Alguns equívocos literários

 

 

Desinformação quase sempre e às vezes até mesmo ma fé têm provocado alguns equívocos na literatura de todos os tempos. Durante algum tempo se disse que Shakespeare nunca existiu e que a obra a ele atribuida era na verdade de Francis Bacon. Nunca houve um Homero, a Bíblia foi reescrita pelos apóstolos, Heródoto não foi um, mas vários historiadores. Confusões que foram talvez esclarecidas mas outras acabam por ser aceitas como verdades.

 

Aqui, Silvana Guimarães e José Nêumanne Pinto denunciam três equívocos recentes que estão quase se transformando em verdades, com a ajuda da internet. Envolvem três poemas: um que não é de Brecht, outro que não é de Borges e um terceiro que não é de Garcia Marquez

 

Seguem-se um billhete de Silvana e um artigo de Nêumanne Pinto:

 

Caro Celso

Estou chegando de viagem, voltando de férias longe, em NY. Mas, botando a vida em dia, fui conferir as novidades de 'Uma Coisa E Outra', acabei achando lá um dos equívocos poéticos mais antigos de que se tem notícia na poesia brasileira.

Veja como está:


A caminho com Maiakovski


(Bertolt Brecht)

 

Na primeira noite, eles se aproximam e roubam uma flor do nosso jardim: não dizemos nada.

Na segunda, já não se escondem. Pisam as flores, matam o nosso cão e não dizemos nada.

Até que um dia o mais frágil deles entra sozinho em nossa casa, rouba-nos a luz e, conhecendo o nosso medo, arranca-nos a voz da garganta.

E já não podemos dizer nada.

 


Veja como é:


NO CAMINHO, COM MAIAKÓVSKI


Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!


EDUARDO ALVES DA COSTA
Niterói, RJ, 1936

Nota: Poema publicado no livro 'Os Cem Melhores Poetas Brasileiros do Século', organizado por José Nêumanne Pinto, pag. 218.

Estou preparando uma edição sobre o poeta Eduardo Alves da Costa. Breve sai no PD.

 

 

O Artigo de Nêumanne

 

No meio dos alertas sobre os perigos do Aspartame, das correntes que prometem alimentar crianças pobres com um simples toque na tecla e das promessas de cheques em dólares em troca de informações sobre novos procedimentos na rede, dois textos literários destacam-se na Internet pela semelhança e pelas nobres assinaturas. Um é o poema Instantes, atribuído ao argentino Jorge Luís Borges. O outro, o poema em prosa Marionete, atribuído ao Prêmio Nobel da Literatura Gabriel García Márquez. Ambos são ruins. Ambos são falsos.


Do segundo ainda não se sabe exatamente a origem, muito embora já se saiba que partiu de Barcelona, onde fica o escritório da agente literária de García Márquez, Carmen Balcells. A respeito do texto, ela foi categórica, mandando dizer por fax: "Não reconheço uma só palavra como pertencente a Gabriel García Márquez". O jornalista cubano Carlos Alberto Montaner disse não crer que "Gabo tenha escrito algo tão ruim". Após ouvi-lo, a escritora brasileira Nélida Piñon, Prêmio Juan Rulfo, ironizou: "O poema é tão ruim que, se fosse meu, eu negaria. Aliás, eu lhe negaria até um cumprimento".


O jornalista e escritor brasileiro Eric Nepomuceno, tradutor e amigo de García Márquez, mesmo reconhecendo que o colombiano escrevera textos de má qualidade na longínqüa juventude, afastou essa possibilidade por causa das citações do poeta uruguaio Mário Benedetti e do cantor e compositor catalão Joan Manoel Serrat, dos quais o Prêmio Nobel só tomou conhecimento quando já era famoso.


Instantes


O certo é que o poema em prosa atribuído a García Márquez assemelha-se bastante no tema piegas e no estilo cafona a outro, também erradamente atribuído a Borges desde 1987: Instantes. Esse foi usado pelo então líder sindical e hoje deputado federal Luiz Antônio Medeiros num cartão de Natal, reproduzido em pôster, citado como epígrafe no livro de poesia de Granadeiro Guimarães e encaminhado na semana passada ao jornalista paraibano Carlos Aranha, que o reproduziu em sua coluna diária no jornal Correio da Paraíba, de João Pessoa. Sempre tido como de Jorge Luís Borges, apesar de não constar de suas Obras Completas, ora sendo traduzidas e publicadas no Brasil.


Nem poderia constar. A viúva do escritor, Maria Kodama, contou, por telefone de Buenos Aires, que teve o cuidado de ir à Justiça deixar registrado que o texto não era da lavra de Borges e que ela, como sua herdeira, não recebe - nem quer receber - direitos autorais. Fê-lo para evitar que sua verdadeira autora, a norte-americana Nadine Stair, reclame da falsa atribuição de autoria do texto a Borges.


Segundo Kodama, "o poema foi publicado originalmente numa antologia editada pela Bantam Books, traduzido para o castelhano e incluído, em 1987, numa revista de New Age chamada Uno Mismo, ao lado de uma caricatura e uma legenda de Jorge Luís Borges. Um locutor de rádio leu a revista, imaginou que o poema fosse de Borges, então já morto, e, assim, o divulgou".


O escritor gaúcho Moacir Scliar sente-se parcialmente responsável por essa divulgação no Brasil, por ter encontrado o texto em Buenos Aires e publicado em português em Porto Alegre. Mas fez questão de reproduzir a versão de Maria Kodama no jornal. Só que isso até agora de pouco adiantou. O texto continua circulando impresso ou na telinha do computador, como se fosse uma espécie de pecado literário borgiano.


