra e do mar
não me metem medo se estou ao teu lado nesse espelho nesses
lençóis de beijos e murmúrios, nessa fonte
que não se cansa de cantar as tuas águas e em seguida,
Carlos, meus fios de prata, meus fios de seda negra que se enrolam
em teus lábios nesse eterno soluçar me arremessam
ao firmamento do teu olhar de penumbra, soltas as tuas mãos,
sim, agora observo, troquemos de papéis e sem o mínimo
comando da razão abrasa essa febre que me consome, alisa
meus cabelos, torce meus arcos, meus sonhos, meus embalos, meus
encantos, já não suporto mais essas horas, essas
horas de secretas formas, essas imagens da dor e do desejo no
vazio dessa paisagem, eis-me aqui, Carlos, na tua trilha de lírios
e caules apontados para o céu, eu sou a tua flor solitária
diante desse espelho enquanto navegas para onde, não sei
e o pior é que jamais saberei, nada saberei dessa estrada
que aos poucos preencho, redesenho no meu desejo infantil de semear
símbolos brilhantes por essas ruas e se essa rua fosse
minha na mais tenra prenda do teu olhar os diamantes do teu sangue
um dia os beberia e depois dos sinais que sulcam as minhas mãos
no desespero do corpo que deseja ser, criar, gotejar as aranhas
da arquitetura tosca dessa história jamais poderia reviver
o maremoto de brisa na carícia da tua ilha, o meu olhar
na moldura do mundo só entrever essa réstia que
chora, essas mãos voadoras que bailam sobre minha pele
e me demovem do fim no casto fio de um poema que compomos para
renascer enquanto nesse espelho, você aí parado,
imóvel, inútil, não escuta meu grito, não
toca a minha dor, o meu êxtase contido nessas mãos
fechadas, repletas de ganchos, garras, grampos, pregos, lâminas
no aço frio dessa superfície de vidro que reflete
uma história de leves, penosas manhãs penduradas
nos lustres da inocência trágica da Beleza!
"Vamos, seu Carlos, vamos, acorde",
gritava Ninguém segurando os
ombros do moribundo, sacudindo a cadeira,
até escutar um sussurro:
"Onde estou? O que houve?" -
perguntou Carlos ainda de olhos fechados, procurando defender-se
da claridade.
Mas não havia claridade, não havia sol, apenas a
escuridão improvisada pelo vendaval que ameaçava
desabar sobre o mar.
Tentou erguer a mão que repousava sobre os papéis,
o lápis preso entre os dedos polegar e indicador e descobriu
que a mão estava outra vez imóvel. Aterrorizado,
ensaiou uma frase, mas não escutou o som. "Vamos,
vamos, vou levá-lo daqui, a tempestade está chegando,
escute os trovões, sinta as rajadas de vento, não
podemos ficar aqui, estão distribuindo o peso nos escales,
o sr. tem de vir comigo, vamos, vamos todos abandonar o barco,
não podemos mais ficar aqui!" - Aos berros, o comandante
Anísio Barreiros apressava os homens; o barco a essas alturas
assemelhava-se a uma folha seca sobre o mar revolto, encoberto
pelas nuvens - a frágil máquina das águas
aos poucos cedia ao banho de fúria das estrelas, ao bafo
de raios ardidos da Natureza ferida, às gargantas de pedra
que se aproximavam para tragá-lo, os homens imaginavam-se
pequenos Ulysses perdidos na própria coragem do retorno,
mas seriam logo engolidos, pouco a pouco, pela voragem oceânica
sem os apelos de uma prece; e eram tantas as vozes, o coro dos
desvalidos, os homens todos perdidos, mas o pássaro, imagina
Carlos, persiste no mergulho, pensa, voa e fende o infinito com
suas asas brancas e longas, envergaduras do nada feitas de penas
de ferro, de barro, de cera, de fogo derretendo-se no alto antes
de alcançar a ilha, antes de rever o farol para onde fora
designado há mais de 40 anos.
