Franklin
Alves nasceu em Niterói, RJ,
em 1973. Atualmente cursa Português/Literaturas na Universidade
Federal Fluminense, onde também desenvolve uma pesquisa
sobre poesia e cegueira no poeta paulista Glauco Mattoso e no
argentino Jorge Luis Borges. Prepara um volume com poemas possivelmente
intitulado Anzóis. Os poemas desta página são
dedicados ao amigo e companheiro de viagem poética, Paulo
Maldonado.
raiva
acordar e quebrar televisões
(como as crianças quebram os brinquedos
e ainda com eles brincam)
andar na contra-mão
ansioso em tudo
paciente em nada
(sempre a perder antes de ganhar)
pronto para levar um pé na bunda
ser abandonado
(como todos os dias somos)
estar entre os milhares de
depressivos e seus anti-
depressivos e manuais
de auto-ajuda e livros
de não-faça-tempestade-em copo-d'água
e livros do dalai-lama
(ser um deles, feliz)
estar com a merda
até o pescoço
a mesma linha sempre
a mesma linha sempre
a mesma linha sempre
(nunca uma linha é a mesma, nem a
traçada na maior exatidão dos geômetras)
até dar um tiro
espancar alguém inocente
xingar as minorias
não aceitar ninguém
(eu levo o tiro, sou espancado, minoria, ninguém)
dormir e quebrar sonhos
andar na contra-mão
cavalo
1
ser todas as vozes
balbúrdia de ser quem não
é
a crina clara
2
ser ramo ou tronco em
que se faz um enxerto
ou vários
ser hoje sabendo que
não fui sozinho
mas fomos
cavalo
miles davis
de nada adiantará
esta música - verso cego
depois do sopro no barro
do sopro no metal
dos improvisos do acaso
a desviar linhas;
milhas da vida e dádivas
perde o fôlego
deixa que toquem por você
esta música cheia de erros
necessários
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