Má-fé ou engano?


Mesmo havendo indicações de que tudo pode não ter passado de um engano em cadeia, Maria Kodama não afasta a possibilidade de haver uma dose de má-fé na insistente atribuição do poema, que, segundo ela, "é péssimo", ao marido.


A hipótese do engano é reforçada pelo que ocorreu com um trecho do poema No caminho com Maiakóvsky de autoria do brasileiro Eduardo Alves da Costa, muito citado como se fosse do alemão Bertolt Brecht, por ter sido incluído num pôster ao lado de um poema do autor de Turandot, ou do gênio russo, certamente por ter sido citado no título. O problema é que, ao contrário desse caso, em que o poema é de boa qualidade literária, os textos falsos são de má feitura.


De Madri, onde mora, pela mesma Internet que divulga esses equívocos, o jornalista dissidente cubano Carlos Alberto Montaner contou a saga de um chileno chamado Undurraga. Segundo ele, "o tipo misturava versos de Pablo Neruda com editoriais do jornal cubano Granma, compondo poemas falsos que conseguia publicar em publicações especializadas ou inscrevê-los em concursos literários, que vencia por atribuí-los sempre ao grande poeta chileno".


O que mais intriga, no caso do falso poema em prosa, de autor desconhecido e atribuído a García Márquez, é ele se assemelhar muito ao falso poema atribuído a Borges, mas de autoria conhecida. É mais um mistério da Internet.

 

Instantes

 

Se eu pudesse viver novamente a minha vida, na próxima trataria de cometer mais erros. Não tentaria ser tão perfeito, relaxaria mais.
Seria mais tolo ainda do que tenho sido; na verdade, bem poucas pessoas
levariam a sério.
Seria menos higiênico. Correria mais riscos, viajaria mais, contemplaria
mais entardeceres, subiria mais montanhas, nadaria mais rios. Iria a mais
lugares onde nunca fui, tomaria mais sorvete e menos lentilha, teria mais
problemas reais e menos imaginários.
Eu fui uma dessas pessoas que viveu sensata e produtivamente cada minuto da sua vida. Claro que tive momentos de alegria. Mas, se pudesse voltar a viver, trataria de ter somente bons momentos. Porque, se não sabem, disso é feito a vida: só de momentos - não percas o agora.
Eu era um desses que nunca ia a parte alguma sem um termômetro, uma bolsa de água quente, um guarda-chuva e um pára-quedas; se voltasse a viver, viajaria mais leve.
Se eu pudesse voltar a viver, começaria a andar descalço no começo da primavera a continuaria assim até o fim do outono.
Daria mais voltas na minha rua, contemplaria mais amanheceres e brincaria com mais crianças, se tivesse outra vez uma vida pela frente.
Mas, já viram, tenho 85 anos e sei que estou morrendo.


De Nadine Stair - Atribuído a Jorge Luís Borges

 

 

Marionete

Se por um instante Deus se esquecesse de que sou uma marionete de
trapo, e me presenteasse um pedaço de vida, possivelmente não diria tudo o que penso, mas definitivamente pensaria tudo o que digo.

Daria valor às coisas, não pelo que valem, senão pelo que
significam. Dormiria pouco e sonharia mais, entendo que por cada
minuto que fechamos os olhos, perdemos sessenta segundos de luz.

Andaria quando os demais se detêm, despertaria quando os
demais dormem, escutaria enquanto os demais falan, e como
desfrutaria de um bom sorvete de chocolate...

Se Deus me obsequiasse um pedaço de vida, me vestiria com simplicidade, me atiraria de bruços ao sol, deixando descoberto, não somente meu corpo, mas também minha alma. Deus meu, se eu tivesse um coração....
Escriveria meu ódio sobre o gelo, e esperaria que saísse o sol.

Pintaria com un sonho de Van Gogh sobre as estrelas um poema
de Benedetti,e uma canção de Serrat seria a serenata que
ofereceria à luaa. Regaria con minhas lágrimas as rosas,
para sentir a dor de seus espinhos,e o encarnado beijo de suas pétalas...

Deus meu, se eu tivesse um pedaço de vida... Não deixaria passar um só
dia sem dizer à gente que quero, que a quiero. Convenceria a
cada mulher e homem de que são meus favoritos e viveria enamorado
do amor.

Aos homens provaria quão equivocados estão ao pensar que
deixam de enamorar-se quando envelhecem, sem saber que envelhecem
quando deixan de se enamorar. A uma criança daria asas, mas deixaria
que ela aprendesse a voar sozinha. Aos velhos, a meus velhos, ensinaria que a morte não chega com a velhice, mas com o esquecimento.

Tantas coisas aprendi de vocês, homens..... Aprendi que o mundo todo quer viver no alto da montanha, sem saber que a verdadeira felicidade está na forma de subir a escarpa. Aprendi que quando um recém-nascido aperta com seu pequeno punho pela primeira vez o dedo de seu pai, o tem amarrado para sempre.

Aprendi que um homem unicamente tem direito de olhar
outro homem de cima para baixo, quando o tiver ajudado a se levantar.

São tantas coisas as que pude aprender de vocês, mas
finalmente de muitoo não haverão de servir porque quando me
guardem dentro desta maleta, infelizmente estaria morrendo....

 

De autor anônimo - Atribuído a García Márquez

 

 

Trecho de No caminho com Maiakóvski

 

Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem;
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho em nossa casa,
rouba-nos a luz, e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

 

De Eduardo Alves da Costa - Atribuído a Bertolt Brecht e Vladimir Maiakóvski