De escritor para escritor
Paulo Maldonado
Quem quer saber da história de um velho escritor, acontecida
em 1902? Não a história dele, mas de um momento
de sua vida. Uns vinte minutos de seus sentimentos e pensamentos.
O tempo do velho pegar o bonde no Largo do Machado e saltar no
Cosme Velho. Vão taxar de ourivesaria. A realidade comendo
solta à nossa volta, século e milênio terminando
e luxo de uma história dessas? Vale o trabalho?
Tudo bem que é um conto de escritor para escritor. Verossímil.
Bem poderia ter acontecido o inventado. E com busca de pegar
o leitor comum de tabela e mostrar que a fatura literária além
de palavras tem como escrita vaidade e inveja. Mas, vamos lá,
relato o argumento do conto como me foi narrado.
O velho escritor traja roupas apuradas de lord inglês. Cumprimenta
diversos passageiros ao entrar e transeuntes quando o bonde diminui
marcha. Sente-se conhecido de todos. Vive no topo da glória.
Sessenta e três anos cultuados com incomensurável orgulho.
Longe o tempo dos pés descalços nas ladeiras, vendendo
balas. Primeiras letras pela bondade de patroa. Concurso público
e repetição infinita de ruído de impressoras
e de horas na tipografia. Timidez para chegar à roda da livraria
da moda. Mais que lê, estuda, e escreve.
Logo discute franceses, os de língua inglesa e portugueses,
analisados em edições originais recém publicadas.
Quando disserta sobre Tristam Shandy, na Garnier desconhecem
Lawrence Sterne. Supera dificuldades financeiras e de saúde.
Assina artigos nos jornais. Cria crônicas. E livros de contos
e romances. Reúne os melhores de sua época e funda nossa
academia de letras. Ele, mulatinho do Morro do Livramento, Joaquim
Maria Machado de Assis, no ápice, o melhor escritor vivo do
Brasil, da língua portuguesa, não tem dúvida.
Até aquela manhã, quando pousa os olhos nas páginas
de "Os Sertões", de Euclides da Cunha. O velho Machado
remói no bonde o que levará consigo até morrer:
aquele jovem escreve inigualavelmente, melhor que ele. É maior.
Corriam os primeiros dias de outubro de 1996 e, entre chopps escuros
da Casa Urich, converso com João Antônio sobre este seu
conto, cujo enredo ele delineia e minha memória guarda. Época
de muitas vicissitudes, quase quarenta anos vivendo só para
criação literária, consciente do próprio
valor e sempre insistindo sobre a pequenez de seus escritos frente
ao formidável corpo da literatura brasileira, mas invejado,
retaliado, e isolado dos meios literários oficiais. João
Antônio morre solitário alguns dias depois, ninguém
sabe exatamente quantos, em apartamento alugado, na Praça Serzedelo
Correia, em Copacabana, apodrecendo umas duas semanas (imprecisão
de legistas).
Seus pertences e escritos inéditos são levados para
depósito improvisado numa granja, em Jacarepaguá.
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