Carlos pensa na queda, na sua triste imobilidade,
na dependência incômoda e humilhante de Ninguém
e do comandante que no auge do esforço conseguiram, enfim,
lançá-lo dentro de um bote para ficar ali espremido
entre o horror e o pânico à espera do fim como sempre
esteve desde que numa manhã de abril recebeu a notícia
de que lhe restavam apenas dois meses de vida. Suas férias
do farol e da ilha foram encerradas abruptamente, por isso decidiu
mesmo assim embarcar rumo ao farol, nem que fosse a última
coisa que pudesse fazer nessa viagem que o precipitava ao fim
sedoso no lençol das águas e à treva aconchegante
do adeus, mas não sem antes dar uma longa volta pelo Atlântico,
até a longínqua Ilha de Madeira, até às
dobras graníticas dos cabos que jamais reveria, até
as línguas de sal e areia que nas enseadas entortadas pelo
olhar distante se assemelham à curva dos seios de uma mulher
ao dorso branco e alvo de Conessa de pé, nua, calada de
frente para o espelho que a maresia e a tontura do balanço
das águas reproduzem na mente de Carlos, sim, vamos navegar,
as velas que partiriam pandas de coragem e esperança agora
se rasgam com uma forte lufada de vento, com a força da
água da tempestade, Carlos se sente fisgado pela última
imagem de sua queda, a visão fantástica das luzes
do farol iluminando as montanhas de água do oceano em pleno
temporal, as ondas de impiedosas alturas, a corrente de arrecifes
protegendo o largo da costa e os pequenos escales em meio aos
remoinhos aos poucos cedendo à fúria dos furacões,
quebrando-se, partindo-se, derretendo-se ao brilho intenso do
farol depositado entre blocos de pedras intransponíveis.
Agora inerte sobre os tombadilhos de um remoto futuro, entregue
à sua anestésica derrota, à sua misteriosa
aura de vôos impossíveis, Carlos se lembra de uma
conversa do passado:
"Se você assumir esse posto de faroleiro esqueça
que eu existo, que sua família existe!" - Berrava
o pai irado e inflexível na tarde em que Carlos anunciara
sua decisão.
Mas o farol era a sua vida, como poderia abrir mão desse
sonho de guiar os navios, as jangadas, os barcos a vela, a motor,
o viajante perdido, as braçadas de um suicida que perdeu
a amada, sim, o farol, para ele, era o símbolo das direções
e dos rumos, o norte de sua ânsia de entender a vida e o
mundo no silêncio iluminado das pedras - ele, as gaivotas,
os mergulhões, os albatrozes, sob a névoa dos astros
que pulsa na terra a sombra aveludada das veredas lunares das
estrelas, o símbolo das rotas acesas e do porto incendiado,
sem amarras, sem âncoras no reencontro com a viagem que
começa e com o cais que a abriga, sinais ou sendas cifradas
pelo Morse ignoto de outras eras, não poderia jamais abrir
mão desse prestígio, estava tudo pronto, sobretudo
depois que Conessa o abandonara e o mais irônico de tudo
é que agora quatro décadas após o recuo em
consideração ao pai, não poderia mais assumir
o posto, o barco naufragaria daqui a dois ou três minutos,
já sentia os músculos sendo arrancados por arraias
gigantes, os braços dilacerados por tubarões, ciclopes
e ciênidas gigantescos engolindo sua cabeça, caranguejos
ensandecidos arrancando-lhe as vísceras e nesse tormento,
em meio a essa tormenta de agonia e de pavor escutou de repente
o habitual barulho das gaivotas pousando na janela de seu quarto,
no alto do prédio do farol. Abriu os olhos com medo de
ver o fundo do mar e a sua terrível escuridão, com
medo de ver os próprios órgãos disputados
pelos peixes e pela temível e vária fauna marinha
que certa vez, em um dos longos passeios pela praia de São
Pedro, pôde ter uma modesta mostra da riqueza desse aquário
sem fim que todas as manhãs admirava do topo do farol,
de onde também podia sempre avistar a sua sonhada ilha
de coqueiros e pântanos desconhecidos, de frutas e de aves
das mais belas e variadas cores. Sim, eram suas amigas gaivotas,
seus ciumentos albatrozes, seus estimados mergulhões que
outra vez varavam a distância entre o mar e as pedras e
vinham despertá-lo.
Estranho, muito estranho como ainda hoje, 40 anos depois da minha
partida, ainda acredito que um dia vou ver chegar um barco iluminado
pela imagem delgada e branca de Conessa, seus cabelos negros,
seus olhos castanhos, suas mãos que flutuam no meu rosto
todas as noites e enxugam minhas lágrimas.
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